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ARESTAS

ARESTAS

Colonizar Marte

 

Vi a notícia no Aljazeera na segunda-feira 16/01/13.

A forma como foi divulgado este projecto apelava a candidaturas, do género: «Tens mais de 18 anos, falas inglês, és uma pessoa equilibrada...Podes candidatar-te para ser selecionada/o a passar o resto da tua vida em Marte!»

Todo o projecto será subsidiado por um «reality show»

Estou perplexa, pela dimensão mediática deste projecto, pela forma como a vida do ser humano é considerada neste projecto e pelos contornos que o todo pode vir a ter...

mais aqui: http://mars-one.com/en/

TOPIAS no Gato Vadio com Alphaville

Hoje, às 21 horas no Gato Vadio (Rua do Rosário 281 - Porto) com ALPHAVILLE (1965) DE GODARD

Era uma vez um cineasta que nos disse que para fazer um filme bastava uma rapariga e uma arma. Eis a presença dos dois nesta lenda cinematográfica: uma rapariga, Natacha e uma arma, a de Lemmy Caution.

 

Entre o ensaio, o filme policial, o filme de ficção científica e o western, os géneros ecoam uns nos outros recheados de referências à literatura, mas também ao cinema. Quando chegamos a Alphaville, é num Ford Galaxy após 9 mil quilómetros, precisamente às 24h17m hora oceânica, para não esquecer a desventura de 1984 (Orwell). Entre as sombras e as luzes, o alvo é o Professor Von Braun (Leonardo Nosferatu) tecendo laços com Lang e Murnau. As palavras mecânicas, precisas e rugosas de Alpha 60 convocam Borges e Schopenhauer, mas as palavras do poeta emergem do esquecimento numa «capital da dor».

 

Godard utiliza para este filme os cenários reais de Paris, onde constam planos da “Maison de la Radio”, transformando-os aos olhos do espectador numa cidade longínqua, semelhante a uma descida aos infernos, noutra galáxia. Um espaço circular acolhe a lógica predominante, onde não há nem passado, nem futuro para esta sociedade anestesiada, mas onde apenas impera o presente. 

 

É a história da tecnocratização da sociedade – é Alpha 60 o computador que calcula os passos mais lógicos segundo os quais se constrói o rumo da sociedade e dentro da qual a espontaneidade e a imprevisibilidade do ser humano são banidas. O que é o amor, o que significa consciência? Perguntará Natacha.

 

No entanto, as ações calculadas de forma lógica tornam-se absurdas à luz da imagem humana. Alpha 60 assemelha-se a uma Esfinge que sucumbe ao desvendar de um enigma.

 

É neste ponto que Godard foca a sua mensagem principal: a ideia de que a lógica perde a sua validade num contexto social se não houver qualquer tipo de sensibilidade humana envolvida.

 

Evocando as palavras de Deleuze sobre o cineasta, apelidado de «cinema E» (E =conjunção coordenativa), o espectador é instigado a fazer a sua colagem. E podemos estabelecer um paralelo com a atualidade para quem quiser ver verdadeiramente. E «basta avançar para viver, seguir em frente na direção daqueles que amamos». E era uma vez um filme...

 

Apontamentos sobre Israel-Palestina (2)

A reflexão sobre as notícias oficiais publicadas online é sempre muito esclarecedora quando procuramos ler de forma atenta. Cada palavra colocada no seu respectivo espaço, naquele famoso eixo sintagmático, aquele das simultaneidades, acaba sempre por nos projectar de forma quase involuntária para aspectos da História, não só das palavras, mas da Humanidade. O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel publicou uma pequena nota a 27 de Setembro com o seguinte título: «Behind the Headlines: Palestinian Preconditions for Peace Talks».

 

O título indica-nos claramente que a Autoridade Palestina quer impor pré condições para continuar as discussões de paz. Parece-me muito curioso, primeiro porque sabemos de facto que os colonatos são ilegais. Portanto, a moratória nem deveria existir, nem deveria ser o ponto-chave neste momento das discussões. O ponto-chave seria retomar as resoluções não cumpridas por ambas as partes e discutir e resolver cada uma delas de forma justa e correcta para ambas as partes. Caso contrário, para que servem as resoluções da ONU? Quem contribui financeiramente falando para que essas mesmas resoluções sejam estudadas, elaboradas e comunicadas? Serão os habitantes de cada estado membro da ONU?

 

Israel constrói e instala-se em terras que não lhe pertencem e a própria elaboração da moratória é uma afronta à lei internacional. Contudo todos nós aceitamos a moratória, pois é falada nos nossos media e quase parece a chave do problema (actual). Não há nada a fazer, pois existe a moratória e é de facto um bom documento para um começo. Pergunto-me, como é que a comunidade internacional chegou ao ponto de aceitar a moratória, como é que a comunidade internacional permaneceu tão cega estes anos todos?Trata-se de uma apropriação ilegal, trata-se de espoliação de famílias e neste caso a resistência é totalmente legal. Como é que podemos concordar e apoiar discussões de paz quando nitidamente alguém está a invadir o Outro e que esse Outro não tem nenhum recurso a não ser basear-se num documento ilegal para se defender e tentar construir a paz?

 

Voltando ao artigo, vejamos estas duas primeiras frases: «The Palestinian Authority has preconditioned further peace talks on a halt to all Jewish building in the disputed territories. Israel, on the other hand, seeks to reach a negotiated peace settlement with its Palestinian neighbours as soon as possible.» (Tradução literal:  A Autoridade Palestina impôs pré condições à continuação de discussões de paz com base na interrupção de todas as construções judaicas nos territórios disputados. Israel, por seu lado, procura atingir um acordo de paz negociado com os vizinhos Palestinos o mais brevemente possível»). Conhecendo os sucessivos mapas (em 1946, 1948, 1967),  dando alguma viabilidade a um futuro estado Palestino, isto numa visão de dois Estados, posto que a proposta de um estado está definitivamente afastada, pergunto-me quais os supostos «territórios disputados» mencionados na notícia? Serão mesmo disputados ou usurpados?

 

Depois pergunto-me qual a boa-fé de Israel na vontade de paz com os «vizinhos palestinos», quando sabemos do boicote sistemático de qualquer solução ao longo dos anos de discussões, quando sabemos da proposta nitidamente colonialista de Israel, quando sabemos da conivência do Ocidente (EU & UE), quando sabemos dos ataques sucessivos perpetuados por Israel ao longo de 60 anos, quando sabemos dos ataques sangrentos em Gaza 2008-2009, quando sabemos dos sucessivos confrontos e destruições de casas palestinas em Jerusalém e de forma sistemática na Cisjordânia, quando sabemos do emparcelamento do território palestino, quando sabemos das humilhações e violências, quando sabemos agora, pela proposta de Lieberman, que o alvo e o problema é o Irão...

 

Não há boa-fé, nem se trata de boa-fé. A questão é que, por um lado, os Palestinos, enquanto povo judeu, muçulmano, cristão e laico sob o domínio britânico não podia, nem tinha as ferramentas para se organizar de forma a proteger a sua integridade e direitos enquanto povo habitante de uma terra, não houve unidade enquanto povo de várias confissões religiosas habitantes daquelas terras, o que é bastante natural numa situação colonial e, por outro lado, como quiçá o mundo ocidental (mais genuíno), não soube antecipar, nem prever o que realmente começou a ser construído a partir de 1878 com as primeiras colónias.

 

Agora, Israel é aquilo que podemos chamar um estado pária e pior Israel é semelhante a uma criança malcriada que faz birras subtilmente controladas, mas tão insuportáveis aos olhos benevolentes dos media, que obtém sempre o que quer e que Outros querem!. A observação dos mapas acima referidos permite-nos confirmar que todas as negociações pautaram o crime político cometido por Israel com o apoio do Ocidente e o suicídio político sofrido pelos diversos negociadores de paz do lado palestino, tal como a entrevista a Ziyad Clot confirma. A solução de um único estado, unindo habitantes de um território, há muito que não é possível. A solução de dois estados vivendo lado a lado, partilhando passagens e espaços tornou-se impossível dada a actual configuração demográfica e geográfica daquilo que fora chamado Palestina e dado o crime político habilidosamente orquestrado ao longo de 60 anos. Contudo, segundo Michel Collon uma união sólida e efectiva dos Povos, revoltados com esta situação e que possam e queiram pressionar os seus representantes, ainda pode ter um peso contra este colonialismo com um rosto manipulador, subversivo, oculto e mortífero?

 

Ana da Palma

Apontamentos sobre Israel-Palestina (1)

Sabemos que Israel foi autorizada a existir, enquanto país, pelas Nações Unidas e consequentemente pelo Mundo Ocidental. Sabemos que foi uma decisão formulando vários objectivos que na verdade ainda não são bem claros, mas que permitiu perpetuar um colonialismo camuflado com o qual todo o mundo ocidental pactua indecentemente desde 1948.

 

Diante dos factos relatados pelos media correntes e decorrentes das decisões tomadas, temos uma vaga ideia das razões que levam a Europa e os Estado Unidos a serem condescendentes para com as decisões do Estado de Israel. Pois, muito sucintamente, estas envolvem questões de poder na região, como podemos verificar com as sucessivas guerras iniciadas no Médio Oriente e as consequentes mentiras e verdades de que temos conhecimentos a posteriori. Por um lado, verificamos que o apoio militar dos EU a Israel, permite disfarçar a adesão dos EU ao pacto de não proliferação de armas nucleares. Por outro lado, este «laissez faire» implica sentimentos de culpa que se têm instalado e propagado de forma perniciosa e que alimentam o desejo de poder. Uma primeira culpa sobrevive à custa dos horrores cometidos, neste caso concreto (mas não só) contra as comunidades judaicas durante a Segunda Guerra Mundial e uma segunda culpa hipocritamente disfarçada por terem pactuado com a espoliação e eliminação de um Povo que não soube antecipar o que já estava a acontecer antes da primeira guerra mundial ainda sob o controlo da Coroa britânica e a quem não foram dados os respectivos apoios e instrumentos para a sua autodeterminação.

 

Quando as discussões entre Mahmoud Abbas e Benyamin Netanyahu foram anunciadas em Agosto numa conferência de imprensa transmitida na televisão nenhum jornalista fez, ou foi autorizado a fazer, as perguntas pertinentes, ou quiçá, incómodas, que novas discussões implicavam, tanto nos pontos a discutir (fronteiras, refugiados, segurança, reconhecimentos e compromissos mútuos) como na legitimidade de Mahmoud Abbas em participar nas discussões. Naquele momento, teria sido legítimo questionar se, ao negociar com Abbas, sendo ele ilegítimo, se Israel estava a reconhecer a sua ocupação ilegal. Tendo em conta este aspecto, qualquer acordo favorável à Palestina era possível posto que Israel sabia e sabe que Abbas já não representa o Povo Palestino, neste caso um apoio estratégico do Hamas e dos Palestinos teria sido benéfico o tempo de concluir negociações e seguir com novas eleições. Mas na verdade, trata-se provavelmente e apenas de uma forma de Israel prestar contas aos EU e de legitimar diante da Comunidade Internacional a continuação da construção de colonatos, não de tentar resolver o problema.

 

Agora, a poucos dias do final da moratória sobre a construção de colonatos, que finda a 26 de Setembro de 2010, os órgãos de comunicação dizem-nos que as discussões iniciadas estão em perigo. Pergunto-me se as discussões estão em perigo, porque do lado Palestino não vai haver mais concessões (e com muito direito) ou se o perigo é principalmente o futuro sofrimento do Povo Palestino. Muitos activistas, jornalistas, analistas sempre foram cépticos e descrentes sobre estas discussões. Muitos apontaram o carácter fictício, ou ainda a autêntica farsa que constituem estes encontros, a continuar esta semana no Egipto (14 e 15 de Setembro). A ficção continua, pois Netanyahou só quer luz verde para continuar a construção e os Americanos pactuaram mais uma vez. Quando e se M. Abbas disser que não concorda, a culpa ira recair sobre os Palestinos, por não fazerem concessões, não quererem ceder mais uma vez às exigências de Israel, ou será que deveria dizer Estado Judeu? Não há estados Cristãos e como é que pode haver um estado de uma confissão religiosa que possa eventualmente se dizer também democrático?

 

O problema que não foi antecipado, nem pela comunidade internacional, nem pelos dirigentes da Palestina de forma clara foi que Israel, não tem uma existência justa, para retomar as palavras de Robert Fisk, Israel tem uma existência legal e até o seu direito de existir foi reconhecido em 1988 pelos Palestinos. Não há dúvidas, pois isto está inscrito na História. Agora verificamos que além de terem de ceder mais terras, os palestinos terão igualmente de reconhecer um Estado Judeu. Imagino o surto de medo que surgiria no Ocidente se houvesse a criação de um (dois ou mais) Estado Muçulmano!

 

Quanto à solução criativa enunciada por Netanyahou, presumo que a antiga proposta feita pela administração Bush está subjacente: oferecer a cidadania americana a 100 000 Palestinos. Isto constitui mais uma afronta ao Povo Palestino, mas, curiosamente, indica que no fundo a administração americana não vê perigo terrorista nos Palestinos. Outra solução foi enunciada por Noam Chomsky numa entrevista recente. Segundo ele, os EU e a Europa devem impor regras a Israel cortando todo o subsídio aos colonatos, promovendo um regresso dos colonos que assim o desejarem aos territórios Israelitas. Trata-se de uma proposta sensata em que a Comunidade Internacional terá de demonstrar firmeza, sem cair sistematicamente na questão ilusória da segurança de Israel. Israel é provavelmente a única e mais poderosa potencia militar na região e todos sabem que os Palestinos não constituem um perigo para a segurança de Israel.

 

Num momento em que o Ocidente cria o terrorismo numa proveta disfarçando as suas próprias inconsistências, desacreditando as nossas raízes ou ideias de democracia e direito, pactuando com a construção de todo o tipo de muros, temo que uma «solução criativa» apenas venha confirmar a eliminação e a deslocação, injusta mas legalmente aprovada pelo Ocidente, do Povo Palestino.

 

Portanto a comunidade internacional terá de impor regras de forma autoritária, solidária e consistente e apostar numa solução legal, mas justa para ambas as partes e que ambas as partes terão de aceitar incondicionalmente.


Ana da Palma

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