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ARESTAS

ARESTAS

Tradução: Carta para Ghuta

 

Carta para Ghuta

 

Houve uma revolução na Síria, é essa a evidência que toda a geopolítica de café, todas as conspirações imundas de teclado negam há anos. Esta cobardia de tasca que se espalha sem dificuldades desde o topo do Estado até ao coração de uma certa extrema-esquerda, não será mais esquecida do que a dignidade dos habitantes de Ghuta insurgente.

 

Querida Ghuta,

 

Escrevo-te com o coração cheio de vergonha. A vergonha de pertencer a duas comunidades, cobardes ou cegas, que te abandonaram.

 

Para começar, faço parte deste país que se chama França. Este país que se quer aquele dos direitos do Homem e da fraternidade. Este país que tem uma história em comum com a tua e da qual te conseguiste libertar pela força. Portanto, um país que te conhece bem. No entanto, em 2008, este país convidou o teu tirano Bachar ao seu desfile do 14 de Julho. Este mesmo Bachar que, um ano depois, armou os seus aeroportos com armas químicas prevendo a tua rebelião. A França também é um país de tradições. A prova é que já abrigava - e ainda abriga - o tio criminoso contra a Humanidade, Rifaat al-Assad, o açougueiro da prisão de Palmyra e autor do massacre de Hama. Lembras-te, este massacre ocorreu em 1982. Quatro anos depois, o presidente francês entregava-lhe a Legião de Honra por "serviço prestado à nação".

 

Deste país que é meu, esperava que te ajudasse, quando te revoltaste. Porque de agora em diante, já não podemos fingir que não conhecemos o verdadeiro rosto de Bashar al-Assad. Sublevaste-te, querida Ghuta, pela tua liberdade, pela tua dignidade, e, agora, estás em pé, depois de 40 anos de submissão aos Assad. Foste maltratada, torturada, espancada, gaseada, bombardeada, estuprada e esfolada pelo regime, mesmo assim, aguentaste-te e ficaste em pé. Com o sabor da liberdade na boca, já não te podias sujeitar ao tirano. Porque não se regressa dessas coisas. E doravante para ti, era a liberdade ou a morte. E estávamos tão orgulhosos! Ghuta livre, Ghuta digna, Ghuta em pé! E vivemos contigo a esperança de te ver finalmente livre do açougueiro de Damasco e seus shabihas. Não precisavas de ninguém para te reconstruíres e repuxar a barbárie. Mas o regime atacou com força, e quando a nuvem de gás sarin te atingiu no verão de 2013, chorámos contigo. Essas imagens de ti, das tuas crianças agonizantes, convulsionadas, sufocando rasgaram lágrimas nos nossos corações. A nossa raiva era ilimitada e Bachar acabara de cruzar a linha vermelha. Então esperaste. Depois de contares as tuas 1300 mortes, refugiaste-te nos edifícios e esperaste que chegássemos. Nós, que prometemos intervir se Bachar fosse longe demais. Pensavas: “Os franceses vão chegar!”. Esperaste vezes sem conta. E nunca chegámos. Esperávamos poder alcançar-te para te tirar das garras do carrasco, mas não o fizemos. E odiámo-nos por isso. Odiámos todos os que tornaram possível essa traição. Com um nó na garganta não conseguíamos aceitar que fosses abandonada ao teu destino. Com um nó estômago e raiva no corpo, levantaste-te e continuaste a lutar e organizaste-te para viver apesar do estado de sítio permanente. Do nosso lado, continuamos a defender-te aqui em casa.

 

Mas o campo político ao qual pertenço não conseguiu se destacar na ocasião. Este campo, que defende os valores da igualdade, da liberdade dos povos, da autodeterminação, da democracia, este campo não soube ver em ti a encarnação de todas as ideias que defendia. Aquele que não te conhece, apenas vê as bandeiras, os símbolos e as palavras. Não percebe que o teu léxico não é o mesmo que o nosso, mas que o teu coração e as tuas ideias são-nos comuns. Não percebe que estás apaixonada pela liberdade e que tudo o que queres é viver com dignidade. Esta esquerda que não te conhece, assustou-se e virou-te as costas. Comparou-te àqueles contra os quais lutaste e expulsaste: os membros do Estado islâmico. Ultrajou-te, ignorou-te e sujou-te. Quando a tua irmã Alepo caiu, uma certa esquerda até ironizou sobre o seu destino. No entanto, esta esquerda hipócrita apaixonada por si mesma, de que mais precisa? Esta esquerda que tem constantemente a revolução na ponta da língua, não viu que havia uma revolução popular autogerida, muito real, debaixo dos seus olhos, o teu único erro foi ignorar o campo lexical dela? E, no entanto, não havia nada mais libertário que os teus comités locais, os teus tansiqiyya al-malhalliyya, que a autogestão de todas as tuas infra-estruturas, que os teus civis organizados perante a escassez, que as tuas associações de mulheres para se ocupar dos órfãos, que as tuas escolas finalmente livres de escrever os seus próprios programas, que as tuas liwa e katiba que libertam as tuas aldeias e cidades de Al-Nusra e Daesh à patada? Mas não. Essa esquerda, esconde-se por detrás do anti-imperialismo e da Realpolitik. O seu anti-atlantismo primário e idiota, este anti-imperialismo dos idiotas úteis ou consciente do cúmplice Putin, é apenas a marca de uma tomada de posição estúpida e viscosa, esquecendo que um povo que se levanta contra o seu tirano não conhece outra posição do que aquela da dignidade e não faz caso das ninharias dos poderosos. A Realpolitik desta esquerda e o seu inimigo de direita é apenas um péssimo álibi para o crime que cometeu, não só ao abandonar-te ao teu destino, mas também ao mostrar uma complacência hedionda com os aliados do teu carrasco. Como pode ser tão insensível ao ponto de deixar morrer a tua revolução nessas condições atrozes quando, ao mesmo tempo, elogia um partido que conheces, oriundo da tradição estalinista e de que conservou todos os reflexos? E, enquanto essa esquerda vocifera contra ti, tu que, no entanto, conseguiste o que a esquerda sempre sonhou, o nosso presidente brinca com os lápis de cor que roubou ao Obama. Diverte-se a traçar linhas imaginárias de todas as cores e a fazer grandes declarações absurdas e desprovidas de sentido. Traça linhas vermelhas com o teu sangue derramado todos os dias, mas que ignora desde que permaneça devido às balas, barris, tortura e fome. O gás, muito querida Ghuta ... Ele espera o gás! Mas como deves-te rir dessa falsa promessa, tu que esperaste em vão quando o sarin devastou as tuas aldeias, sufocou as tuas crianças! Quando choraste por Zamalka e os seus habitantes... Mas este Macron, ele, o “intratável" sapo que quer ser tão grande quanto o boi, não defende o internacionalismo, a revolução popular e a autogestão. Pensando bem, isto é uma meia verdade. Mas espero que a posteridade condene fortemente a mediocridade de uma certa esquerda francesa e europeia de que tenho uma terrível vergonha por tanto mentir aos outros e a si mesma.

 

Enquanto agonizas sob as bombas, preparamo-nos a comemorar os 7 anos de tua revolução. Sete anos atrás, apenas algumas pessoas loucas saíram à rua para protestar em silêncio, de velas nas mãos, numa praça damascena em apoio às primaveras árabes. Sete anos depois, a tua Síria está devastada. E em breve virá o mês de Março. Celebraremos os 7 anos da tortura das crianças de Deraa e as primeiras fossas comuns da revolução. Enfim, Assad, ele, irá festeja-lhos. Na sua montanha de cadáveres. 500 mil mortes. Absurdo. Levantaste-te contra a tirania pela liberdade e a dignidade, tornando-te um exemplo para o mundo inteiro. Tristemente, nem todo o mundo estava preparado para este exemplo.

 

Hoje, estás sozinha sob as bombas. Mas não totalmente. Estamos aqui. Nós, os poucos que continuamos a esperar a tua vitória. Estamos dispersos, mas estamos aqui. Seguimos a tua vida diária de perto. Escutamos-te, observamos-te. Nos teus vídeos, querida Ghuta, vemos as tuas mulheres, homens e crianças que emergem dos escombros depois de um bombardeio. As ruínas, o grito das mães, as lágrimas das crianças, a ânsia dos socorristas que os levam para o hospital em breve por sua vez bombardeado. Temos medo contigo, choramos contigo, gritamos de raiva contigo. Não desviamos o olhar, é o que nos resta, é apenas o que temos. Ficaremos em pé erguidos contigo. Até ao fim, onde quer que vás. Perseguiremos Bachar até a morte para que um dia, ele pague pelo que fez a Khan Cheikhun, Aleppo, Daraya, Homs, Deraa, Idleb, Zabadani, Raqqa e a todas as outras. Desde 2011, recolhemos provas de sua barbaridade para que um dia ele possa ser condenado. Escrevemos livros para que a tua luta sobreviva às bombas e aos gases e que os sírios possam continuar orgulhosos do que fizeste e que ninguém possa esquecer. Ghuta magoada, Ghuta gaseada, Ghuta bombardeada, Ghuta de luto. Mas Ghuta rebelde, digna, livre e em pé! Tu, Ghuta, que não te vergas e que sabes que, de qualquer maneira, não tens hipótese de sobreviver a uma rendição. Porque o "Regime" não perdoa. Ele tortura, executa, massacra. Talvez desapareças. Essas pessoas, esses rostos nesses videos, em breve, talvez já não sejam. Bombardeadas, gaseadas ou degoladas, afinal, qual a diferença? Felizes são os mortos porque já não sofrem. E se isso acontecer, teremos que viver com tudo isso. Assim como todos os espectadores silenciosos que se tranquilizam com "isso é complicado" e "não podemos fazer nada", mas logo dirão entre o queijo e a sobremesa, que tudo isso era terrível e que Bachar é um ser odioso. Veremos Assad viver, ele, sim. Pavonear-se, regozijar-se, de braço dado com Putin, com Khamenei nas sombras, e o Hezbollah como guarda-costas. É possível desviar o olhar de ti sem se odiar? Porque nos proteger das imagens que nos envias se não somos melhores que as linhas de cor que se movem com os ventos?

 

Caros sírios, queridos habitantes de Ghuta, Idleb e Afrin, vemos vos combater e morrer, mas não vamos desviar o olhar. Honrar-vos-emos até ao fim e comemoraremos a vossa coragem e dignidade. Não esqueceremos e não vamos perdoar. Isto não vos trará reconforto nem sobrevivência. Mas isto impedir-nos-á de nos odiar e de compartilhar a indiferença dos cínicos e dos bastardos. Sois o orgulho dos homens e das mulheres que lutam pela liberdade e dignidade. Sois as nossas consciências feridas, mas uma coisa é certa: só queremos um futuro convosco, apenas convosco.

 

Houria Ghuta. Houria Souria.

 

Sarah Kilani, 21 de Fevereiro de 2018

 

Fonte: https://lundi.am/Lettre-a-la-Ghouta

 Tradução: Gisandra Oliveira

Tradução: Isto não é um movimento

A nova estrutura estatal é caracterizada pelo facto que a unidade política do povo, e daí, o sistema geral da sua vida pública, se reflecte em três séries que são de ordens distintas. As três séries não se situam à partida no mesmo ponto, mas uma delas, isto é, o Movimento encarregue do Estado e do Povo, penetra e conduz as duas outras.

Carl Schmitt, État, Mouvement, Peuple (1933)

Há cerca de um mês, que no final de cada semana, se especula sobre o estado do “movimento contra a lei El Khomri” - media, sindicalistas, militantes e esperançosos de toda a espécie querem acreditar que é desta: depois das manifestações “históricas” de 31 de Março que terão visto duplicar os efectivos dos desfiles de 9 de Março e agora as assembleias de “Nuit Debout” (noite em pé), o movimento tanto esperado, mas que nunca mais acabava de começar, nasceu finalmente. Talvez se persistimos tanto em pôr o nome de “movimento” ao que se passa neste momento em França, é porque se trata, na realidade, de algo totalmente diferente, algo de inédito. Porque um “movimento”, é exactamente algo que em França sabem gerir, isto é, vencer. Já lá vão os tempos em que movimentos levavam a transtornos extensos, as organizações, os governos, os media são mestres na arte de conjurar a ameaça que qualquer acontecimento de rua carrega consigo: que a situação se torne ingovernável. Não devemos nunca esquecer que o actual Primeiro Ministro não o é em virtude da sua licenciatura em história obtida nos anos 1980 em Tolbiac, mas porque se formou enquanto sindicalista na UNEF1. Na altura, era com Alain Bauer ou Stéphane Fouks, um dos pesadelos do Colectivo Autónomo de Tolbiac (o CAT) e inversamente.

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Um “movimento”, para todo o pessoal de enquadramento a que se reduz esta sociedade, é algo de reconfortante. Tem um objecto, reivindicações, um quadro, portanto com porta-vozes patenteados e possíveis negociações. Assim, nesta base, nunca é difícil separar entre o “movimento” e aqueles que “transbordam” do quadro, de chamar à ordem os seus elementos mais determinados, a sua fracção mais consequente. Serão qualificados oportunamente de “vândalos”, “autónomos”, “niilistas” quando é patente que aqueles que lá estão para impedir as dinâmicas, são precisamente os niilistas que só vêem no movimento uma oportunidade para os seus futuros postos ministeriais – todos os Valls, Dray e outros Julliards. Cortar um “movimento” da sua fracção mais “violenta” é sempre uma forma de o enfraquecer, de o tornar inofensivo e finalmente mantê-lo sob controlo. Os movimentos são efectivamente destinados a morrer, mesmo vitoriosos. A luta contra o Contrat Première Embauche2 (Contrato Primeiro Emprego – CPE) serve de exemplo. Basta um recuo táctico do governo e o terreno desaba aos pés dos que começaram a marchar. Alguns artigos na imprensa e alguns JT (Jornais Televisivos) contra os “jusqu’auboutistes3 bastam amplamente para retirar o que, ainda ontem, podia tudo: a legislação social sobre a qual os mais audaciosos procedimentos se tinham apoiado. Uma vez estas pessoas isoladas, os procedimentos policiais e depois judiciais, mais ou menos imediatos, vinham oportunamente secar o mar do “movimento”. A forma-movimento é um instrumento nas mãos dos que pretendem governar o social e mais nada. O extremo nervosismo dos serviços de ordem, em particular da CGT4, da BAC5 e as bófias durante as manifestações das últimas semanas é o sinal que trai a sua vontade desesperada de querer fazer entrar na forma-movimento o que se pôs em marcha e que lhes escapa totalmente.

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Toda a gente concorda. A lei do Trabalho é apenas “a gota de água que faz transbordar o copo”. O que se exprime na rua, em palavras de ordem ou confrontos, é “estamos fartos”, etc. O que se passa é que já não suportamos ser governados por essa gente, nem dessa maneira; e talvez até, diante do falhanço flagrante desta sociedade em todos os domínios, já não suportamos ser governados de todo. Tornou-se epidérmico e epidémico, porque se trata cada vez mais claramente de uma questão de vida ou de morte. Estamos fartos da política; cada manifestação tornou-se obscena, porque é obsceno a forma de se agitar de maneira tão impotente numa situação tão extrema em todos os aspectos.

Dito isto, faltam-nos palavras para designar o que se desperta em França neste momento. Se não é um “movimento”, o que é então? Diríamos que se trata de um “planalto”. Antes da palavra ser utilizada por Deleuze e Guattari para o título do seu melhor livro Mil planaltos, a noção foi elaborada pelo antropólogo e cibernético Gregory Bateson. Aos estudar nos anos 1930 o ethos balinês, é surpreendido por esta singularidade: enquanto os Ocidentais, quer na guerra, quer no amor, gostam das intensidades exponenciais, as interacções cumulativas, as excitações crescentes que levam a um culminar – orgasmo ou guerra total – seguido de uma descarga de tensão, social, sexual ou afectiva, os balineses, quer na música, no teatro, nas discussões, no amor ou no conflito fogem da corrida ao paroxismo; privilegiam os regimes de intensidades contínuas, variáveis, que duram, que se metamorfoseiam, que evoluem, em suma: que devêm6. Bateson vincula isto a uma prática singular das mães balinesas: “a mãe inicia um namorico com a sua criança, brincando com o seu pénis, ou estimulando-a de qualquer maneira para uma actividade de interacção. Portanto a criança fica excitada pelo jogo e durante uns instantes uma interacção cumulativa se produz. Mas, no momento em que a criança, aproximando-se de uma espécie de orgasmo, se agarra ao pescoço da sua mãe, esta desvia-se. Neste ponto, a criança inicia, como alternativa, uma interacção cumulativa que se traduz numa birra. Doravante, a mãe desempenha o papel de espectadora que tira prazer da birra da criança: repele os seus ataques sem manifestar furor” (Vers une écologie de l’esprit). Assim a mãe balinesa ensina à sua progenitura a fugir das intensidades paroxísticas. A fase em que estamos a entrar politicamente em França neste momento, não é – pelo menos até às ridículas eleições presidenciais, de que não há tanta certeza que desta vez nos consigam impor - uma fase orgásmica de “movimento” a que se segue a necessária debandada, mas uma fase de planalto:

uma região contínua de intensidades, vibrando nelas próprias, e que se desenvolve evitando qualquer orientação num ponto culminante ou em direcção a um fim exterior.7 (Deleuze-Guattari, Mille plateaux)

O nível de descrédito do aparelho governamental é de tal ordem que doravante encontrara no seu caminho, a cada manifestação, uma determinação constante, vinda de todos os lados, para abatê-lo.

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Portanto, não se trata da velha história trotskista da “convergência das lutas” – lutas que são actualmente tão fracas que mesmo fazendo-as convergir não chegaríamos a nada de sério, além de perder, na redução política habitual, a riqueza própria de cada uma delas –, mas da actualização prática do descrédito geral da política em todas as ocasiões, isto é das liberdades cada vez mais ousadas que vamos conquistar ao aparelho governamental democrático. O que está em cima da mesa, não é de todo uma unificação do movimento, mesmo por meio de uma assembleia geral do género humano, mas a passagem de limiares, deslocações, agenciamentos, metamorfoses, ligações entre pontos de intensidade política distantes. É evidente que a proximidade da ZAD8 tem efeitos sobre o “movimento” em Nantes. Quando 3000 alunas (os) de liceu entoam “tout le monde déteste la police” (toda a gente detesta a policia), vaiam o serviço de ordem da CGT, começam a manifestar de cara tapada, não recuam diante das provocações policiais e partilham soro fisiológico depois de terem apanhado com gás lacrimogéneo, podemos dizer que, num mês de bloqueios, um certo número de limiares foram passados, um certo número de liberdades foram tomadas. O desafio não é de canalizar o conjunto dos devires, dos transtornos existenciais, dos encontros que fazem a textura do “movimento” num único rio poderoso e majestoso, mas de deixar viver a nova topologia deste planalto e de percorrê-lo. A fase de planalto em que entrámos não procura nada de exterior a si mesma: “ é uma característica infeliz do espírito ocidental, de reportar as expressões e as acções a fins exteriores ou transcendentes, em vez de os estimar num plano de imanência de acordo com o seu próprio valor.” (Deleuze-Guattari, Mille plateaux). O que importa é o que já está a ser feito e o que cada vez mais não vai parar de ser feito: impedir passo a passo o governo de governar – e por “governo”, não se deve entender unicamente o regime político, mas todo o aparelho tecnocrata público e privado de que os governantes nos oferecem uma expressão apalhaçada. Não se trata portanto de saber se este “movimento” vai ou não conseguir acabar com a “lei El Khomri”, mas o que já está em curso: a destituição daquilo que nos governa.”

 

Fonte: https://lundi.am/CECI-N-EST-PAS-UN-MOUVEMENT

Tradução: Ana da Palma

 

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NOTAS DE RODAPÉ

 

1 Union Nationale des étudiants de France (União Nacional dos Estudantes de França)

3Neologismo de “jusqu'au bout” significando: até ao fim. Neste caso remete para “aqueles que vão até ao fim”.

5 Brigada anticomando - BAC

6 Em francês: “deviennent” por referência ao conceito deleuziano & Guattariano (Anti-Édipo) “devenir”: devir. Devir é o conteúdo próprio do desejo (máquinas desejantes ou agenciamentos). Torna-se um conceito específico em Kafka. Pour une littérature mineure.

7Deleuze & Guattari (1980, p.32). Mille plateaux. Paris: Les éditions de minuit.

8ZAD: Zone à Defendre (Zona a defender)

Médio Oriente: A corrida à supremacia

O Oriente Médio tornou-se um parque infantil onde os vários imperialismos se enfrentam. Um resumo das forças envolvidas e os seus respectivos interesses.

 

Em 2011, as revoltas populares no mundo árabe minaram a ordem geopolítica em vigor desde o final da Guerra Fria, mas não conseguiram derrubá-la. Durante um tempo as monarquias petrolíferas do Golfo estavam em pânico com a ideia de também poderem ser afectadas. As potências ocidentais temiam ver sua influência desafiada por regimes democráticos independentes. Por sua vez, o Irão e a Rússia encontraram-se em situação de vir a perder os seus aliados na região e de ser marginalizados. Estes múltiplos imperialismos conflituosos conseguiram desviar o impulso revolucionário, desvirtuando-o em lutas pelo poder em que o povo fica a perder.


Depois da indecisão, os ocidentais, as monarquias petrolíferas e a Turquia intervieram para se aproveitar da situação, mas o balanço é abismal, a região está desestabilizada, os caos, que se espalha, mergulha dezenas de milhões de pessoas na pobreza e beneficia principalmente os islamistas. O Iraque, a Líbia, a Síria e o Iémen ilustram agora esta situação. Na Síria, há quatro anos que os ocidentais lutam sem sucesso para derrubar o Assad, porque o regime resiste melhor do que era esperado graças ao Irão e à Rússia. Despojado de sua revolução, o povo sírio é prisioneiro das rivalidades entre o imperialismo regional e internacional. O país está devastado, cerca de 250.000 pessoas morreram, milhões estão deslocadas ou refugiadas no estrangeiro O número de actores, os seus objectivos específicos tornam o conflito sírio particularmente complexo.


A Síria é o principal campo de batalha dos imperialismos do Irão e da Arábia para a dominação do Oriente Médio, uma rivalidade agravada pelos antagonismos religiosos, xiitas contra sunitas e Persas contra Árabes. O regime de Damasco é vital para as ambições iranianas, dá acesso ao Mediterrâneo a Teerão e um corredor seguro para o apoio ao Hezbollah libanês. Estes dois aliados árabes são um elemento de dissuasão contra Israel para o Irão. Se Assad cai, o Hezbollah fica vulnerável ao ataque de Israel e o Irão perde os seus dois melhores trunfos geopolíticos. É por isso que a Arábia Saudita se obstina contra a Síria, especialmente depois da invasão do Iraque, em que os partidos xiitas iraquianos assumiram o poder em Bagdad, oferecendo ao Irão uma continuidade até ao mar. Arábia Saudita vive na obsessão com o "arco xiita", é no registo da guerra santa que mobiliza milhares de sunitas que vão lutar na Síria, enquanto os seus petrodólares financiam as tendências islamistas mais radicais da oposição síria, em particular o Exército da conquista, uma das mais poderosas coligações armadas, principalmente compostas pela Frente de al-Nusra (al Qaeda na Síria) e de Ahrar al Sham.


Instrumentalizar o Islão político


Catar e Turquia também são protagonistas de peso no campo dos anti-Assad. O Catar está repleto de petrodólares que investe com o objectivo de obter um lugar à mesa dos decisores. Além disso, planeia exportar o seu gás para o mercado europeu com a construção de um gasoduto atravessando a Arábia Saudita, a Jordânia e a Síria, um projecto rival do iraniano que quer alcançar o mesmo mercado através do Iraque e da Síria. A Turquia quer afirmar-se como uma potência regional na Arábia Saudita e Irão, Erdogan sonha com um novo Império Otomano. A revolta síria foi uma oportunidade formular as suas ambições imperialistas e é um dos principais apoiantes da oposição armada. É através da Turquia que transitam combatentes, armas e munições de todas as tendências anti-Assad incluindo DAECH. A Turquia está particularmente empenhada desde que os curdos sírios adquiriram maior autonomia e simpatia internacional.


A França, ex-potência colonial, é uma das mais implacáveis em querer a perda de Assad. Por trás da retórica democrática de nossos governantes escondem-se interesses menos respeitáveis. Ao tomar uma linha dura sobre a Síria, Paris procura acima de tudo para seduzir as monarquias do petróleo, a fim de vender mais armas, mas também com a esperança que invistam os seus petrodólares na economia francesa.


A Síria é um dos principais lugares de confronto entre um imperialismo norte-americano enfraquecido e um imperialismo russo em pleno renascimento. Ai enfrentam-se duas visões da ordem internacional, um mundo unipolar dominado pelos EUA contra um mundo multipolar regido por um clube selecto de grandes potências iguais. Ao intervir militarmente ao lado de Assad, o Kremlin desafia as pretensões hegemónicas norte-americanas no Médio Oriente, a fim de, finalmente, ser tratado em pé igualdade por Washington. Dois discursos se opõem, para Obama, Assad é a fonte de todos os problemas, enquanto permanecer no poder a guerra continuará e DAECH prosperará, para Putin, pelo contrário, Assad é a solução, apenas o seu regime tem a capacidade de derrotar o terrorismo.

 


Washington não quer destruir DAECH, limita-se a contê-lo, porque é útil. Os Estados Unidos não abandonaram a táctica de instrumentalizar o Islão político, a experiência do Afeganistão não lhes serviu de lição. Depois de terem sido forçados a sair do Iraque sem manter bases, usam o DAECH para negociar uma presença militar permanente com o governo xiita. Mas ao fazer isso, correm o risco de ver Bagdad cair no campo do Irão e da Rússia. Especialmente, Daech é o mais perigoso inimigo do regime sírio que querem derrubar, a ideia é que seus dois inimigos se esgotem lutando e que os grupos armados sírios pró-ocidentais arrecadem os trunfos. Mas estes grupos não têm peso militar e são incapazes de derrotar quem quer que seja, mesmo com o apoio aéreo da coligação aérea ocidental, algo que os seus patrocinadores sabem perfeitamente. Os curdos do YPG / YPJ são a única força credível com que os EUA podem contar, mas isso cria fortes tensões com seus aliados turcos que preferem outra coisa qualquer a um Rojava autónomo.



Imperialismo americano, Imperialismo russo


É o impasse desta estratégia, que criou condições favoráveis para a intervenção russa. Moscovo montou a sua própria coligação composta pelo exército regular e pelas muitas milícias sírias que lhe estão ligadas, do Hezbollah libanês, das milícias xiitas islamistas iraquianas e afegãs, e um contingente militar iraniano. O objectivo imediato é restaurar a situação militar do regime para que esteja numa posição forte nas negociações para encontrar uma solução política para o conflito. A médio prazo, se Putin consegue a sua aposta, o imperialismo norte-americano será marginalizado, enquanto o imperialismo russo verá seu espaço de manobra aumentado consideravelmente. O calvário dos povos do Médio Oriente não acabou, o futuro é sombrio, mas a esperança não morreu. A luta exemplar dos Curdos de Rojava abre a perspectiva de uma área desbravada dos vários imperialismos que a sangram. Naturalmente, o caminho vai ser difícil e longo, mas com a ajuda das forças progressistas do mundo inteiro a opressão pode ser superada.

 

24 Dezembro de 2015 |Hervé (AL Marseille)

Tradução de: http://www.alternativelibertaire.org/?Proche-Orient-La-course-a-la

«Do Estado de direito ao Estado de segurança», por Giorgio Agamben

Não se percebe o verdadeiro objectivo do prolongamento do estado de emergência [até finais de Fevereiro] em França, se não o situarmos no contexto de uma transformação radical do modelo estatal com que estamos familiarizados. Antes de mais, é preciso desmentir os comentários irresponsáveis de mulheres e homens políticos, segundo os quais o estado de emergência seria um escudo para a democracia.

Os historiadores sabem perfeitamente que é o contrário que é verdadeiro. O estado de emergência é precisamente o dispositivo pelo qual os poderes totalitários se instalaram na Europa. Foi assim que, nos anos que antecederam a tomada do poder por Hitler, os governos sociais-democratas de Weimar recorreram tantas vezes ao estado de emergência (estado de excepção como se diz em alemão) e que se pode dizer que a Alemanha, antes de 1933, já deixara de ser uma democracia parlamentar.

Ora o primeiro acto de Hitler, após a sua nomeação, foi de proclamar um estado de emergência, que nunca foi revogado. Quando estranhamos os crimes que foram cometidos impunemente pelos nazis na Alemanha, esquecemos que estes actos eram perfeitamente legais, porque o país estava submetido ao estado de excepção e que as liberdades individuais estavam suspensas.

Não vemos razão para que um tal cenário não se repita em França: imaginamos sem dificuldade um governo de extrema direita aproveitar-se de um estado de emergência ao qual os governos socialistas habituaram os cidadãos. Num país de vive num estado de emergência prolongado, e no qual as operações policiais se substituem progressivamente ao poder judicial, há que esperar uma rápida e irreversível degradação das instituições públicas.

A manutenção do medo

Hoje em dia, isto é quanto mais verdadeiro que o estado de emergência se inscreve no processo que está a contribuir para a evolução das democracias ocidentais para algo, que devemos doravante, chamar de Estado de segurança («Security State», como dizem os politólogos americanos). A palavra “segurança” impregnou de tal modo o discurso político que podemos dizer em receios que as “razões de segurança” substituíram o que outrora chamávamos a “razão de estado”.

No entanto, faz falta uma análise desta nova forma de governar. Como o Estado de segurança não depende nem do Estado de direito, nem do que Michel Foucault chamava de «sociedades de disciplina», convém adiantar aqui algumas bases para uma possível definição.

No modelo do britânico Thomas Hobbes, que influenciou tão profundamente a nossa filosofia política, o contrato que transfere os poderes para o soberano pressupõe o medo recíproco e a guerra de todos contra todos: o Estado é precisamente o que vem acabar com o medo. No Estado de segurança, este esquema inverte-se: o Estado funda-se de forma douradora sobre o medo e deve sustentá-lo a qualquer custo, pois é dele que saca a sua função essencial e a sua legitimidade.

Foucault já tinha mostrado que, quando a palavra “segurança” surge pela primeira vez em França no discurso político com os governos fisiocratas antes da revolução, não se tratava de prevenir as catástrofes ou as fomes, mas de as deixar acontecer para depois poder governá-las e orientá-las numa direcção estimada como proveitosa.

Nenhum sentido jurídico

Hoje em dia, igualmente, a segurança em causa não visa prevenir os actos de terrorismo (o que é de facto extremamente difícil, senão impossível, dado que as medidas de segurança só são eficazes a posteriori e que o terrorismo é por definição uma série de golpes prévios), mas a estabelecer uma nova relação com os homens, que consiste num controlo generalizado e sem limites – dai a insistência particular nos dispositivos que permitem um controlo total dos dados informáticos e de comunicação dos cidadãos, inclusive o levantamento integral do conteúdo dos computadores.

O primeiro risco que salientamos é a deriva para a criação de uma relação sistémica entre o terrorismo e o Estado de segurança: se o Estado precisa do medo para legitimar-se, no limite, há portanto que produzir o terror, ou pelo menos, não impedir que se produza. É assim que vemos países perseguirem uma política externa que alimenta o terrorismo que devemos combater no interior e sustentar relações cordiais e até vender armas a Estados de que sabemos que financiam as organizações terroristas.

O segundo aspecto importante de perceber, é a mudança do estatuto político dos cidadãos e do povo, que era supostamente titular da soberania. No Estado de segurança, vemos se produzir uma tendência irrepressível em direcção ao que devemos chamar de despolitização progressiva dos cidadãos, cuja participação na vida política se reduz às sondagens eleitorais. Esta tendência é tanto mais preocupante quanto fora teorizada pelos juristas nazis, que definiram o povo como um elemento essencialmente impolítico, cujo Estado deve garantir a protecção e o crescimento.

Ora, segundo estes juristas, há apenas uma forma de tornar político este elemento impolítico: pela igualdade de linhagem e de raça, que o vai distinguir do estrangeiro e do inimigo. Não se trata aqui de confundir o Estado nazi e o Estado de segurança contemporâneo: o que há que perceber, é que se se despolitiza os cidadãos, estes só podem sair da sua passividade se são mobilizados pelo medo contra um inimigo estrangeiro que não seja apenas externo (foram os judeus na Alemanha, hoje em dia, são os muçulmanos em França).

Incerteza e terror

É neste quadro que devemos considerar o sinistro projecto de privação da nacionalidade para os cidadãos binacionais que lembra, simultaneamente, a lei fascista de 1926 sobre a desnacionalização dos “cidadãos indignos da cidadania italiana” e as leis nazis sobre a desnacionalização dos judeus.

Um terceiro aspecto de que não se deve subestimar a importância, é a transformação radical dos critérios que estabelecem a verdade e a certeza na esfera pública. O que chama mais a atenção de um observador atento nos relatos dos crimes terroristas, é a integral renuncia ao estabelecimento da certeza judicial.

Tal como está definido num Estado de direito que um crime só pode ser comprovado por uma investigação judiciária, no paradigma securitário, devemos nos contentar do que relatam a polícia e os media dela dependentes – isto é duas instâncias que sempre foram consideradas como sendo pouco fiáveis. Daí a incrível nebulosidade e as contradições evidentes nas reconstruções precipitadas dos acontecimentos, que evitam, com conhecimento de causa, toda possibilidade de verificação e de falsificação e que mais se assemelham a mexericos do que a investigações. Isto significa que o Estado de segurança tem interesse em que os cidadãos – de quem deve garantir a protecção – permaneçam na dúvida acerca do que os ameaça, porque a incerteza e o terror vão par a par.

Reencontramos a mesma dúvida no texto da lei de 20 de Novembro sobre o Estado de emergência que se refere a “qualquer pessoa de que se suspeita existirem sérias razões para pensar que o seu comportamento constitui uma ameaça para a ordem pública e a segurança”. É totalmente evidente que a fórmula “ sérias razões para pensar” não tem qualquer significado jurídico e, dado que remete para o arbitrário daquele que “pensa”, pode aplicar-se a qualquer momento a qualquer pessoa. Ora, no Estado de segurança, estas fórmulas indeterminadas, que sempre foram consideradas pelos juristas como contrárias ao princípio da certeza do direito, tornam-se a norma.

Despolitização dos cidadãos

A mesma imprecisão e os mesmo equívocos aparecem nas declarações das mulheres e dos homens políticos, segundo os quais a França estaria em guerra contra o terrorismo. Uma guerra contra o terrorismo é uma contradição nos termos, porque o estado de guerra define-se precisamente pela possibilidade de identificar de forma certeira o inimigo que devemos combater. Na perspectiva securitária, o inimigo deve – pelo contrário – permanecer numa nebulosa, para que qualquer pessoa – no interior, mas também no exterior – possa ser identificada como tal.
Eis as três características do Estado de segurança: manter o estado de medo generalizado, despolitizar os cidadãos e renunciar a qualquer certeza de direito, cujos contornos bem podem perturbar os espíritos. Porque isto, por um lado, significa que o Estado de segurança, para o qual deslizamos, faz o contrário do que aquilo que promete, posto que – se segurança significa ausência de preocupação (sine cura) – o Estado alimenta o medo e o terror. Por outro lado, o Estado de segurança é um Estado policial, porque com o eclipse do poder judiciário, generaliza a margem discricionária da polícia que, num estado de emergência que se tornou normal, age cada vez mais como soberana.

Com a despolitização progressiva do cidadão, que se tornou de certa forma um terrorista em potência, o Estado de segurança sai finalmente do domínio conhecido da política, para se dirigir para uma zona incerta, onde o público e o privado se confundem, e de que temos dificuldades em definir as fronteiras.

 

Fonte:

LE MONDE | 23/12/2015 | http://www.lemonde.fr/idees/article/2015/12/23/de-l-etat-de-droit-a-l-etat-de-securite_4836816_3232.html

Giorgio Agamben nasceu em 1942 em Roma (Itália). Filósofo, autor de uma obra teórica reconhecida e traduzida no mundo inteiro, acaba de publicar La Guerre civile. Pour une théorie politique de la Stasi e L’Usage des corps. Homo Sacer, IV, 2.

 

Tradução: Ventos de insurreição na Turquia por Alain Gresh

Ventos de insurreição na Turquia

Publicado: Quarta-feira 5 de Junho de 2013 por Alain Gresh

Fonte: http://blog.mondediplo.net/2013-06-05-Vent-de-fronde-en-Turquie  

 

«É bastante tentador de ver nas manifestações na Turquia um islamismo governamental a ser contestado por um movimento laico-republicano, ao contrário da praça Tahir no Cairo, onde um poder laico-republicano combatia a revolta de uma nebulosa islamita...»

Foi assim que Levent Yilmaz, professor de história na universidade de Bilgi de Istambul, foi questionado por Mediapart a 4 de junho de 2013[1], ao que ele respondeu:

«A concentração que aconteceu na noite de sábado (1º de Junho) desafia este tipo de tipologia. Até se chegou a ver adeptos de clubes de futebol inimigos apoiarem-se, respondendo ao apelo poderoso e unânime das redes sociais: uma mistura impressionante de pessoas, sem as características, as particularidades e exclusividades dos movimentos partidários.

De facto, a oposição institucional renuncia a tentar recuperar este movimento e o seu milhão de Turcos contestatários, tratando-se portanto de um movimento popular espontâneo, sem ideologia preconcebida, nas mãos de indivíduos responsáveis que até limparam a praça e o jardim depois das cargas policiais.»

Passemos adiante sobre a pergunta do jornalista…e a definição da luta no Egipto como sendo a oposição de uma nebulosa islamita ao poder laico-republicano (até parece um sonho), mas a resposta de Yilmaz opõe-se às simplificações correntes sobre a Turquia, mas também sobre o mundo árabe (Tunísia, Egipto) e que reduzem a vida política ao enfrentamento de dois blocos.

Para uma boa abordagem ao que se escreve sobre a Turquia, podemos consultar o site de Alain Bertho, « Anthropologie du présent [2]», que segue os acontecimentos no dia-a-dia.  

E também o blogue de Etienne Copeaux, « Un pas de côté dans les études turques [3]».

Sim, o Partido da justiça e do desenvolvimento (AKP) vem de um movimento islamita próximo dos Irmãos Muçulmanos. Mas é importante fazer um balanço objectivo do que realizou desde que entrou em cena em 2002 e que se traduziu por duas novas vitórias nas eleições legislativas em 2007 e em 2011 (este último ano com cerca de 50% dos sufrágios)

O mais importante avanço, realizado por este partido, foi o afastamento do exército, que regressou aos seus quartéis (sobre este confronto, ler «Qui gouverne la Turquie ?[4]»). Até então, esta instituição era todo-poderosa e tinha um peso político desmedido, regularmente denunciado pela União europeia. Porque é certo que não pode haver progressos democráticos quando o estado-maior decide os assuntos essenciais. Um dos problemas da oposição, dita de esquerda (o Partido republicano do povo, CHP) é que é capaz de escolher entre a sua fidelidade ao exército e à democracia. Este partido é atravessado por numerosas correntes e foi incapaz de apresentar uma solução alternativa ao AKP (obteve cerca de 26% dos sufrágios em 2011)

Num site apaixonante consagrado ao futebol e ao seu lugar no Medio Oriente, « The Turbulent World of Middle East Soccer[5]» (com um lugar de destaque dado aos ultras, os adeptos dos clubes de que conhecemos o papel sobretudo no Egipto), James Dorsey aponta o seguinte a 2 de Junho :

«Contrariamente às manifestações de massa que derrubaram os dirigentes nos países da África do Norte, os protestos na Turquia visam um dirigente democraticamente eleito que ganhou três eleições com uma maioria respeitável, que presidiu a um período de crescimento económico importante e recolocou o seu país enquanto potência regional com ambições mundiais. Aconteceram igualmente num país que, contrariamente aos países árabes, e apesar de todos os seus defeitos, é democrático e tem uma população civil activa e fortemente desenvolvida.»

Haveria que acrescentar também que foi este governo que teve a coragem de abrir negociações com os «terroristas» do Partido dos trabalhadores do Curdistão (PKK).

Então o que se passou ? Por que razão uma manifestação ecológica no centro de Istambul se transformou em insurreição?

Houve pelo menos, de forma indirecta, dois factores que provocaram um certo descontentamento : o afrouxamento económico (note-se que apesar de uma sensível diminuição nos anos 2000 [6](PDF), as desigualdades continuam importantes na Turquia); e uma crescente hostilidade ao activismo de Ancara na Síria. 

Mas a principal responsabilidade pela revolta cabe àquele que fez o êxito do AKP, Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro. Entusiasmado pelas suas realizações, procura consolidar a todo custo o seu poder, mandar redigir uma constituição presidencial que lhe permitirá aspirar ao cargo de chefe do Estado, desdenha os seus adversários e multiplica as iniciativas trapalhonas.

Mas com certeza, o mais grave é a deriva autoritária que levou à detenção de dezenas de jornalistas e centenas de oponentes, nomeadamente curdos. A brutalidade da repressão contra os manifestantes de Taksim uniu uma vasta frente muito heteróclita que, certamente, não se limita os «laicos», contra ele. Como o relembra James Dorsay, pela primeira vez, desde há 30 anos, os adeptos dos três grandes clubes de futebol de Istambul, apesar de serem rivais, uniram-se aos manifestantes, cuja diversidade política e sociológica é notável, como o referem Didem Collinsworth e Hugh Pope, « The Politics of an Unexpected Movement[7] » (4 de Junho):

«Ainda mais singular é a presença de grupos rivais agindo lado a lado, inclusive os que representam a comunidade Alevi (cerca de 10% da população da Turquia), ultranacionalistas, conservadores de direita, alguns Islamitas e os curdos da Turquia – alguns erguendo a bandeira do PKK. Alguns grupos mais marginais também se juntaram aos protestos, inclusive esquerdistas e marxistas assim como anarquistas erguendo bandeiras pretas.»

As interpretações que querem ver nestas acções um movimento contra a re-islamização da sociedade não correspondem à realidade. Levent Yilmaz salienta que: «estamos perante um governo conservador muçulmano que no entanto não exerceu pressão confessional. Erdogan ostenta um perfil autoritário. Parece estar em vias de «putinização». Mete o nariz em tudo e suscita medo. Esta atmosfera de medo, sufocante, ganhou sectores que pareciam estar intelectualmente armados para resistirem: os media, a universidade...

Mas as interpretações, em França ou alhures, levam por vezes a sobre-interpretar alguns sinais de autoritarismo por sinais religiosos. O exemplo das recentes disposições limitando a venda de álcool é sintomático. O assunto parece-me menos repressivo que muitas disposições de além atlântico, por exemplo, onde a venda é frequentemente proibida aos menores de 21 anos. Na Turquia, fundamentando-se numa legislação já existente, o poder quer travar a venda após as 22 horas ou nas cercanias das escolas. Vejo nisso, mais uma marca do conservadorismo do que do islamismo.»

E preciso realçar também a força do poder sobre os grandes meios de televisão audiovisuais que desempenharam também um papel no furor dos manifestantes (ler « Dans la rue, la colère monte contre “CNN-Pingouins” et les médias turcs acquis au pouvoir [8]», LeMonde.fr, 4 de Junho).

O que é que vai acontecer agora que o primeiro-ministro está na África do Norte, que o sindicato da função pública convocou uma greve de 48 horas (com fraca adesão) e que a confederação sindical dos trabalhadores revolucionários (DISK), que reivindica 420 000 membros, convoca uma greve para quarta-feira 5 de Junho ?

Na ausência de Erdogan, segundo a AFP, o vice-primeiro-ministro Bülent Arinç reconheceu as reivindicações «legítimas» dos ecologistas na origem da revolta. Também apresentou as suas «desculpas» ao grande número de civis feridos e lamentou o uso abusivo dos gases lacrimogéneos pela polícia «que fez descambar as coisas».

Existem divisões no seio do AKP ? Sem dúvidas, e as palavras do presidente Gul foram tão apaziguadoras, tal como as do vice-primeiro-ministro. Mas seria prematuro riscar o Erdogan, que ainda conta com grandes apoios, inclusive de uma parte notável da população.

Sobre o movimento de Fethullah Gülen , ler Wendy Kristianasen, « Ces visages multiples de l’islamisme[9] », Le Monde diplomatique, Julho de 1997.

Outro factor importante levantado por Dorsey : «O rival islamita do Sr. Erdogan, Fethullah Gülen, um poderoso religioso auto-exilado, radicado na Pensilvânia, exercendo uma influência sobre a polícia, pode ter visto nos protestos uma ocasião para enfraquecer o primeiro-ministro. O colega de partido do Sr. Erdogan, o presidente Abdullah Gul, é considerado como sendo próximo do Sr. Gülen. Numa alusão velada ao Sr Erdogan, o Sr. Gülen pregou recentemente contra o orgulho. Por outro lado, relatórios circulando por Istambul dizem que o exército, que partilha das suspeitas dos laicos relativamente ao governo, recusou os pedidos de ajuda vindos da polícia e um hospital militar até teria distribuído máscaras de gás aos manifestantes.»

 

Tradução: Os Últimos dos Semitas por Joseph Massad

Os Últimos dos Semitas

Os oponentes judeus ao sionismo perceberam que este movimento, desde o início, partilhava preceitos com o anti-semitismo, no que concerne o seu diagnóstico daquilo que os europeus não Judeus (os Gentios) chamavam a «questão judia». Contudo, o que ulcerou ainda mais os Judeus anti-sionistas foi que o sionismo retomou por sua conta a «solução» para a questão judia, aquela que os anti-semitas sempre tinham preconizado, ou seja a expulsão dos Judeus da Europa.
Foi a Reforma protestante, com a retomada da bíblia hebraica, que estabeleceu a ligação entre os Judeus modernos da Europa e os antigos Hebreus da Palestina, uma ligação que os filólogos do século XVIII consolidaram pela sua descoberta da família de línguas chamadas «semitas» entre as quais se encontram o hebraico e o árabe.
Enquanto os Protestantes milenaristas sustentavam que os Judeus contemporâneos, enquanto descendentes dos antigos Hebreus, deviam sair da Europa com rumo à Palestina, de forma a acelerar a segunda vinda de Cristo, as descobertas filológicas conduziram à rotulagem dos Judeus contemporâneos enquanto «semitas». Não foi portanto um passo de gigante que, no século XIX, as ciências biológicas da raça e da hereditariedade fizeram ao considerarem os Judeus europeus contemporâneos como os descendentes raciais dos antigos hebreus.


Com base nas conexões feitas pelos protestantes milenaristas anti-judeus, personalidades europeias laicas verificaram a vantagem política de que beneficiariam do «restabelecimento» dos Judeus na Palestina no século XIX. Menos interessados pela aceleração da segunda vinda do Cristo, tal como queriam os milenaristas, estes homens políticos laicos, desde Napoleão Bonaparte ao ministro britânico dos negócios estrangeiros Lord Palmerston (1785-1865) até Ernest Laharanne, o secretário privado de Napoleão III nos anos 1860, procuraram expulsar os Judeus da Europa para a Palestina para fazer deles agentes do imperialismo europeu na Ásia.
O apelo deles foi apoiado por numerosos «anti-semitas», uma nova etiqueta escolhida pelos racistas europeus anti-judeus após a sua invenção em 1879 por um jornalista vienense menor de nome Wilhelm Marr, que publicou um programa político intitulado A vitória do Judaísmo sobre o Germanismo (http://www.kevinmacdonald.net/Marr-Text-English.pdf). Marr teve o cuidado de separar o anti-semitismo da história do ódio cristão dos judeus com base na religião, acentuando, directamente vindo da filologia semítica e das teorias raciais do século XIX, ou seja que a distinção a fazer entre os Judeus e os Arianos era estritamente racial.

Assimilar os Judeus à cultura europeia

O anti-semitismo científico afirmava que os Judeus eram diferentes dos Europeus cristãos. E claro que os Judeus não eram de todo europeus e que a sua presença no seio da Europa era a causa do anti-semitismo. A razão pela qual os Judeus causavam tantos problemas aos Cristãos europeus estava relacionado com o seu suposto desenraizamento, faltando-lhes um país, portanto faltava-lhes a lealdade nacional. Na idade romântica dos nacionalismos europeus, os anti-semitas argumentaram que os Judeus não se enquadravam nas novas configurações nacionais e que perturbavam a pureza nacional e racial essencial à grande parte dos nacionalismos europeus.
Por esta razão, os anti-semitas sustentavam que se os Judeus ficassem na Europa, apenas provocariam a hostilidade dos cristãos Europeus. A única solução para os Judeus era de sair da Europa e de ter o seu próprio país. Não precisamos de realçar o quanto os Judeus religiosos e laicos estavam opostos a esta terrificante forma de pensar anti-semita. Os Judeus ortodoxos e reformistas, os Judeus socialistas e comunistas, os Judeus de cultura cosmopolita estavam de acordo que se tratava de uma ideologia perigosa e hostil que procurava expulsar os Judeus das suas pátrias europeias.
A Haskalah judia, ou Luzes, que emergiu também no século XIX, é um movimento de pensamento que se traduz numa vontade de integração dos Judeus nas sociedades laicas europeias não judias fazendo-lhes abandonar a sua cultura judia. Foi a Haskalah que procurou quebrar a hegemonia dos rabinos judeus ortodoxos sobre os «Ostjuden» [Judeus do Leste] das pequenas vilas da Europa do Leste e abandonar o que percebiam ser uma cultura judia «medieval» a favor da cultura laica moderna dos Cristãos europeus. Um Judaísmo reformado, como uma variante cristã – e de tipo protestante – do Judaísmo, emergiu no seio da Haskalah . No entanto, este programa assimilacionista procurou integrar os Judeus na modernidade europeia, não expulsa-los para fora da geografia da Europa.
Há um século e meio, quando o sionismo começou, após a publicação do programa anti-semita de Marr, ele aderiu a todas estas ideias anti-judias, inclusive o anti-semitismo científico considerado como sendo válido. Para o sionismo, os Judeus eram «semitas», cujos antepassados eram os antigos Hebreus. Na sua brochura fundadora, Der Judenstaat [O Estado dos Judeus], Herzl explicava que eram os Judeus, e não os seus inimigos cristãos, que eram a «causa» do anti-semitismo e que «onde não existe, [o anti-semitismo] é trazido pelos Judeus durante as suas migrações», dado que «os desgraçados Judeus levam as sementes do anti-semitismo para Inglaterra; já as introduziram na América»; que os Judeus eram uma «nação» que deveria deixar a Europa para restaurar o seu «estatuto de nação» na Palestina ou na Argentina; que os Judeus deveriam imitar os Cristãos europeus de um ponto de vista cultural e abandonar as suas línguas e tradições vivas a favor das línguas europeias modernas ou uma língua nacional antiga restaurada.
Herzl preferia que todos os Judeus adoptassem o alemão, enquanto os sionistas da Europa do Leste preferiam o hebreu. Depois de Herzl, os sionistas até aceitaram e afirmaram que os Judeus eram racialmente separados dos Arianos. Quanto ao Yiddish, a língua viva de grande parte dos Judeus europeus, os sionistas achavam que devia ser abandonada.
A maioria dos Judeus continuou a resistir ao sionismo e percebeu que os seus preceitos, tal como os do anti-semitismo e como a demanda da Haskalah de abandonar a cultura judia e de assimilar os Judeus na cultura europeia laica não judia, excepto que o sionismo procurava perseguir este último objectivo não no interior da Europa, mas numa região geográfica longínqua que resultasse da expulsão dos Judeus da Europa. O Bund, a União geral dos trabalhadores judeus da Lituânia, da Polónia e da Rússia, que foi criado em Vílnius a 7 de Outubro de 1897, algumas semanas após o primeiro Congresso sionista em Basileia no final de Agosto 1897, tornou-se o mais feroz inimigo do sionismo. O Bund juntou-se à coligação judia anti-sionista existente, composta por rabinos ortodoxos e reformistas que alguns meses antes uniram os seus esforços para impedir Herzl de convocar o primeiro congresso sionista em Munique, o que o forçou a fazê-lo em Basileia. O anti-sionismo judeu, na Europa e nos Estados Unidos, tinha o apoio da maioria dos Judeus que continuavam de ver o sionismo como um movimento anti-judeu até aos anos 1940.

Uma corrente anti-semita de pro-sionistas entusiastas

Ao perceber que o seu plano para o futuro dos Judeus europeus encontrava-se alinhado com o dos anti-semitas, Herzl elaborou muito rapidamente uma estratégia de aliança com eles. Declarou no Estado dos Judeus que: «Os governos de todos os países atingidos pelo anti-semitismo estarão interessados em nos ajudar a obter a soberania que desejamos.»
Acrescentou que «não só os Judeus pobres» contribuiriam para um fundo para a imigração dos Judeus europeus, «mas também os Cristãos que se querem ver livres deles». Herzl não teve complexos em confiar no seu Jornal que : «Os anti-semitas tornar-se-ão os nossos mais fiáveis amigos, os países anti-semitas os nossos aliados.»
 
Assim, em 1903, quando Herzl começou a encontrar-se com notáveis anti-semitas, tal como o ministro russo do Interior, Vyacheslav von Plehve, que supervisionou os pogromes anti-judeus na Rússia, foi uma aliança que procurou com um objectivo. Quer seja o anti-semita Lord Balfour, que enquanto Primeiro ministro da Grã-Bretanha em 1905, supervisionou a Lei sobre os Estrangeiros do seu governo, que impedia os Judeus da Europa do Leste fugindo os pogromes russos de entrar na Grã-Bretanha para, como o declarou, salvar o país dos «incontestáveis males» de «uma imigração que era essencialmente judia» não foi uma coincidência.
A infame declaração Balfour de 1917, criando na Palestina um «lar nacional» para «o povo judeu» foi concebida, entre outras coisas, para reduzir o apoio judeu à Revolução russa e para reprimir o fluxo de emigrantes judeus indesejáveis na Grã-Bretanha.
Os Nazis não foram excepção nesta corrente anti-semita de pró-sionistas entusiastas. Com efeito, muito cedo na sua história, os sionistas estabeleceram um acordo com os nazis. Foi em 1933 que o infame Acordo de Transferência (Ha’avara) foi assinado entre os sionistas e o governo nazi para facilitar a transferência dos Judeus alemães e dos seus haveres para a Palestina e que este quebrou o boicote judeu internacional à Alemanha nazi iniciado pelos judeus americanos.
Foi neste espírito que emissários nazis foram enviados para a Palestina para produzirem relatórios acerca dos êxitos da colonização judia no país. Adolf Eichmann regressou da sua viagem à Palestina em 1937, com relatos fantásticos sobre os feitos de um kibutz asquenazim com a separação racial, um dos que visitou no monte Carmel enquanto convidado dos sionistas.   
Apesar da esmagadora oposição da maioria dos Judeus alemães, a Federação sionista da Alemanha foi a única organização judia a apoiar as leis de Nuremberga de 1935, dado que partilhavam da opinião dos nazis de que os Judeus e os Arianos eram raças distintas e deviam ser separadas. Não se tratava de um apoio táctico, mas da ilustração de uma proximidade ideológica. A solução final dos nazis significava nesse momento a expulsão dos Judeus alemães para Madagáscar. É este objectivo comum acerca da expulsão dos Judeus da Europa, enquanto raça distinta e não assimilável, que criou uma afinidade durável entre os nazis e os sionistas.
Enquanto a maioria dos Judeus continuava a resistir à natureza anti-semita do sionismo e às suas alianças com os anti-semitas, o genocídio nazi não só massacrou 90% dos Judeus da Europa, mas também matou a maioria judia inimiga do sionismo que morreram precisamente por se recusarem a responder ao apelo sionista de abandonar o seu país e as suas casas.
Depois da guerra, o horror do massacre das comunidades judias da Europa (o Holocausto) não impediu os países europeus de continuar a apoiar o programa anti-semita do sionismo. Pelo contrário, esses países partilharam com os nazis uma predilecção pelo sionismo. Apenas condenavam o programa genocídio do nazismo. Os países europeus, com os Estados Unidos, recusaram-se em encarregar-se centenas de milhares de sobreviventes judeus. Estes países até votaram contra uma resolução apresentada nas Nações Unidas pelos Estados árabes em 1947 que lhes pedia de acolher os sobreviventes Judeus. Mas, estes mesmos países que rejeitaram a resolução serão os que irão apoiar o plano de partição das Nações Unidas de Novembro de 1947 para criar um Estado judeu na Palestina para o qual esses refugiados judeus indesejáveis poderiam ser expulsos.

As políticas pró-sionistas dos nazis

Os Estados Unidos e os países europeus, entre os quais a Alemanha, iriam perseguir a política pró-sionista dos nazis. Os governos de pós-guerra da Alemanha do oeste, que pretendiam abrir uma nova página nas suas relações com os Judeus, na realidade não o fizeram. Desde a criação do Estado israelita, após a Segunda Guerra mundial, cada governo da Alemanha do oeste (e cada governo alemão desde a reunificação de 1990) perseguiu sem descanso as políticas pró-sionistas dos nazis. Nunca houve uma ruptura com o pró-sionismo dos nazis. A única ruptura fora para com o ódio genocídio e racial dos Judeus que o nazismo consagrara, mas não com o desejo de ver os Judeus estabelecidos num país da Ásia, fora da Europa. Com efeito, os alemães sempre explicaram que grande parte do dinheiro que enviavam para Israel, servia para compensar os custos da reinstalação dos refugiados judeus europeus nesse país.

Após a Segunda Guerra mundial, um novo consenso apareceu nos Estados Unidos e na Europa, de que os Judeus deviam ser integrados a título póstumo como sendo europeus brancos e que o horror do massacre dos judeus era essencialmente um horror relativamente ao massacre de Europeus brancos.
Desde os anos 1960, os filmes de Hollywood sobre o Holocausto começaram a representar as vítimas judias do nazismo como sendo europeus brancos de classe média, pessoas instruídas e talentosas que lembravam os cristãos europeus e americanos contemporâneos e devendo servir para permitir maior identificação com eles. Podemos supor que se os filmes tivessem retratado Judeus pobres e religiosos, vindos da Europa oriental (e grande parte dos Judeus da Europa oriental, que foram massacrados pelos nazis, eram pobres e muitos eram religiosos) os cristãos brancos contemporâneos não teriam encontrado um ponto em comum com eles. Por conseguinte, o horror europeu e cristão após o genocídio dos Judeus da Europa não se fundamentava sobre o horror do massacre de milhões de pessoas diferentes dos cristãos europeus, mas no horror perante o massacre de milhões de pessoas semelhantes aos cristãos europeus.
Isto explica porquê, num país como os Estados Unidos, que nada teve a ver com o massacre dos Judeus da Europa, exista mais de 40 memoriais do Holocausto e um dos mais importantes museus para a memória dos Judeus assassinados na Europa, mas nem um único pelo holocausto dos Ameríndios ou dos afro-americanos de que os Estados Unidos são culpados.
Aimé Césaire percebeu perfeitamente do que se tratava. No seu célebre discurso sobre o colonialismo, ele afirmou que a percepção retrospectiva do nazismo pelos cristãos europeus era que:

É uma barbárie, mas uma barbárie suprema, o coroamento bárbaro que coroa todas as barbáries de todos os dias. É isso o nazismo, sim, mas antes de os [Europeus] serem as vitimas, foram em primeiro lugar os cúmplices, e toleraram o nazismo antes que este se vire contra eles. Absolveram-no, fecharam os olhos, legitimaram-no porque até esse momento apenas tocava os povos não europeus. Cultivaram este nazismo, são responsáveis e antes que engolisse a totalidade do ocidente, da civilização cristã nas suas águas vermelhas de sangue, ele ressudava-se, infiltrava-se e jorrava por todas as partes.

Quando Césaire explica que as guerras nazis e o Holocausto eram manifestações de um colonialismo europeu virado para dentro, tem razão. E desde a reabilitação das vítimas do nazismo enquanto brancos, a Europa e o seu cúmplice americano não pararam de praticar políticas dignas dos nazis com todos os horrores aplicados às populações não brancas pelo mundo fora: na Coreia, no Vietname e na Indochina, na Argélia, na indonésia, na América central e na América do sul, na África do sul, na Palestina, no Irão no Iraque e no Afeganistão.
A reabilitação dos Judeus da Europa após a Segunda Guerra mundial era um elemento essencial na propaganda dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Enquanto os sociólogos e ideólogos americanos desenvolviam a teoria do «totalitarismo», que estipulava que o comunismo soviético e o nazismo eram essencialmente o mesmo tipo de regime, os Judeus da Europa, enquanto vítimas de um regime totalitário, tornaram-se parte integrante da exposição das atrocidades que a América e a propaganda na Europa do Oeste apresentavam como as atrocidades que o regime soviético cometia nos períodos de pré e pós-guerra. Israel apenas apanhou o comboio em andamento, acusando os Soviéticos de anti-semitismo por não deixarem os cidadãos Judeus soviéticos saírem para se instalar em Israel.
Foi deste modo que o compromisso americano e europeu pela supremacia branca foi preservado, excepto que agora incluía os Judeus como fazendo parte da população «branca» e daquilo que se passou a chamar a civilização «judeo-cristã». As políticas europeias e americanas após a Segunda Guerra mundial – continuando a inspirar-se e a serem ditadas pelo racismo contra os Ameríndios, os Africanos, os Asiáticos, os Árabes e os muçulmanos, e apoiando o programa anti-semita do sionismo para que os judeus se assimilassem enquanto brancos num Estado colonial afastado da Europa – eram uma continuação directa das políticas anti-semitas da pré-guerra. Uma grande parte do veneno racista anti-semita podia agora reportar-se sobre os árabes e os muçulmanos (simultaneamente, os emigrantes e os cidadãos da Europa e dos Estados Unidos e os que vivem na Ásia e em África), enquanto o velho apoio anti-semita ao sionismo continuava sem entraves.
A aliança entre a Alemanha do oeste e o sionismo e Israel após a Segunda Guerra mundial – além de fornecer a Israel uma enorme ajuda económica nos anos 1950, assim como apoio económico e militar desde o início dos anos 1960, entre os quais tanques que servem para matar Palestinianos e outros Árabes – é uma continuação da aliança que o governo nazi tinha acordado com os sionistas nos anos 1930. Nos anos 1960, a Alemanha do oeste até forneceu uma formação militar aos soldados israelitas e, desde os anos 1970, tem equipado Israel com submarinos nucleares de fabricação alemã com os quais Israel espera matar ainda mais Árabes e muçulmanos.
Estes últimos anos, Israel equipou os mais recentes submarinos alemães que recebeu, com mísseis nucleares de cruzeiro, o que o governo alemão sabe muito bem. O ex-ministro israelita da defesa, Ehud Barak, declarou ao Der Spiegel em 2012 que os alemães podem se sentir «orgulhosos» de terem assegurado a existência do Estado de Israel «durante numerosos anos». Berlim financiou um terço dos custos dos submarinos, ou seja cerca de 135 milhões de euros por submarino e permitiu a Israel de repor o pagamento até 2015.
Que isto faça da Alemanha um cúmplice do desapossar dos palestinianos não é uma preocupação dos actuais governos alemães, assim como não o era nos anos 1960 para o chanceler da Alemanha do oeste, Konrad Adenauer, que afirmava que «a República Federal não tem nem o direito, nem a responsabilidade de tomar uma posição acerca dos refugiados palestinianos.»
Isto deve ser adicionado aos mil milhões que a Alemanha pagou ao governo israelita em compensação pelo Holocausto, como se Israel e o sionismo tivessem sido as vítimas do nazismo quando, na realidade, foram os Judeus anti-sionistas que foram mortos pelos nazis. O actual governo alemão não se preocupa com o facto que mesmo os Judeus alemães que fugiram dos nazis e que se encontraram na palestina odiavam o sionismo e o seu projecto e eram por sua vez odiados pelos colonos sionistas na Palestina.
Como os refugiados alemães dos anos 1930 e 1940 na Palestina recusavam-se a aprender o hebreu e publicavam meia dúzia de jornais alemães no país, foram atacados pela imprensa hebraica, inclusive o Haaretz, que reclamou o encerramento dos seus jornais em 1939 e novamente em 1941. Colonos sionistas atacaram em Telavive um café alemão porque os seus proprietários judeus recusavam-se em falar hebreu e em Junho de 1944, a municipalidade de Telavive ameaçou alguns dos seus residentes judeus alemães que organizavam no seu domicílio, no 21 da rua Allenby, «festas e bailes inteiramente em língua alemã, inclusive programas estrangeiros ao espírito da nossa cidade» e declarou que «isso não seria tolerado em Telavive». Os Judeus alemães, ou os Yekkies, como são apelidados no seio do Yishuv, até iam organizar uma celebração do aniversário do imperador, em 1941 (para mais detalhes sobre este assunto e sobre os refugiados alemães judeus na Palestina, ler o livro de Tom Segev intitulado The Seventh Million).
É preciso adicionar a isto tudo, o apoio Alemão às medidas israelitas contra os palestinianos na ONU e o quadro está completo. Até o novo memorial do Holocausto, construído em Berlim e que foi inaugurado em 2005, mantém o apartheid racial nazi, posto que este «Memorial dos Judeus da Europa assassinados» é apenas destinado às vítimas judias dos nazis e que ainda hoje convém pôr de parte, como o tinha ordenado Hitler, os outros milhões de vítimas não judias elas também do nazismo.
O facto que uma filial da sociedade alemã Degussa, que colaborou com os nazis e que produziu o gás Zyklon B utilizado para matar as pessoas nas câmaras de gás, recebeu um contrato para construir o memorial não é de todo surpreendente, posto que isto apenas confirma que aqueles que mataram os Judeus na Alemanha no final dos anos 1930 e nos anos 1940, hoje em dia, lamentam o que fizeram porque hoje percebem que os Judeus são Europeus brancos que convém comemorar e que não se deveria tê-los mortos, em primeiro lugar por causa da brancura da sua pele. A política alemã de incentivo ao massacre dos Árabes por Israel tem pouco a ver com o seu compromisso com o anti-semitismo, que continua por meio do racismo alemão contemporâneo, predominante relativamente aos muçulmanos e que visa os imigrantes muçulmanos.

A tradição anti judia na Europa e na América

O Holocausto judeu matou a maioria dos judeus que recusavam e combatiam o anti-semitismo europeu, inclusive o sionismo. Com a morte deles, os únicos «semitas» que existem e que combatem o sionismo e o seu anti-semitismo são hoje os Palestinianos. Enquanto Israel insiste sobre o facto que os judeus europeus não têm lugar na Europa e que devem vir para a Palestina, os Palestinianos sempre insistiram em dizer que as pátrias dos Judeus europeus eram os seus países europeus e não a Palestina, e que o colonialismo sionista deriva do seu próprio anti-semitismo. Enquanto os sionistas pretendem que os Judeus são uma raça diferente dos cristãos europeus, os Palestinianos afirmam pelo contrário que os Judeus europeus não são nada a não ser Europeus e que não têm nada em comum com a Palestina, o seu povo ou a sua cultura.
O que Israel e os seus aliados americanos e europeus quiseram fazer ao longo destas seis décadas e meia, é de convencer os Palestinianos de que deviam se tornar anti-semitas, eles também, e acreditar, à semelhança dos nazis, de Israel e dos seus aliados anti-semitas ocidentais, que os judeus são uma raça diferente das raças europeias, que a Palestina é o país deles que Israel fala em nome de todos os Judeus. O facto que os dois mais importantes blocos de eleitores pró-israelitas dos Estados Unidos são os protestantes milenaristas e os imperialistas laicos persegue exactamente a mesma tradição anti-judia euro-americana que remonta à Reforma protestante e ao imperialismo do século XIX. Mas os Palestinianos nunca conseguiram convencer-se e obstinam-se em resistir ao anti-semitismo.
Israel e os seus aliados anti-semitas afirmam que Israel é «o povo judeu», que a sua política é a política «judia», que as suas realizações são «judias», que os seus crimes são crimes «judeus» e que, por conseguinte, todos os que ousam criticar Israel criticam de facto os Judeus e são impreterivelmente anti-semitas. O povo palestiniano tem construído uma luta maior contra esta incitação anti-semita. Continua de afirmar firmemente que o governo israelita não fala em nome de todos os Judeus, que não representa todos os Judeus e que os seus crimes coloniais contra o povo palestiniano são os seus próprios crimes e não os crimes do «povo judeu» e que, de facto, deve ser criticado, condenado e perseguido pelos seus crimes de guerra ainda a decorrerem contra o povo palestiniano.
Não se trata de uma nova posição palestiniana. De facto, já tinha sido adoptada na viragem do século XX e perseguida ao longo da luta palestiniana contra o sionismo antes da Segunda Guerra mundial. O discurso de Yasser Arafat nas Nações Unidas, em 1974, insistiu veementemente sobre todos estes pontos:

Do mesmo modo que o colonialismo se serviu levianamente dos deserdados, dos explorados como de uma vulgar matéria inerte com a qual podia construir e realizar um colonialismo de implantação, os Judeus europeus indigentes, oprimidos foram utilizados em nome do imperialismo mundial e dos dirigentes sionistas. Os Judeus europeus foram transformados em instrumentos de agressão; tornaram-se os elementos do colonialismo de implantação intimamente ligado à discriminação racial (...). A teologia sionista foi utilizada contra o nosso povo palestiniano: o objectivo era não só a instalação de um colonialismo de implantação de estilo ocidental, mas também a separação dos Judeus das suas diversas pátrias e, por conseguinte, a sua alienação relativamente às suas nações. O sionismo (…) está unido ao anti-semitismo nos seus dogmas retrógrados e, uma vez que tudo foi dito e consumado, é outra face da mesma falsa moeda. Porque quando se propõe que os adeptos da fé judia, qualquer que seja a nação onde residem, não devem nem obediência à sua residência nacional, nem vivem sobre um pé de igualdade com os outros cidadãos não judeus, quando isto é proposto, percebemos muito bem que se trata de uma proposta anti-semita. Quando se propõe que a única solução ao problema judeu é que os Judeus se devem alienar das comunidades ou nações de que constituem um elementos histórico, quando se propõe que os Judeus resolvam o problema judeu pela imigração e a instalação pela força sobre as terras de outro povo, quando isso acontece, estamos a defender exactamente a mesma posição que aquela que defendem os anti-semitas contra os Judeus.

A afirmação por parte de Israel de que as pessoas que o criticam são anti-semitas pressupõe que essas mesmas pessoas críticas acreditem nas suas pretensões em querer representar «o povo judeu». Mas são as próprias afirmações por parte de Israel daquilo que representa e de falar em nome de todos os Judeus que são de todas as afirmações as mais anti-semitas.
Hoje em dia, Israel e as potências ocidentais querem erigir o anti-semitismo em princípio internacional em torno do qual procuram estabelecer uma unanimidade plena. Insistem sobre o facto que, para que haja paz no Médio Oriente, os palestinianos, os Árabes e os muçulmanos devem tornar-se, tal como o ocidente, anti-semitas, adoptando o sionismo e reconhecendo as reivindicações anti-semitas de Israel. Tirando os regimes ditatoriais árabes e a autoridade palestiniana e os seus amigos, neste 65º aniversário da conquista anti-semita da Palestina pelos sionistas – que os palestinianos chamam a Nakba -, o povo palestiniano e os poucos judeus anti-sionistas sobreviventes continuam de recusar em ter em conta este apelo internacional e esta incitação ao anti-semitismo.
Afirmam que são, enquanto últimos dos Semitas, os herdeiros das lutas judias e palestinianas anteriores à Segunda Guerra mundial contra o anti-semitismo e a sua manifestação colonial sionista. É a resistência deles que trava o caminho a uma vitória completa do anti-semitismo europeu no Médio Oriente e no mundo inteiro.

Joseph Massad
Tradução: GAP
* Joseph Massad é professor associado de política árabe e de história intelectual na Universidade de Colúmbia. O seu último livro intitula-se :  The Persistence of the Palestinian Question ; Essays on Zionism and the Palestinians.
Este artigo foi inicialmente censurado na Aljazeera que pouco depois voltou a disponibilizá-lo.

E aqui na tradução francesa: http://www.info-palestine.eu/spip.php?article13571

Tradução de «Behind the Deepening Crisis with Iran: The Real Story Versus the Cover Story»

Por detrás do aprofundamento da crise com o Irão: a verdadeira história Versus a história de fachada.

Publicado a 22/09/2012 em Sabbah Report 

Artigo de  Mark H Gaffney

    Recentemente, o Presidente Obama impôs novas sanções ao Irão que, de acordo com os relatórios, foram bastante efectivas, provocando uma súbita desvalorização da moeda do Irão. Os iranianos compreendem bem que estão a ser atacados e têm respondido ameaçando fechar o estreito de Ormuz, pelo qual uma grande percentagem de petróleo do Médio Oriente transita para a economia global.

    Se a crise se aprofundar e se o Irão faz bem em fechar o estreito de Ormuz, restam poucas dúvidas de que os E.U. irão intervir para reabrir o estreito. Isto terá como consequência uma guerra pela qual o Irão será responsabilizado, mesmo se as recentes sanções dos E.U correspondem a uma óbvia agressão.

   Eu acredito que os E.U. irão explorar a situação para atacar as instalações nucleares do Irão. Mais, ainda mais grave, os E.U. irão alvejar os mísseis convencionais do Irão. Na realidade, acredito que isto constitui a verdadeira razão das sanções e a escalada das recentes tensões. Apesar da percepção pública e toda a retórica em torno das armas nucleares, a crise actual não tem nada a ver com o suposto programa nuclear do Irão. Na minha opinião, não passa de um disfarce.

   O verdadeiro problema reside no facto que o Irão equipou os seus mísseis convencionais de médio alcance com a tecnologia GPS, tornando-os mais precisos. Isto significa que agora o Irão pode alvejar a reserva nuclear de Israel, as armas biológicas e químicas situadas no território israelita assim como o reactor nuclear de Dimona.

   Resumidamente, o Irão conseguiu alcançar uma forma convencional de dissuadir Israel. Por conseguinte, as declarações de oficiais iranianos, dizendo que o Irão não possui um programa de armas nucleares, são, a meu ver, provavelmente correctas. Actualmente, o Irão não precisa de armas nucleares para dissuadir Israel. Pois, pode fazê-lo com os seus mísseis de médio alcance guiados por GPS. Os israelitas bem podem ranger os dentes, posto que se encontram agora ameaçados pelo seu próprio arsenal de armas de destruição massiva e seus próprios reactores nucleares, especialmente Dimona, todos sendo agora possíveis alvos.

   Alguns ataques directos pelo Irão provocariam emissões tóxicas, matando milhares de israelitas. No pior dos casos, anunciariam o fim do estado judeu.

   É importante perceber que o Irão nunca iria iniciar um ataque preventivo sobre Israel, porque os iranianos sabem que a resposta dos E.U./Israel seria devastadora. Contudo, se o Irão for atacado em primeiro, está tudo perdido. O Irão defender-se-á. Um contra-ataque a Israel não pode ser excluído, porque os dirigentes iranianos percebem claramente (mesmo se o povo Americano não percebe) que a crise foi fabricada a favor de Israel.

   Do ponto de vista israelita, o actual poder de dissuasão iraniano (mesmo sendo convencional) é inadmissível. Os estrategas militares israelitas sempre insistiram numa liberdade total de movimento. É por isso que, há uns anos atrás, os israelitas recusaram a oferta Americana de assinarem um pacto de defesa com os E.U. um semelhante tratado teria limitado a liberdade de movimento de Israel e não era aceitável. Os dirigentes israelitas preferiram permanecer independentes. Israel sempre insistiu na «liberdade» de poder intimidar os seus vizinhos, quando e como lhe apetecesse. Agora, os mísseis convencionais iranianos restringem essa «liberdade». Provavelmente, os oficiais israelitas preocupam-se, por exemplo, de que, no conflito futuro, os mísseis convencionais iranianos limitariam a sua liberdade de poder atacar o Hezbollah no Líbano. O Hezbollah é aliado próximo de Teerão.

   Acredito que a crise actual foi fabricada no sentido de criar um pretexto para os E.U. lançarem uma campanha aérea com a finalidade de eliminarem os locais onde se encontram os mísseis convencionais iranianos. Os E.U. também irão alvejar as instalações nucleares iranianas, mas os alvos principais serão os mísseis convencionais. Os E.U serão o pau mandado de Israel. A cauda sionista abanará diante do cão americano subserviente.

   Obviamente que não se pode obter o apoio do público para semelhante campanha de bombardeamento a favor de Israel. Daí a história de fachada em torno das armas nucleares e a suposta ameaça de que o Irão quer apagar Israel do mapa, tudo isto sendo claramente mentira, mas constitui uma propaganda muito eficaz.

   O problema para os E.U. reside no facto de que privar o Irão das suas armas convencionais de dissuasão, não será uma tarefa fácil de cumprir. Na verdade, será ainda mais difícil do que eliminar todas as instalações nucleares iranianas. Os mísseis convencionais iranianos estão provavelmente amplamente dispersos. Se se encontrarem sob ataque, o objectivo de uma campanha aérea será obviamente transparente para os dirigentes iranianos. Confrontados com a possibilidade de perderem o seu poder de dissuasão, os Mullahs podem perfeitamente decidir utilizar os seus mísseis convencionais. Se assim o fizerem e se conseguirem atingir directamente o arsenal nuclear, biológico e químico de Israel, o desastre subsequente levará a uma resposta rápida de Israel. Israel até poderá recorrer à Opção Sansão e atacar o Irão com armas nucleares. As palavras não podem descrever a dimensão do horror de semelhante resultado. Infelizmente, é tudo demasiado possível.

   No início de um conflito, as forças navais dos E.U no Golfo serão atacadas. Não há equívoco possível, o Irão tem mísseis anti-navios  suficientes para ser uma verdadeira ameaça para a presença naval dos E.U no Golfo. Milhares de marinheiros americanos estão agora em perigo.

   Devemos nos unir para evitar semelhante conflito. Agora, os activistas pela Paz devem pôr em andamento todos os nossos trunfos a favor da Paz. O povo Americano deve saber a verdade. É uma falsa crise. Contudo, o perigo é autêntico. Chegou a hora de dar força à nossa voz. Amanhã poderá ser demasiado tarde.

 

Fonte do artigo: http://sabbah.biz/mt/archives/2012/09/22/iran-real-story/?utm_source=feedburner&utm_medium=email&utm_campaign=Feed%3A+SabbahsBlog+%28Sabbah+Report%29

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