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ARESTAS

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Solidariedade com Afrin

Solidariedade com Afrin
#PortoDefendAfrin
"Só as montanhas são nossas amigas"(ditado curdo)

No norte da Síria, numa região autónoma chamada Rojava, existem três cantões (Kobane, Jazira e Afrin) onde, desde 2012, a sociedade está organizada segundo princípios revolucionários, estabelecidos com base num projecto de sociedade sem estado, numa confederação democrática inspirada no municipalismo libertário, na democracia directa, na ecologia e na libertação das mulheres. Perante a iminente ameaçada do exército do Estado Islâmico (EI), a população organizou-se em unidades de autodefesa, entre elas as famosas e mediatizadas pelo ocidente Unidades de Protecção das Mulheres (YPJ). Esta luta motivou muitos indivíduos do mundo inteiro a irem para Rojava lutar contra o EI e agora contra a Turquia, a sua milícia fascista - Os Lobos Cinzentos - e os seus aliados jihadistas (a frente Al Nusra, o "Exército Livre Sirio" e o EI). O envolvimento internacional na região levou Rojava a tecer laços com outros países, instituições, associações e colectivos, no sentido de dar a conhecer a revolução em construção. Alianças mais comprometedoras foram estabelecidas, mas o povo da região já sabe que só as montanhas são suas amigas.

Independentemente das alianças que as pessoas de Rojava estabeleceram com potências perigosas, imperialistas e manipuladoras num contexto de luta contra o EI, queremos denunciar a ofensiva do estado terrorista, fascista e racista que é a Turquia, iniciada a 18 de Janeiro, contra as cerca de 500.000 pessoas que vivem no cantão de Afrin, mas também o silêncio conivente dos EUA e dos seus aliados no médio oriente, a retirada estratégica da Rússia, as armas vendidas à Turquia pela Alemanha e certamente outras jogadas imperialistas que em tempos se hão de revelar.

Não podemos calar o nosso grito de revolta perante a ameaça mortífera que enfrenta a região de Afrin. Queremos vociferar que as ambições imperialistas e os interesses capitalistas não cabem no nosso mundo. Os princípios de organização social sem estado ecoam nas nossas mentes e respondem aos nossos desejos de democracia, justiça e liberdade. A revolução de Rojava também é nossa, porque não queremos viver e não morreremos por uma abstracção impingida tal como a noção de Estado, muito menos de um Estado assassino como a Turquia e estados imperialistas interesseiros e manipuladores como os EUA, a Rússia e UE.

De longe só podemos apelar ao bloqueio das embaixadas/consulados da Turquia! De longe só podemos apelar ao boicote dos produtos vindos da Turquia, assim como dos acordos ou negócios com a Turquia. De longe só podemos apelar ao bloqueio das sedes de entidades/Estados ou instituições cúmplices ou encostadas ao seu profundo e conivente silêncio tal como a NATO, EUA, UE, Rússia. De longe gostaríamos de fazer corpo na fronteira entre a Turquia e Afrin. De longe, ou de perto, somos muitas e a viagem até Afrin não é assim tão longa!

Turquia fora de Afrin!
Viva a Resistência de Afrin!

Algumas poetas...
Porto, 19 de fevereiro 2018

Tradução: Carta para Ghuta

 

Carta para Ghuta

 

Houve uma revolução na Síria, é essa a evidência que toda a geopolítica de café, todas as conspirações imundas de teclado negam há anos. Esta cobardia de tasca que se espalha sem dificuldades desde o topo do Estado até ao coração de uma certa extrema-esquerda, não será mais esquecida do que a dignidade dos habitantes de Ghuta insurgente.

 

Querida Ghuta,

 

Escrevo-te com o coração cheio de vergonha. A vergonha de pertencer a duas comunidades, cobardes ou cegas, que te abandonaram.

 

Para começar, faço parte deste país que se chama França. Este país que se quer aquele dos direitos do Homem e da fraternidade. Este país que tem uma história em comum com a tua e da qual te conseguiste libertar pela força. Portanto, um país que te conhece bem. No entanto, em 2008, este país convidou o teu tirano Bachar ao seu desfile do 14 de Julho. Este mesmo Bachar que, um ano depois, armou os seus aeroportos com armas químicas prevendo a tua rebelião. A França também é um país de tradições. A prova é que já abrigava - e ainda abriga - o tio criminoso contra a Humanidade, Rifaat al-Assad, o açougueiro da prisão de Palmyra e autor do massacre de Hama. Lembras-te, este massacre ocorreu em 1982. Quatro anos depois, o presidente francês entregava-lhe a Legião de Honra por "serviço prestado à nação".

 

Deste país que é meu, esperava que te ajudasse, quando te revoltaste. Porque de agora em diante, já não podemos fingir que não conhecemos o verdadeiro rosto de Bashar al-Assad. Sublevaste-te, querida Ghuta, pela tua liberdade, pela tua dignidade, e, agora, estás em pé, depois de 40 anos de submissão aos Assad. Foste maltratada, torturada, espancada, gaseada, bombardeada, estuprada e esfolada pelo regime, mesmo assim, aguentaste-te e ficaste em pé. Com o sabor da liberdade na boca, já não te podias sujeitar ao tirano. Porque não se regressa dessas coisas. E doravante para ti, era a liberdade ou a morte. E estávamos tão orgulhosos! Ghuta livre, Ghuta digna, Ghuta em pé! E vivemos contigo a esperança de te ver finalmente livre do açougueiro de Damasco e seus shabihas. Não precisavas de ninguém para te reconstruíres e repuxar a barbárie. Mas o regime atacou com força, e quando a nuvem de gás sarin te atingiu no verão de 2013, chorámos contigo. Essas imagens de ti, das tuas crianças agonizantes, convulsionadas, sufocando rasgaram lágrimas nos nossos corações. A nossa raiva era ilimitada e Bachar acabara de cruzar a linha vermelha. Então esperaste. Depois de contares as tuas 1300 mortes, refugiaste-te nos edifícios e esperaste que chegássemos. Nós, que prometemos intervir se Bachar fosse longe demais. Pensavas: “Os franceses vão chegar!”. Esperaste vezes sem conta. E nunca chegámos. Esperávamos poder alcançar-te para te tirar das garras do carrasco, mas não o fizemos. E odiámo-nos por isso. Odiámos todos os que tornaram possível essa traição. Com um nó na garganta não conseguíamos aceitar que fosses abandonada ao teu destino. Com um nó estômago e raiva no corpo, levantaste-te e continuaste a lutar e organizaste-te para viver apesar do estado de sítio permanente. Do nosso lado, continuamos a defender-te aqui em casa.

 

Mas o campo político ao qual pertenço não conseguiu se destacar na ocasião. Este campo, que defende os valores da igualdade, da liberdade dos povos, da autodeterminação, da democracia, este campo não soube ver em ti a encarnação de todas as ideias que defendia. Aquele que não te conhece, apenas vê as bandeiras, os símbolos e as palavras. Não percebe que o teu léxico não é o mesmo que o nosso, mas que o teu coração e as tuas ideias são-nos comuns. Não percebe que estás apaixonada pela liberdade e que tudo o que queres é viver com dignidade. Esta esquerda que não te conhece, assustou-se e virou-te as costas. Comparou-te àqueles contra os quais lutaste e expulsaste: os membros do Estado islâmico. Ultrajou-te, ignorou-te e sujou-te. Quando a tua irmã Alepo caiu, uma certa esquerda até ironizou sobre o seu destino. No entanto, esta esquerda hipócrita apaixonada por si mesma, de que mais precisa? Esta esquerda que tem constantemente a revolução na ponta da língua, não viu que havia uma revolução popular autogerida, muito real, debaixo dos seus olhos, o teu único erro foi ignorar o campo lexical dela? E, no entanto, não havia nada mais libertário que os teus comités locais, os teus tansiqiyya al-malhalliyya, que a autogestão de todas as tuas infra-estruturas, que os teus civis organizados perante a escassez, que as tuas associações de mulheres para se ocupar dos órfãos, que as tuas escolas finalmente livres de escrever os seus próprios programas, que as tuas liwa e katiba que libertam as tuas aldeias e cidades de Al-Nusra e Daesh à patada? Mas não. Essa esquerda, esconde-se por detrás do anti-imperialismo e da Realpolitik. O seu anti-atlantismo primário e idiota, este anti-imperialismo dos idiotas úteis ou consciente do cúmplice Putin, é apenas a marca de uma tomada de posição estúpida e viscosa, esquecendo que um povo que se levanta contra o seu tirano não conhece outra posição do que aquela da dignidade e não faz caso das ninharias dos poderosos. A Realpolitik desta esquerda e o seu inimigo de direita é apenas um péssimo álibi para o crime que cometeu, não só ao abandonar-te ao teu destino, mas também ao mostrar uma complacência hedionda com os aliados do teu carrasco. Como pode ser tão insensível ao ponto de deixar morrer a tua revolução nessas condições atrozes quando, ao mesmo tempo, elogia um partido que conheces, oriundo da tradição estalinista e de que conservou todos os reflexos? E, enquanto essa esquerda vocifera contra ti, tu que, no entanto, conseguiste o que a esquerda sempre sonhou, o nosso presidente brinca com os lápis de cor que roubou ao Obama. Diverte-se a traçar linhas imaginárias de todas as cores e a fazer grandes declarações absurdas e desprovidas de sentido. Traça linhas vermelhas com o teu sangue derramado todos os dias, mas que ignora desde que permaneça devido às balas, barris, tortura e fome. O gás, muito querida Ghuta ... Ele espera o gás! Mas como deves-te rir dessa falsa promessa, tu que esperaste em vão quando o sarin devastou as tuas aldeias, sufocou as tuas crianças! Quando choraste por Zamalka e os seus habitantes... Mas este Macron, ele, o “intratável" sapo que quer ser tão grande quanto o boi, não defende o internacionalismo, a revolução popular e a autogestão. Pensando bem, isto é uma meia verdade. Mas espero que a posteridade condene fortemente a mediocridade de uma certa esquerda francesa e europeia de que tenho uma terrível vergonha por tanto mentir aos outros e a si mesma.

 

Enquanto agonizas sob as bombas, preparamo-nos a comemorar os 7 anos de tua revolução. Sete anos atrás, apenas algumas pessoas loucas saíram à rua para protestar em silêncio, de velas nas mãos, numa praça damascena em apoio às primaveras árabes. Sete anos depois, a tua Síria está devastada. E em breve virá o mês de Março. Celebraremos os 7 anos da tortura das crianças de Deraa e as primeiras fossas comuns da revolução. Enfim, Assad, ele, irá festeja-lhos. Na sua montanha de cadáveres. 500 mil mortes. Absurdo. Levantaste-te contra a tirania pela liberdade e a dignidade, tornando-te um exemplo para o mundo inteiro. Tristemente, nem todo o mundo estava preparado para este exemplo.

 

Hoje, estás sozinha sob as bombas. Mas não totalmente. Estamos aqui. Nós, os poucos que continuamos a esperar a tua vitória. Estamos dispersos, mas estamos aqui. Seguimos a tua vida diária de perto. Escutamos-te, observamos-te. Nos teus vídeos, querida Ghuta, vemos as tuas mulheres, homens e crianças que emergem dos escombros depois de um bombardeio. As ruínas, o grito das mães, as lágrimas das crianças, a ânsia dos socorristas que os levam para o hospital em breve por sua vez bombardeado. Temos medo contigo, choramos contigo, gritamos de raiva contigo. Não desviamos o olhar, é o que nos resta, é apenas o que temos. Ficaremos em pé erguidos contigo. Até ao fim, onde quer que vás. Perseguiremos Bachar até a morte para que um dia, ele pague pelo que fez a Khan Cheikhun, Aleppo, Daraya, Homs, Deraa, Idleb, Zabadani, Raqqa e a todas as outras. Desde 2011, recolhemos provas de sua barbaridade para que um dia ele possa ser condenado. Escrevemos livros para que a tua luta sobreviva às bombas e aos gases e que os sírios possam continuar orgulhosos do que fizeste e que ninguém possa esquecer. Ghuta magoada, Ghuta gaseada, Ghuta bombardeada, Ghuta de luto. Mas Ghuta rebelde, digna, livre e em pé! Tu, Ghuta, que não te vergas e que sabes que, de qualquer maneira, não tens hipótese de sobreviver a uma rendição. Porque o "Regime" não perdoa. Ele tortura, executa, massacra. Talvez desapareças. Essas pessoas, esses rostos nesses videos, em breve, talvez já não sejam. Bombardeadas, gaseadas ou degoladas, afinal, qual a diferença? Felizes são os mortos porque já não sofrem. E se isso acontecer, teremos que viver com tudo isso. Assim como todos os espectadores silenciosos que se tranquilizam com "isso é complicado" e "não podemos fazer nada", mas logo dirão entre o queijo e a sobremesa, que tudo isso era terrível e que Bachar é um ser odioso. Veremos Assad viver, ele, sim. Pavonear-se, regozijar-se, de braço dado com Putin, com Khamenei nas sombras, e o Hezbollah como guarda-costas. É possível desviar o olhar de ti sem se odiar? Porque nos proteger das imagens que nos envias se não somos melhores que as linhas de cor que se movem com os ventos?

 

Caros sírios, queridos habitantes de Ghuta, Idleb e Afrin, vemos vos combater e morrer, mas não vamos desviar o olhar. Honrar-vos-emos até ao fim e comemoraremos a vossa coragem e dignidade. Não esqueceremos e não vamos perdoar. Isto não vos trará reconforto nem sobrevivência. Mas isto impedir-nos-á de nos odiar e de compartilhar a indiferença dos cínicos e dos bastardos. Sois o orgulho dos homens e das mulheres que lutam pela liberdade e dignidade. Sois as nossas consciências feridas, mas uma coisa é certa: só queremos um futuro convosco, apenas convosco.

 

Houria Ghuta. Houria Souria.

 

Sarah Kilani, 21 de Fevereiro de 2018

 

Fonte: https://lundi.am/Lettre-a-la-Ghouta

 Tradução: Gisandra Oliveira

Tradução: Ventos de insurreição na Turquia por Alain Gresh

Ventos de insurreição na Turquia

Publicado: Quarta-feira 5 de Junho de 2013 por Alain Gresh

Fonte: http://blog.mondediplo.net/2013-06-05-Vent-de-fronde-en-Turquie  

 

«É bastante tentador de ver nas manifestações na Turquia um islamismo governamental a ser contestado por um movimento laico-republicano, ao contrário da praça Tahir no Cairo, onde um poder laico-republicano combatia a revolta de uma nebulosa islamita...»

Foi assim que Levent Yilmaz, professor de história na universidade de Bilgi de Istambul, foi questionado por Mediapart a 4 de junho de 2013[1], ao que ele respondeu:

«A concentração que aconteceu na noite de sábado (1º de Junho) desafia este tipo de tipologia. Até se chegou a ver adeptos de clubes de futebol inimigos apoiarem-se, respondendo ao apelo poderoso e unânime das redes sociais: uma mistura impressionante de pessoas, sem as características, as particularidades e exclusividades dos movimentos partidários.

De facto, a oposição institucional renuncia a tentar recuperar este movimento e o seu milhão de Turcos contestatários, tratando-se portanto de um movimento popular espontâneo, sem ideologia preconcebida, nas mãos de indivíduos responsáveis que até limparam a praça e o jardim depois das cargas policiais.»

Passemos adiante sobre a pergunta do jornalista…e a definição da luta no Egipto como sendo a oposição de uma nebulosa islamita ao poder laico-republicano (até parece um sonho), mas a resposta de Yilmaz opõe-se às simplificações correntes sobre a Turquia, mas também sobre o mundo árabe (Tunísia, Egipto) e que reduzem a vida política ao enfrentamento de dois blocos.

Para uma boa abordagem ao que se escreve sobre a Turquia, podemos consultar o site de Alain Bertho, « Anthropologie du présent [2]», que segue os acontecimentos no dia-a-dia.  

E também o blogue de Etienne Copeaux, « Un pas de côté dans les études turques [3]».

Sim, o Partido da justiça e do desenvolvimento (AKP) vem de um movimento islamita próximo dos Irmãos Muçulmanos. Mas é importante fazer um balanço objectivo do que realizou desde que entrou em cena em 2002 e que se traduziu por duas novas vitórias nas eleições legislativas em 2007 e em 2011 (este último ano com cerca de 50% dos sufrágios)

O mais importante avanço, realizado por este partido, foi o afastamento do exército, que regressou aos seus quartéis (sobre este confronto, ler «Qui gouverne la Turquie ?[4]»). Até então, esta instituição era todo-poderosa e tinha um peso político desmedido, regularmente denunciado pela União europeia. Porque é certo que não pode haver progressos democráticos quando o estado-maior decide os assuntos essenciais. Um dos problemas da oposição, dita de esquerda (o Partido republicano do povo, CHP) é que é capaz de escolher entre a sua fidelidade ao exército e à democracia. Este partido é atravessado por numerosas correntes e foi incapaz de apresentar uma solução alternativa ao AKP (obteve cerca de 26% dos sufrágios em 2011)

Num site apaixonante consagrado ao futebol e ao seu lugar no Medio Oriente, « The Turbulent World of Middle East Soccer[5]» (com um lugar de destaque dado aos ultras, os adeptos dos clubes de que conhecemos o papel sobretudo no Egipto), James Dorsey aponta o seguinte a 2 de Junho :

«Contrariamente às manifestações de massa que derrubaram os dirigentes nos países da África do Norte, os protestos na Turquia visam um dirigente democraticamente eleito que ganhou três eleições com uma maioria respeitável, que presidiu a um período de crescimento económico importante e recolocou o seu país enquanto potência regional com ambições mundiais. Aconteceram igualmente num país que, contrariamente aos países árabes, e apesar de todos os seus defeitos, é democrático e tem uma população civil activa e fortemente desenvolvida.»

Haveria que acrescentar também que foi este governo que teve a coragem de abrir negociações com os «terroristas» do Partido dos trabalhadores do Curdistão (PKK).

Então o que se passou ? Por que razão uma manifestação ecológica no centro de Istambul se transformou em insurreição?

Houve pelo menos, de forma indirecta, dois factores que provocaram um certo descontentamento : o afrouxamento económico (note-se que apesar de uma sensível diminuição nos anos 2000 [6](PDF), as desigualdades continuam importantes na Turquia); e uma crescente hostilidade ao activismo de Ancara na Síria. 

Mas a principal responsabilidade pela revolta cabe àquele que fez o êxito do AKP, Recep Tayyip Erdogan, o primeiro-ministro. Entusiasmado pelas suas realizações, procura consolidar a todo custo o seu poder, mandar redigir uma constituição presidencial que lhe permitirá aspirar ao cargo de chefe do Estado, desdenha os seus adversários e multiplica as iniciativas trapalhonas.

Mas com certeza, o mais grave é a deriva autoritária que levou à detenção de dezenas de jornalistas e centenas de oponentes, nomeadamente curdos. A brutalidade da repressão contra os manifestantes de Taksim uniu uma vasta frente muito heteróclita que, certamente, não se limita os «laicos», contra ele. Como o relembra James Dorsay, pela primeira vez, desde há 30 anos, os adeptos dos três grandes clubes de futebol de Istambul, apesar de serem rivais, uniram-se aos manifestantes, cuja diversidade política e sociológica é notável, como o referem Didem Collinsworth e Hugh Pope, « The Politics of an Unexpected Movement[7] » (4 de Junho):

«Ainda mais singular é a presença de grupos rivais agindo lado a lado, inclusive os que representam a comunidade Alevi (cerca de 10% da população da Turquia), ultranacionalistas, conservadores de direita, alguns Islamitas e os curdos da Turquia – alguns erguendo a bandeira do PKK. Alguns grupos mais marginais também se juntaram aos protestos, inclusive esquerdistas e marxistas assim como anarquistas erguendo bandeiras pretas.»

As interpretações que querem ver nestas acções um movimento contra a re-islamização da sociedade não correspondem à realidade. Levent Yilmaz salienta que: «estamos perante um governo conservador muçulmano que no entanto não exerceu pressão confessional. Erdogan ostenta um perfil autoritário. Parece estar em vias de «putinização». Mete o nariz em tudo e suscita medo. Esta atmosfera de medo, sufocante, ganhou sectores que pareciam estar intelectualmente armados para resistirem: os media, a universidade...

Mas as interpretações, em França ou alhures, levam por vezes a sobre-interpretar alguns sinais de autoritarismo por sinais religiosos. O exemplo das recentes disposições limitando a venda de álcool é sintomático. O assunto parece-me menos repressivo que muitas disposições de além atlântico, por exemplo, onde a venda é frequentemente proibida aos menores de 21 anos. Na Turquia, fundamentando-se numa legislação já existente, o poder quer travar a venda após as 22 horas ou nas cercanias das escolas. Vejo nisso, mais uma marca do conservadorismo do que do islamismo.»

E preciso realçar também a força do poder sobre os grandes meios de televisão audiovisuais que desempenharam também um papel no furor dos manifestantes (ler « Dans la rue, la colère monte contre “CNN-Pingouins” et les médias turcs acquis au pouvoir [8]», LeMonde.fr, 4 de Junho).

O que é que vai acontecer agora que o primeiro-ministro está na África do Norte, que o sindicato da função pública convocou uma greve de 48 horas (com fraca adesão) e que a confederação sindical dos trabalhadores revolucionários (DISK), que reivindica 420 000 membros, convoca uma greve para quarta-feira 5 de Junho ?

Na ausência de Erdogan, segundo a AFP, o vice-primeiro-ministro Bülent Arinç reconheceu as reivindicações «legítimas» dos ecologistas na origem da revolta. Também apresentou as suas «desculpas» ao grande número de civis feridos e lamentou o uso abusivo dos gases lacrimogéneos pela polícia «que fez descambar as coisas».

Existem divisões no seio do AKP ? Sem dúvidas, e as palavras do presidente Gul foram tão apaziguadoras, tal como as do vice-primeiro-ministro. Mas seria prematuro riscar o Erdogan, que ainda conta com grandes apoios, inclusive de uma parte notável da população.

Sobre o movimento de Fethullah Gülen , ler Wendy Kristianasen, « Ces visages multiples de l’islamisme[9] », Le Monde diplomatique, Julho de 1997.

Outro factor importante levantado por Dorsey : «O rival islamita do Sr. Erdogan, Fethullah Gülen, um poderoso religioso auto-exilado, radicado na Pensilvânia, exercendo uma influência sobre a polícia, pode ter visto nos protestos uma ocasião para enfraquecer o primeiro-ministro. O colega de partido do Sr. Erdogan, o presidente Abdullah Gul, é considerado como sendo próximo do Sr. Gülen. Numa alusão velada ao Sr Erdogan, o Sr. Gülen pregou recentemente contra o orgulho. Por outro lado, relatórios circulando por Istambul dizem que o exército, que partilha das suspeitas dos laicos relativamente ao governo, recusou os pedidos de ajuda vindos da polícia e um hospital militar até teria distribuído máscaras de gás aos manifestantes.»

 

Mineiros

Toda a solidariedade é sempre pouca! A caminho da Batalha, fui recolhendo assinaturas para a carta de solidariedade com os mineiros espanhóis. A dada altura, uma das pessoas que interpelei na rua pergunto-me: «O que é que os mineiros espanhóis têm a ver com Portugal?» Uma pergunta simples e legítima que dá que pensar!

 

Eis um vídeo da concentração e marcha no Porto:

 

 

Eis um registo fotográfico no site da AIT-SP/SOV do Porto

 

Eis mais um canto solidário do Coro da Achada:

 

 

Aja Solidariedade!

Divulgação: Carta Aberta do Es.Col.A

Em solidariedade com o Espaço Colectivo Autogestionado do Alto da Fontinha
CARTA ABERTA

 

A promessa de suspensão do despejo do Es.Col.A revelou-se um logro. Politicamente forçada a dialogar com os ocupantes da antiga Escola Primária do Alto da Fontinha, a Câmara Municipal do Porto (CMP) mais não queria do que anunciar que o despejo se mantinha, embora adiado. Em reunião com dois delegados da Assembleia do Es.Col.A, os representantes da câmara exigiram que o projecto assinasse a sua sentença de morte, traduzida num contrato de aluguer com fim em Junho. A continuidade imediata do Es.Col.a dependeria da assinatura desse papel. 

Recapitulando: a 10 de Abril de 2011, um grupo de pessoas ocupou a antiga escola primária do Alto da Fontinha, devoluta e abandonada há mais de cinco anos pelo município que a devia manter. Depois de um mês de ocupação do espaço e já com inúmeras actividades a decorrer, a CMP mandou a polícia despejar violentamente os ocupantes e emparedar o edifício. Depois de um longo processo negocial, o Es.Col.A voltou à Escola da Fontinha onde se mantém até hoje, com a indiferença da CMP.

Esta farsa é, para nós, inaceitável, tal como o é o despejo em si - seja agora, em Junho, ou em qualquer altura. Perante quem tem, repetidamente, falhado no cumprimento da sua própria palavra e que entende o ultimato como forma de negociação, a posição do Es.Col.A só pode ser a de não aceitar a decisão de despejo. Fazê-lo seria desistir do sonho com que partimos para esta aventura, o de transformar as nossas vidas com as nossa próprias mãos, ensinando e aprendendo com quem se cruza connosco, nas ruas da Fontinha. Porque o Es.Col.A, muito mais do que uma escola, é um laboratório dum mundo já transformado, resistiremos.

Precisamos do sentido solidário de toda a gente que se identifica com o projecto. Em todo e qualquer lado, que a ocupação e a libertação de espaços sejam a resposta generalizada ao ataque às iniciativas de emancipação popular dum sistema que prefere a propriedade, mesmo que abandonada, ao usufruto, mesmo que colectivo.

Que a moda pegue! ai, ai

Dia 22 de Março - Greve Geral

Uma gaiola foi à procura de um pássaro.

(Kafka)

Dia 22 de Março, como todos os dias, vamos afirmar que somos Pássaros!

 

Somos Pássaros que negam qualquer gaiola, muito mais a imposta por esta democracia podre e bolorenta, onde floresce a ditadura dos aparelhos partidários, onde se reproduzem dinastias de políticos de profissão, onde as finanças ditam as leis, onde as decisões são tomadas à revelia de quem vão afectar.

 

Somos Pássaros e fazemos da política vida, porque a vida é nossa e a política mais não é do que a sua reapropriação individual e social. Ditam-nos a crise com pactos sociais. Chamam-nos para validar os pactos. Somos Pássaros, não pactuamos com gaiolas! Somos a rua e a rua somos nós.

 

Vamos para a rua, porque somos Pássaros e somos livres! Vamos para a rua, porque acreditamos que a força e a beleza de uma mudança se encontra nos nossos voos soberbamente diferentes, onde residem todas as promessas dos seres humanos. Vamos para a rua, porque acreditamos que a força e a beleza de uma mudança se encontra nas nossas mãos unidas, nas feições dos seus contornos suaves ou rugosos que se ajustam e complementam. Vamos para a rua, porque é na rua que está a voz e o cérebro da democracia directa!

 

Companheiras e Companheiros, podem querer roubar-nos os nossos legítimos direitos, podem querer tirar-nos o tempo e a vida, mas somos Pássaros, temos asas e nunca nos poderão roubar a Ideia, o sonho, a capacidade de percebermos que as decisões sobre como viver e lutar estão ligadas à sua execução.

 

Ocupemos as gaiolas para as destruir!

Organizemos as derrotadas gaiolas em espaços livres em Autogestão!

Devolvamos a banca onde ela pertence: o banco dos réus!

Tomemos as decisões em conjunto

Façamos da rua a nossa política!

 

Conferência libertária (em preparação)

Contactos provisórios:

- sovaitporto@gmail.com

- hipatia@pegada.net

- casaviva167@gmail.com

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