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ARESTAS

ARESTAS

Sobre o Mestre Ignorante de Jacques Rancière

Em 1987, Jacques Rancière relembra a experiência educativa de Joseph Jacotot, trazendo dois elementos importantes para alimentar o debate sobre as escolas públicas: a “igualdade das inteligências” e a “emancipação intelectual”. Na actualidade, se a reflexão acerca das inteligências tem vindo a desenvolver novos caminhos e concepções que permitem orientar abordagens práticas e teóricas no campo das aprendizagens e da compreensão do ser,  o conceito genericamente aceite na sociedade, ainda se encontra demasiado construído sobre o estabelecimento de diferenças ordenadas por níveis para terem o efeito verdadeiramente revolucionário nas nossas sociedades. Contudo, voltar à questão da "igualdade das inteligências" (sendo que aqui “igualdade” remete para a condição geral, inata e partilhada, de predisposição para) é questionar as noções de progresso, de níveis e nivelamento, de classes sociais e de conceitos/preconceitos estabelecidos sobre convenções arbitrárias. A noção de "emancipação intelectual" implica o derrubar das mesmas convenções e passa pelo exercício da liberdade e a confiança na capacidade intelectual do Eu e do Outro. No campo da educação, obriga-nos a revisitar e reflectir sobre todas as relações envolvendo Sujeito - Objecto – Meio - Agente.

 

Apontamentos sobre Arquitectura e Sociedade (3)

FREITAG, Michel (2004: 15-22). Arquitectura e sociedade. Lisboa: Publicações Dom Quixote.

 

Este novo capítulo intitula-se: «Para uma história política da arquitectura na sociedade moderna». Para reflectir sobre este assunto, o autor parte da ideia «de que o objecto mais próprio da arquitectura é a sociedade compreendida na sua unidade e na sua ordem, e na sua duração, bem como a posição do mundo e a sua modulação frente a essa ordem da sociedade, e através dela.» (2004: 23)

Para poder reflectir sobre esta questão, o autor leva-nos interiorizar alguns aspectos teóricos que definem a realização da unidade da sociedade. Segundo ele, esta é operada por três modos de reprodução: «a regulação ou a reprodução cultural-simbólica»(2004: 23); «a regulação político-institucional»(2004: 24) , sendo que este modo se sobrepõe ao outro, sem anulá-lo e indica como as práticas sociais estão submetidas a regras formais alheadas do significado das práticas culturais, fazendo com que este modo se imponha pelo o seu discurso de legitimação de poder «repartido» entre instituições e Estado; e um terceiro modo, que o autor descreve longamente sem propriamente nomeá-lo. Este terceiro modo rompe com a ideia principal de realização da unidade da sociedade, posto que o autor nos diz que «assistimos ao fraccionamento do sistema unificado do poder de Estado, à multiplicação dos centros de decisão relativamente autónomos, descentrados, e, correlativamente, ao apagamento progressivo do carácter formal, a priori, universalista das regras e das leis»(2004: 24) Aqui, posto que estou bastante dividida quanto à descrição deste terceiro modo de reprodução, tenho que lembrar que este texto foi publicado pela primeira vez em 1992 pela editora La Lettre Volée de Bruxelas, portanto há que situar no tempo e no espaço. O parágrafo sobre este terceiro modo requer uma leitura mais atenta à qual voltarei.

Apontamentos sobre Arquitectura e Sociedade (2)

FREITAG, Michel (2004: 15-22). Arquitectura e sociedade. Lisboa: Publicações Dom Quixote.


O capítulo intitula-se «sobre a natureza antropológica da arquitectura» e o autor começa por referir três pontos que definem a arquitectura na sociedade e que remontam a Vitrúvio: «a construção, a utilidade/funcionalidade e a beleza»(2004: 15). Aproveito para relembrar o que alguns autores disseram da arquitectura:

Plotino: «O que é a arquitectura? É o que resta do edifício, uma vez retirada a pedra.»; Schelling:«A arquitectura é a alegoria da arte de construir.» e Le Corbusier: « A construção é feita para aguentar, a arquitectura para comover.».

Depois de nos dar uma breve explicação, Freitag, indica que « Estes três aspectos pertencem decerto à definição de arquitectura, mas nem por isso representam, contudo, antropologicamente, a sua natureza essencial.»(2004: 15).


Obviamente que esta natureza essencial se relaciona com o ser humano inserido na sociedade, um vocábulo que nos projecta para meandros complexos e em movimento, e, genericamente, para espaços diferentes (cidades, subúrbios, vilas, aldeias, campo), mas o autor afina o seu pensamento remetendo-nos para uma «síntese superior entre a sociedade e a natureza». O autor constata a falta de harmonia entre o «mundo social» e o «mundo natural» de uma forma geral sem nos situar em determinado espaço e implicando, quase por defeito, a nossa concepção da arquitectura no âmbito da cidade. Se pensarmos na arquitectura e na cidade, de forma geral, a questão da natureza tem sido esquecida ao longo dos tempos pelos seus habitantes. Estou a pensar em algumas cidades que conheço bem como Paris, Lisboa, Nova Iorque, sendo que São Francisco ou Porto são para mim casos à parte entre outros. Quanto à arquitectura em espaços rurais ou em pleno campo, já é algo mais complexo envolvendo tanto a harmonia como a devastação. Mas voltando às palavras do autor, somos levados por outros caminhos, aqueles que convocam imagens de espaços de vida, tal como «um jardim bem abrigado por de trás dos seus muros revestidos de vinha-virgem do outro Aldo de um gradeamento» (2004: 16)

Então o autor, começando por um dos três pontos mencionados, neste caso, «a construção», questiona a expectativa que formamos da arquitectura à luz das imagens de espaços de vida e indica que: « A arquitectura começa por ‘dar um lugar’, começa por construir um espaço como espaço propriamente humano, espaço reservado das relações sociais que põe à distância a natureza estranha, e que, no mesmo lance, através dessa distância modulada estabelece a relação dos homens com um mundo apropriado e objectivado. (...)  O objecto original da arquitectura é, portanto, o da construção do espaço socializado, apropriado pelo homem.»(2004: 17) Partindo daqui passamos para algo quase tenebroso que, ao convocar o predomínio da ordem humana sobre o resto do mundo, chama a arquitectura como instrumento para tornar visível os poderes do ser humano.


Apontamentos sobre Arquitectura e Sociedade (1)

FREITAG, Michel (2004: 9-13). Arquitectura e sociedade. Lisboa: Publicações Dom Quixote.


«Uma aldeia, uma só, mas implantada no meio de alguns terraços cultivados no flanco de uma colina, humaniza a paisagem até ao fundo do horizonte; a pobreza e a solidão que as suas pedras abrigam projectam sobre o mundo em redor a presença de um sentido secreto e de uma ordem desejável.» (2004:9) Assim começa o autor dando outros exemplos semelhantes onde a presença do ser humano dá sentido ao espaço que frequenta.

 

Depois contrapõe estes exemplos com a fria natureza do mundo contemporâneo:

«Mas gelar, sob o vento do Inverno, na grande avenida Dorchester, à espera do autocarro; à hora da saída dos escritórios! Ou entrar para comer, sem que a fome seja muita, num fastfood anónimo! Ou olhar de passagem, numa tarde de domingo, a senhora que se bronzeia no relvado de um bungalow dos subúrbios! E deixarmo-nos subir pelas escadas rolantes da estação de metro, atravessar o torniquete de controlo de acesso, atravessar à pressa o átrio subterrâneo, mergulhar no interior de um elevador e, maquinalmente, no quinto piso, tomar pelo corredor da direita, já com a chave do gabinete na mão!(...)» (2004:9)

 

e questiona: « Para além da funcionalidade imediata do ordenamento dos lugares e das coisas, que mundo se deixou entrever e desejar, que realidade escondida na sua própria profundidade manifestou a sua presença enigmática e, todavia, sempre já familiar?» (2004:9)

 

Não é nada de novo. Não é nada que não tenhamos já sentido e/ou pensado. Mas a questão permanece enraizada no facto de sermos quase derrotados pelas múltiplas respostas, perfazendo uma quase ausência de respostas. O espaço à imagem do ser humano, é um espaço que se transforma no sentido da sociedade, mas quando essa transformação ultrapassa a natureza irregular e imprevisível do ser, impondo as suas regras próprias em nome de algo muito – demasiado – pragmático, o ser no espaço conforma-se tristemente, acreditando na funcionalidade. No entanto esta crença sofre por vezes alguns desvios. Um exemplo que vai ao encontro desta funcionalidade do espaço frequentado por seres humanos, mas que simultaneamente sobrepõe a humanidade à modificação dos espaços pode ser visto nos Invalides (7º bairro de Paris). O espaço foi reformulado dando aos parisienses amplos rectângulos de relvado dispostos de cada lado da avenida que vai para a ponte Alexandre III. Se olharmos para a ponte situados do lado do edifício dos invalides, vemos que o metro Invalides encontra-se do lado direito. Sendo que esta estação é fulcral porque inclui 2 linhas e acesso ao RER, verificamos que com o tempo os utentes do metro e RER que vivem do lado esquerdo, atravessavam um dos rectângulos na diagonal (uma recta diagonal que não coincide com a diagonal do rectângulo). Durante muitos anos, o caminho assim formado no meio do relvado tornavam-se um carreiro enlameado durante o inverno. Eventualmente, o caminho foi empedrado tornando-se um dos exemplos mais reveladores da imposição humana sobre um espaço desenhado, projectado e construído. O mesmo acontece com a senda traçada pelos passos dos indivíduos no jardim/praça da Republica no Porto.

 

Depois questiona a arquitectura, aquela que quer ser vista, aquela que se dá a ver, a sua natureza com contornos sociais e históricos que se tornou problemática. Isto porque a primeira maneira de ver a arquitectura é histórica (imagens). A segunda maneira é aquela que «se contenta em habitar os espaços urbanizados e arquitecturados da sociedade contemporânea». (2004:11) E acrescenta uma dolorosa verdade: «A das pessoas que têm residência nos arredores e um emprego no centro, que se abastecem nos centros comerciais periféricos e vão às compras nas plazas subterrâneas ou nas lojas das ruas pedonais dos centros de cidade. É também a perspectiva dos que vivem no medo de serem expulsos dos velhos bairros ainda habitados ou que, pelo contrário, procuram cumprir na renovação privada o sonho de uma urbanidade ou de uma conjugalidade renovadas pelo cenário de um passado objecto de uma decepagem minuciosa. É, em suma, a maneira que uns e outros têm de ver, de viver, de habitar, de trabalhar, de se divertir, de se deslocar, de sonhar, tudo o que existe por meio deles ou apesar deles, são o espaço e o mundo reais do grande número, o quadro efectivo da vida quotidiana.»(2004:11-12)

 

Concluindo que «A realidade parece ter escapado à arquitectura, e a arquitectura, desertado a realidade.»(2004:12)

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