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ARESTAS

ARESTAS

O cheiro do cardamomo e os mecanismos da desumanização

 

Uma pequena frase, entre muitas outras, no livro de Achille Mbembe, Políticas da Inimizade, despertou em mim algum desassossego: “(…) somos feitos de pequenos empréstimos estrangeiros, e, consequentemente, seremos sempre seres de fronteiras.”(2017, 54). A minha aflição nasceu da minha leitura onde, num primeiro e rápido pensamento, o íntimo e o externo se misturaram numa prolífica confusão e num turbilhão criativo de questionamentos, uma autêntica ebulição. Então, despi-me do prejuízo e do pressuposto que imprimia à palavra “fronteira”, i.e., uma linha fictícia que, se não intransponível, é pelo menos difícil de cruzar, excepto em territórios onde vivem pessoas privilegiadas, e.g., o espaço Schengen.  E, procurei as minhas fronteiras sem imaginar a complexidade e as relações entre os microcosmos que me descobri, então sim, reconheci-me assim mesmo num mosaico. Somos tão ricas e imperfeitas, feitas de tantas coisas que nem nos atrevemos a nomeá-las. Gostei desta conclusão, mesmo que possa vir apenas para me confortar na minha posição ideológica. 

Somos também aquele ser que nos leva a “comer os chocolates” (ou um substituto semelhante ao chocolate ou ao significado e aconchego que contem a ideia de comer chocolate) exactamente como a pequena suja da Tabacaria de Pessoa ou a comê-los todos, ou, pelo menos, a querer comê-los todos, como a criança na Viagem de Baudelaire: 

 

“Pour l’enfant, amoureux de cartes et d’estampes,

L’univers est égal à son vaste appétit. 

Ah! que le monde est grand à la clarté des lampes! 

Aux yeux du souvenir que le monde est petit!”

Parti da ideia de corpo enquanto território, cada corpo com as suas fronteiras que não são apenas a pele, cada corpo tocando nas fronteiras do Outro e vários corpos dentro de um território dentro de fronteiras. Para mim, as fronteiras sempre foram e permanecem um mistério, mas são definitivamente uma coisa que se cruza quer legal ou ilegalmente, quer voluntária ou involuntariamente. Dentro e fora. Mas as minhas fronteiras íntimas, essas, conheço-as e transgrido-as quando quero e me apetece, ou não. As outras, essas linhas fictícias e imaginárias, que, nos disseram, constituem os limites de um estado-nação, que só se concretizam por linhas desenhadas nos mapas ou que se encontram no terreno nos postos de controlo, nos postos de vigia com guardas armados de rostos inflexíveis e, no pior dos casos, muros como os que foram erigidos entre o México e os EUA ou às portas orientais e mediterrânicas da Europa, confirmam a intransponibilidade, a violência inerente ao rosto do guarda, ao betão armado e à falta de liberdade. Depois, temos as linhas que nem são fronteiras, mas que se erguem em muros sem portas. São muros sustentados pelo direito à autodefesa contra “os sem-lugar” que “não têm qualquer direito a ter direitos” (Mbembe, 2017, 34). É o eufemismo contido na expressão “barreira de segurança” que justifica militar e moralmente a mais extrema crueldade e violência e que se configura como um dos instrumentos visíveis da desumanização.

Quanto às fronteiras dos outros corpos, creio que é uma coisa menos nítida, mais difícil de explicar, é o imprevisto, ou o que acontece. Então, é isso que reconheci na mulher palestina, alguns mosaicos, ou parte deles, em comum, ainda que necessariamente diferentes, pressenti semelhanças naquilo que aconteceu nos momentos que partilhámos.

Cheguei a Ezbet Altabib, perto de Qalqilya, ao final da manhã, depois de uma viagem cheia de desvios e paragens. Num pátio acolhedor protegido do sol por uma parreira, crianças com um sorriso sôfrego ofereceram-me um café perfumado com cardamomo. Uma mulher começou a falar da confiscação de terras da aldeia, da destruição de casas, do abuso de poder pelo exército israelita, das detenções arbitrárias e de um emaranhado de arame farpado à entrada da aldeia, o futuro traçado de construção de uma barreira. Pouco a pouco, o pátio encheu-se de gente. Num ambiente calmo, quase silencioso, dirigimo-nos para uma clareira num pinhal, onde almoçámos um prato de saborosas lentilhas. Depois do almoço, entrei numa casa. Na sala, sentei-me no chão com várias mulheres de todas as idades, algumas com crianças nos braços. Recordo-me dos olhares simples e silenciosos que trocámos, qualquer coisa como um entendimento tácito. Fiz algumas perguntas tímidas, com todo o pudor que intuía na dor da situação desesperada. A cada resposta, em cada olhar senti uma tristeza ensurdecedora nestas mulheres simples de mãos fortes e roupas coloridas. Durante a tarde, arrancámos o arame farpado. Um pequeno gesto simbólico, porque toda a gente sabia que amanhã lá estaria novamente. Uma pequena acção que não passou despercebida aos soldados israelitas que apareceram rapidamente de dois lados, no campo mais abaixo e na estrada principal da aldeia. (…)

São fronteiras íntimas, aquelas que me deixaram o sabor amargo da profunda tristeza destas mulheres palestinas. São fronteiras fictícias e arbitrárias, aquelas que os soldados vieram defender. (…) 

Sigo o pensamento veloz que me assalta a mente continuamente em conexões, ligações, relações, extensões sem dar por isso. Regresso à frase de Mbembe que se enquadra numa crítica ao nosso tempo partindo de África, mas também partindo do mundo inteiro e num conjunto de reflexões em torno de “A saída da democracia”. Mbembe que concebeu o conceito da necropolítica, i.e., a subjugação da vida ao poder de morte, exercido soberanamente por um governo, partindo das reflexões de Foucault em torno da soberania e do biopoder, e nos diz que: “A forma mais avançada de necropoder não pode deixar de ser a actual ocupação colonial da Palestina”.(2017, 132) 

Regresso à dificuldade de chegar a Ezbet Altabib. Nesse dia, nenhum autocarro nos podia levar à zona de Qalqilya. Saímos de casa, no campo de refugiados de Aida, e fomos até à rua principal, Jerusalem-Hebron st. ou na versão inglo-palestina Al Qusd - Al Khalil main street. As linhas de autocarros sucediam-se de um lado e do outro. Pessoas por todo o lado, algumas hirtas e despertas, outras dormitando em velhas cadeiras de plástico ou de madeira, sentadas de lado, com o braço servindo de almofada por cima das costas da cadeira, junto do passeio à beira de um autocarro. Entre a azáfama das partidas, ecoavam as respirações cavas da sonolência. Entre as remelas de sono na calçada, antecipava-se a canícula deste dia de Julho com a neblina matinal sem horizonte.  Procurámos um táxi que nos levou até Beit Sahour e aí outro táxi até Ramallah e daí apanhámos outro até Bil’in. A seguir, fomos num carro com matrícula israelita, não me lembro em que termos isto foi arranjado, só sei que demorámos oito horas. Saímos de Belém às seis da manhã para chegar a Ezbet Altabib por volta das duas da tarde. Oito horas de viagem para percorrer cerca de 150 quilómetros. Passámos por barreiras dentro de fronteiras exíguas, um percurso tão longo num espaço tão pequeno! Confrontada com o mapa amachucado no meu bolso, perdi a noção das distâncias, só me ficou a noção do tempo, com todo o peso dos segundos, dos minutos e das horas. Com tudo isto percebi a fragmentação dos territórios palestinos e a segmentação dos colonatos israelitas, mas foi impossível conceber a totalidade do espaço. O espaço ficou reduzido ora a pedaços separados difíceis de ligar e trechos interconectados ou articulados com acessos restritos. E, nesta percepção kafkiana do espaço parecia que o ponto de partida era o ponto de chegada. Como conceber o ser num espaço sisifiano? A única coisa que aliviou a atmosfera sufocante foi o humor e a leveza da mulher palestina, semelhante a uma personagem de um filme de Elia Suleiman, que nos acompanhava. Na violência contida na divisão e repartição do espaço, tanto no seu aspecto administrativo e burocrático, como político e racial, onde existem zonas exclusivamente sob controlo militar israelita, zonas submetidas à lei militar, evidentemente autoritária, agressiva, prepotente e opressora reside mais um dos mecanismos de desumanização. (…)

Regresso à nudez da sala povoada de corpos sentados no chão e pergunto-me como chegámos a este ponto de distanciamento que nem nos permite identificar a fragilidade inerente a cada corpo? Mas não é só na fabricação de corpos separados, intocáveis, inodoros, lisos e aperfeiçoados segundo critérios preestabelecidos que reside o distanciamento que nos impede de ver a fragilidade e que nos permite identificar mais um dos mecanismos de desumanização.  Regresso à sala simples desnudada de móveis, objectos ou decorações, onde houve um encontro de peles na distância entre os sons, os cheiros, as mãos que se tocaram ao passar um copo, os olhares vivos, brilhantes ou contidos e de súbito todas as fragilidades ficaram expostas e encheram a sala toda. (…) Os muros não nos protegem, mas tornam-nos ainda mais frágeis, vulneráveis. (…)

No regresso, no saco de viagem, revistado três vezes no aeroporto Ben Gurion, trouxe cardamomo e, por vezes, consigo reproduzir o momento do copo de café com cardamomo que me deu uma criança de Ezbet Altabib à sombra de uma parreira. 

 

Ana da Palma

 

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