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ARESTAS

ARESTAS

Diário de uma activista na Palestina (3)


 

Estamos alojados no campo de refugiados Aida em Belém. Visitámos vários centros associados ao projecto do apelo internacional e a recepção tem sido muito acolhedora. A resistência é pacífica, diria mais do que pacífica, posto que nos foi especificado que nunca devemos tocar num soldado, mesmo que este nos brutalize, mesmo que este nos empurre, não devemos de nenhum modo reagir, nem nos debater ou defender. É o mundo do avesso! Numa situação de agressão, é normal o ser humano debater-se, defender-se mas, aqui, nem é possível, nem é aconselhado. Se por algum motivo um cidadão se defender de uma agressão corporal de um soldado israelita, esse cidadão irá enfrentar graves acusações.

 

As acções planeadas sofrem sempre uma reformulação, por vezes por questões de urgência, outras por razões de segurança. Os nossos anfitriões procuram sempre nos proteger e para dizer a verdade, os activistas internacionais sentem-se mais seguros na Palestina do que nas partes controladas por Israel. O efectivo do exército israelita é constituído por jovens soldados, quase imberbes, rostos de adolescentes, rostos de crianças e sinto uma grande tristeza ao contemplar estes rostos.

 

No dia 10, a sociedade civil palestiniana fez uma manifestação de solidariedade com os internacionais que foram detidos nos vários aeroportos. Foi um pequeno percurso, uma marcha solidária iniciada perto de uma igreja católica ortodoxa em Beit Sahour. A seguir visitámos o centro de juventude do campo de Aida. Vimos um pequeno vídeo informativo sobre o campo. Este é povoado por refugiados vindos de 27 localidades. Todos os habitantes que chegaram aqui em 1948, guardaram as chaves das casas das suas aldeias na esperança de regressar um dia.

 

Uma parte do muro foi construída junto do campo de refugiados e fomos manifestar-nos junto de um dos checkpoints. Batemos na porta em ferro com pedras e os soldados impávidos, com um sorriso de escárnio, olhavam para nós desde as torres.

 

Sentimo-nos muito pequenos. Formigas prestes a serem esmagadas. Contudo, os palestinianos, sempre sorridentes, enfrentam a fatalidade com um humor e uma coragem que nos tocam as entranhas.

GAP

Diário de uma activista na Palestina (2)

 

 


 

O apelo da Sociedade Civil Palestina aos povos do mundo foi feito no sentido de não nos calarmos sobre as injustiças cometidas neste canto do planeta, de não pactuarmos com o silenciamento sistemático do sofrimento e isolamento de um povo, assim como, pelo desrespeito quotidiano, tanto dos direitos humanos, como das decisões internacionais. Apesar do muro ter sido condenado, continua a ser construído.

 

A estratégia do governo israelita parece ser a de levar o povo palestino ao desgaste. A vida do quotidiano é imprevisível, é sempre uma vida adiada. Este apelo é apartidário e pacífico, é um apelo à resistência popular a que @s palestin@s já estão habituad@s, mas é uma resistência popular internacional que está a ser solicitada.

Este dia foi de «comemoração» para a Palestina pois, em 2005, o Tribunal Internacional de Haia declarou a ilegalidade do muro e dos colonatos. Pode parecer estranho falar-se em comemoração, posto que, perante as resoluções e decisões legais, o que se comemora é precisamente aquilo que a comunidade internacional é incapaz de fazer:  que os sucessivos governos de Israel cumprem as resoluções e as decisões internacionais.

 

Foram programadas uma série de manifestações. Tivemos um pequeno «breefing» antes de partir com todos os activistas do nosso grupo, uma dezena de estrangeiros que conseguiram passar no aeroporto, outros activistas e voluntários estrangeiros já presentes em Belém e Mazin,  mentor desta iniciativa da sociedade civil, onde nos foram explicados os riscos e as medidas a tomar. Quase todos os activistas se manifestaram no sentido de participar, sendo que alguns iriam participar à distância. Estávamos a pensar ir a duas manifestações, uma no Checkpoint de Qalandiya, entre Ramallah e Jerusalém, e outra em Ba'lin (Bi'lin). Estas foram as informações oficiais porque, após um longo trajecto até Ba'lin, onde nos encontrámos com mais cerca de trinta activistas estrangeiros e palestinos, o destino foi outro: An Nabi-Salih, uma aldeia isolada que fica a cerca de 15 km de Ba'lin.

 

O caminho foi bastante longo por pequenas estradas numa paisagem lunar...pedras e pó. Muito perto de An Nabi-Salih, tivemos que parar o autocarro porque avistámos soldados a impedir a passagem para a aldeia. Saímos com as nossas bandeiras e começámos a marchar em direcção aos soldados, para manifestar a nossa indignação por não nos deixarem passar até à aldeia. A uma pequena distância dos soldados, os confrontos começaram pois, apesar de nos manifestarmos pacificamente com a intenção de nos dirigirmos a Nabi-Salih com bandeiras, ao som de «Free Free Palestine», muito rapidamente os soldados dispararam gases e bombas de ruído para, por várias vezes, nos impedirem de passar para Nabi-Saleh . A sensação do gás foi terrível, pois parecia que estávamos a sufocar e caminhávamos quase a titubear com o rosto e os olhos a arder, enquanto as granadas de ruído nos ensurdeciam. Tivemos que desistir sem conseguir passar. Ficámos com o desespero de seres humanos minúsculos, injustiçados e impotentes.

 

Regressámos ao autocarro que nos transportou para, ao virar a esquina, encontrarmos mais uns camiões de soldados na estrada. Ficámos um tempo parados, esperando as ordens dos soldados para poder seguir. Esperámos uns minutos e finalmente deixaram-nos passar.

Da parte da tarde, fomos cortar a rede colocada no local para futura continuação da construção do muro. Perto de Ramallah, tivemos que actuar rapidamente e preparar-nos para correr no caso de uma intervenção dos soldados. O acto foi simbólico, pois entrámos num espaço de «no man’s land». A rede foi cortada e uma bandeira Palestina colocada.

 

Estas pequenas acções de resistência pacífica simbólicas são o quotidiano dos Palestinos. Parecem-se estranhamente com actos desesperados e sentimos no povo uma imensa tristeza.

GAP

 


 

Diário de uma activista na Palestina (1)

 

 Eis os relatos que tenho enviado para os Maravilh@s Companheir@s Invist@s, que fizeram um extraordinário trabalho de divulgação e de apoio incondicional, e que foram divulgados em vários sites (Blogue GAP; Facebook GAP; Twiter GAP; Diario Liberdade; Esquerda Net; Indy Media; 5Dias.net; Refluxo; Passa-a-palavra)

 

 

 


A minha chegada ao aeroporto de Ben Gurion e a passagem pela polícia das fronteiras fizeram- se sem problemas, o que não foi o caso de muitos outros activistas que foram ora impedidos de saírem dos aeroportos de origem, ora deportados na chegada a Telavive. O meu voo vinha de Zurique e encontrei companheiros belgas, um grupo de cerca de 25 pessoas, entre as quais apenas passaram 3.

Curiosamente, as perguntas que me foram feitas  eram tão gerais que não tive que mentir sobre os objectivos da minha estadia, pois desde o início que a ideia era ir para a Palestina e não ser detida logo à chegada.
Perguntaram-me o que vinha fazer a Israel, onde ia, se conhecia pessoas e que nomes tinham. Depois de passar este breve interrogatório, ao que respondi que vinha em visita, que tinha amigos e cujos nomes dei ao polícia, fizeram-me seguir. Passei por um grupo de jovens raparigas que me ofertaram uma rosa e me indicaram o caminho para a saída.

Permaneci bastante tempo à espera dos outros companheiros, terá sido, provavelmente, mais do que uma hora e já estava a desesperar quando de súbito fui assaltada por uma série de jornalistas que me viram ali parada e começaram a me questionar. Ao início respondi com alguma prudência , mas depois, vendo que os companheiros não saíam, respondi mais assertivamente às questões relativas à missão. Os jornalistas estavam nitidamente à espera de algo muito importante, uma grande manifestação e muito mais, posto que vários meios de comunicação relatando as palavras dos dirigentes israelitas falaram em perigos de imolação, em hooligans, etc.
Finalmente, 3 companheiros belgas, que conheci no avião, saíram e disseram que todos os outros tinham sido levados para uma sala à parte para serem interrogados. Sabemos que estão presos em Israel.

Entretanto, soube que houvera uma grande manifestação de israelitas anarquistas para nos acolher no aeroporto da parte da manhã. Todos foram, igualmente, detidos.
Um contacto discreto da Missão chegou finalmente e reunimo-nos todos com ela no café do aeroporto à espera de mais alguém. Chegaram mais 3 activistas franceses que também viram os seus companheiros presos e outros impedidos no aeroporto francês de Charles de Gaulle.

Parece que uma simples ida de pessoas à Palestina, de forma abertamente assumida, assusta as autoridades e leva-as a tomarem as devidas medidas junto dos outros países, para impedir as pessoas de se deslocarem à Palestina. Com efeito, nenhum dos activistas que passou disse que vinha para a Palestina, apenas disseram ser turistas e que vinham visitar Belém, Jerusalém e Telavive.
Esperámos até às 19 horas e, vendo que não chegava mais ninguém, partimos para Belém, onde chegámos estafados e tristes pelo sucedido.

GAP

Questionar

 

No dia 19 de fevereiro, visionámos «Death in Gaza» de James Miller. Trata-se e uma reportagem, posto que todas questões colocadas seguem um guião e uma ordem semântica, vinculada aos vocábulos mais utilizados pela imprensa, quando se trata do médio oriente, e, de forma mais específica, do olhar do mundo ocidental sobre o mundo muçulmano.
O documento videográfico acaba por não ir ao encontro do guião, dado o desfecho da reportagem: a morte de James Miller. Assim, todas as questões deveriam de ser, novamente, colocadas.
Em vez de procurar na resistência palestina as falhas éticas, seria importante desvendar a violência cometida de forma arbitrária e sistemática pelo lado israelita.
Em vez de deixar entender que os actos violentos são obra de mercenários, de beduínos árabes, procurar aprofundar a justeza desta afirmação e fundamentá-la.
Em vez de utilizar o termo «mártir» com a conotação negativa, depreciativa e assustadora que nos foi inculcada pelos media, revisitar o vocábulo no seio da comunidade que o emprega.
Em vez de nos mostrar uma ideia limitada a aspectos nacionalistas do ensino nas escolas palestinas, verificar a eminência do desaparecimento de uma cultura e de um povo ancestral, cuja identidade e nacionalidade requer tanto cuidado como qualquer outra.
 

Publicada por GAP

«Inteligência pura em comunicação com Outras Inteligências?» – Breve pista para outra abordagem à causa palestina.

«Essayer, un moment, de vous intéresser à tout ce qui se dit et à tout ce qui se fait, agissez, en imagination, avec ceux qui sentent, donnez enfin votre sympathie son plus large épanouissement : comme sous le coup de baguette magique vous verrez les objets les plus légers prendre du poids, et une coloration sévère passer sur toutes choses. Détachez-vous maintenant, assister à la vie en spectateur indifférent : bien des drames tourneront à la comédie. (…) Le comique exige donc enfin, pour produire tout son effet, quelque chose comme une anesthésie momentanée du cœur. Il s’adresse à l’intelligence pure.» Bergson (1985 : 4) Le rire. Paris : PUF.



No passado sábado 5 de Fevereiro iniciou-se o segundo ciclo de cinema-debate promovido pelo GAP no Gato Vadio. Este ciclo começou com um filme que pertence ao género da ficção, mais precisamente, segundo a crítica, trata-se de uma «tragicomédia burlesca». O filme, Intervenção Divina é constituído por uma série de pequenos quadros que se completam pouco a pouco. Trata-se de uma «história de amor e de dor» composta por fragmentos e repetições do quotidiano de que se destaca a absurdidade kafkiana da situação vivida na Palestina, mais precisamente, neste caso, na Cisjordânia, entre Jerusalém e Ramallah.

Intervenção Divina data de 2002 e ganhou o Prémio do Júri no Festival de Cannes nesse mesmo ano. Na nossa opinião a questão do género merece uma atenção particular tendo em conta três aspectos: 1- a percepção dos espectadores que procuraram no filme o retrato fiel e documental da realidade palestina; 2- considerando as palavras pertinentes e reveladoras de Jean-Luc Godard, no seu filme intitulado «Notre Musique»(2003), acerca do facto da «Palestina juntar-se ao documentário e Israel à ficção» e, por último; 3- porque a Academy of Motion Picture Arts and Sciences colocou certos entraves à candidatura deste filme de Élia Suleimane ao Óscar:
"The academy does not accept films from countries that are not recognized by the United Nations, Pavlik said, adding it also had to be nominated by a committee of recognized filmmakers from Palestine. Pavlik said in both cases "Divine Intervention" might have failed the test. Palestine does not have membership in the United Nations but is recognized as an "entity" that has "observer status" in the international body." ("Oscar escapes Mideast dispute," Toronto Star, 9 December 2002)
Entre realidade e ficção, quando as inteligências se recusam à comunicação, a pertença terrestre e a identidade humana da Palestina e do seu Povo encontram-se seriamente em risco.

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