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ARESTAS

ARESTAS

Perplexa. Mulheres? Gravidez? Aborto?


   

(Hans Bellmer, La Poupée, 1934-35)


Não sei. Não sei de nada.

Quando se trata do corpo das mulheres só sei o que fui aprendendo comigo, com o meu corpo (dado que nunca ninguém me falou directa e concretamente) deixando aquele espaço necessário para perceber, esforçando-me a não ficar presa às palavras com peso, aquelas com um significado restrito, ético, religioso, poético, ou não, no nosso passado cultural, esforçando-me a verbalizar aquilo que por vezes pode ser embaraçoso, apesar de ser sempre uma descoberta fascinante e um esforço verbal comunicativo gratificante.

Quando leio uma mulher como a Paulina Chiziane (escritora moçambicana), capaz por vezes de chegar às interrogações mais profundas acerca do corpo da mulher, fico feliz, mas apercebi-me que na realidade, as mulheres falam pouco, trocam pouca informação, quanto às coisas íntimas do seu corpo no nosso mundo ocidental. Há revistas, manuais em “dez lições”, artigos, mas nada que realmente seja importante, pois grande parte gravita no espaço da futilidade, ou da enumeração de pontos sempre, mais ou menos, ligados à sedução do Outro.

Se levantar a questão da masturbação junto das minhas semelhantes, estas ficam a olhar para mim, ora chocadas, ora com um sorriso silencioso, discreto, ou duplamente malicioso, como se fosse o espaço exclusivo do pénis, como se a mente feminina e o seu clítoris fossem espaços alheios ao corpo da mulher. Verifico que, quanto à questão do aborto, se a mulher for interrogada em presença do companheiro/ namorado/esposo (contado que este esteja contra) elas não se pronunciam. Ficam caladas, ou confirmam e corroboram a posição do companheiro/namorado/esposo. Sozinhas têm outra posição.

Não sei. Devo de ser um caso raro, ou então um caso normal numa situação diferente, com um passado diferente, ou fazendo um esforço de compreensão diferente.

            Também não percebo por que razão obscura e silenciosa a mulher terá de ser, ou mãe, ou esposa para poder ter uma opinião. Porquê? Porque se não somos nem uma coisa, nem outra, não temos sexualidade? Aquela condenável pela Igreja? Aquela condenável pela sociedade? Logo não sabemos? Mesmo assim haverá uma solidariedade feminina para com a liberdade individual e a justiça social? Não há? Não houve nenhum Montesquieu em Portugal? Aí! Meus amigos, isto que para mim era tão simples e claro, que sempre soube resolver por vontade e decisão própria, lidando com meus fantasmas, como todos nós, está agora a atormentar-me profundamente... Será que não conheço a realidade da mulher portuguesa, sendo eu própria portuguesa?!

Aprendi umas coisas ao longo dos tempos de vida, como todos nós!

Sei uma coisa: aquando de uma gravidez não desejada o desespero é grande. Se não conseguimos alcançar o aborto natural, ou não...pois... porque digo-vos, en passant, uma mulher que não deseja um filho, fará tudo (dar muros na barriga, deixar-se cair, ter um comportamento de risco, etc.) antes de optar por uma solução mais radical se tiver coragem e/ou meios financeiros para passar à execução do seu plano e é Seu o Plano, mesmo que comunique com o companheiro/namorado/esposo, permanece Seu Plano, independentemente do respeito, amor, carinho etc. pelo companheiro/namorado/esposo é Seu Corpo, a mulher tem de facto uma forma especial de lidar com o seu corpo. Entre outras coisas, é o seu equilíbrio afectivo que está em causa.

Agora apercebi-me que uma longa tradição indica que a mulher não tem capacidade de decisão e discernimento... e isto dói-me profundamente... Aí! Poder imaginar que isto ainda é uma realidade... será possível? Será que o peso da Igreja é tanto, que há pessoas que ainda acreditam que a mulher não pode ter poder de decisão, porque é mulher, porque carrega com ela, através dos tempos e dos livros (Bíblia, Mitologia, etc.), o peso de ter sido a causa de todos os males? A maçã consumida (e partilhada)? A caixa aberta? Considerando estes acontecimentos mais famosos, parece-me que, pelo contrário, demonstram o extremo poder de decisão da mulher e vós sabeis... (gostava aqui de poder piscar o olho, tanto às mulheres, como aos homens).

Não sou feminista, no sentido em que todos têm uma visão preconcebida, preconceituosa e, frequentemente, errada do feminismo. Sei perfeitamente o que é a sintonia com o parceiro, uma concepção desejada e planeada, mas também sei o que é um acidente, ou uma concepção não desejada, não planeada, onde temos que saber lidar com o sentimento de culpa, com toda a responsabilidade efectiva e afectiva que isso implica caso haja, ou não, nascimento.

Há algo importante que temos todos necessidade de saber. Há algo profundo! O sentimento de culpa num nascimento não desejado implica, por um lado, muito trabalho, por parte da mulher, para que a criança seja equilibrada, para que possa desenvolver-se e crescer num meio produtivo e saudável, sem que o sentimento de culpa dê assas ao laxismo, à desculpa educativa, e, por outro lado, é necessário, muitíssimo trabalho interior de autocontrolo, de domínio, assim como muito trabalho real, efectivo e concreto! Quanto ao sentimento de culpabilidade decorrente de um aborto, permanece uma dor escondida nas entranhas da mulher, algo complexo, algo que abrange sempre vários dados (tempo e espaço) e é algo das mulheres, algo que há-de permanecer sempre como um lapso no tempo, como um possível irrealizável, o qual apenas a mulher – no corpo – terá de resolver.

Ana da Palma

 

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