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ARESTAS

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Apontamentos sobre o consumo

Neste canto da península as coisas vão crescendo, acontecendo e desenvolvendo-se lentamente, passo a passo. Se pararmos para observar o que nos rodeia, verificamos que a nossa paisagem mudou. Podemos ver os indícios de que há imensos recursos possíveis se nos fossem dadas as ferramentas adequadas para inculcar a vontade e o desejo de conservar e acarinhar os vestígios da nossa história, cultura e identidade, em vez de alimentar o desejo, que se tornou quase natural, enquanto prolongamento do nosso ser social, vivendo em sociedade, de consumir desenfreadamente, isto é tudo o que à partida pode ser prescindível, tudo o que não é necessário, ou ainda tudo o que podemos consumir razoavelmente, para compensar algo perdido, ou para ter a sensação ilusória de que realmente pertencemos à mesma comunidade, ao mesmo grupo, somos iguais porque podemos consumir o mesmo, temos os meios para ver, ou ter quase o mesmo, sendo este fenómeno uma estranha deformação do capitalismo. Segundo alguns teóricos, entrámos na “civilização do desejo”, algo construído durante a segunda metade do século XX.

Acreditamos inocentemente no desejo didáctico das empresas abertas às visitas de estudo, ou que as promovem no seio das escolas e das instituições  sem pensar que estas propostas não são inocentes e tendem a estabelecer futuros padrões de consumo. A época do aspecto didáctico que constitui a produção está ultrapassada. Uma fábrica de bolachas, de gelados, de doces não constitui um departamento exclusivamente dedicado às visitas para apenas dar a conhecer os meios de produção, mas promove a sua marca através da inocência do olhar dos mais jovens de uma forma um tanto sórdida. Não é que esteja contra estes encontros, penso que podem ser benéficos, mas por outro lado considero que tem que haver um código ético, há que prever os impactos que podem condicionar os mais jovens e efectuar estas visitas pedagógicas sem o cunho da publicidade aproveitadora.

Antes destas visitas, acredito que há que formar e orientar para projectar um passado que possa vir a ser benéfico para todos no futuro em termos produtivos.  Não sou contra as empresas que revelam o desejo de mostrar modos de produção, mas isto não deve de nenhum modo revestir as formas opacas e dissimuladas de inculcar, delimitar padrões de consumo em particular quando se trata de empresas que fabricam doçarias e que constituíram no seu seio um “departamento pedagógico” direccionado para as crianças do primeiro ciclo. Primeiro, porque as doçuras sempre foram o lugar de perdição das crianças e de redenção dos pais com sentimento de culpa. Segundo, porque é pouco consistente face às preocupações quanto aos hábitos alimentares e face às acções feitas nas mesmas escolas no mesmo sentido.

Há uns dias durante uma conversa com um amigo francês, este disse-me com um ar extremamente calmo e convencido: “Portugal tem sorte de não ter petróleo, só assim é que o povo está motivado para produzir” e foram muitos os elogios a Portugal  deste conhecedor do mundo francês, formado em germânicas. Depois desta afirmação fiquei confusa. Perguntei-me, o que é que o povo português produz? Ouvimos geralmente vindo de toda a parte que o que Portugal poderia produzir está a lhe ser arrebatado. Agricultura em Portugal ? Há quem diria que já não existe, que está em vias de extinção. Indústria em Portugal ? Comércio em Portugal ? O mesmo...então...fiquei muito preocupada...pois não temos petróleo, e temos que sobreviver como pequeno país, pequena faixa erigida pelas pregas geológicas do tempo diante do atlântico.

Não somos completamente mediterrâneos, nem totalmente atlânticos. Tivemos um papel na história do mundo. Teremos outro papel a desempenhar da mesma maneira que qualquer outro país... Como é que isto tudo acontece? Como é que uma pequena faixa, semelhante a um pacote situado nos confins da península ibérica, resquício da memória de um passado glorioso, país de origem de homens e mulheres valorosos, corajosos... Como é possível? 

Queremos produzir consumidores? Mas para que possam consumir têm que produzir algo que lhes dê os meios de o fazer...

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