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ARESTAS

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A Pensão do tio de Abdel (6)

Ao lado de Helena, Pedro caminhava pensativo. Como é possível segurar esta mão, tão pequena e macia, com tanta certeza. Esta mão que sempre esteve na minha, esta mão quase prolongamento da minha mão. Numa tarde, como é possível ficar com tantas incertezas? São minhas as incertezas? Da Mão de Helena, Pedro passou a pensar no corpo de Helena. Quando se partilha a intimidade dos corpos, das peles, há sempre algo mais, há sempre uma proximidade que nos dá o direito de questionar? Será bem assim? Enquanto continuava silencioso, Helena caminhava ligeira. Pensava no jantar, em casa de Miriam. Que doçura esta rapariga. Tantas diferenças e ao mesmo tempo tantas afinidades. Helena continuava maravilhada com o encontro, sem se aperceber do tormento de Pedro, sem perceber que as afinidades resumiam-se ao corpo e ao deslumbramento que Miriam provocava de forma quase sistemática e consciente em certas pessoas. Quando passaram à frente da loja, Muhammad observou e acompanhou de longe o percurso dos cinco jovens como se estivesse a relembrar um passado longínquo, como se soubesse o que ia acontecer. Este olhar intrigava frequentemente os habitantes de Larache, mas com o tempo habituaram-se.

O jantar passou-se de forma agradável. Abdel continuou a falar de si, da sua vida futura, da sua família, mas sobretudo dos seus grandiosos projectos de viagens e do seu sonho de vida no estrangeiro. Pedro parecia estar interessado nesta questão e procurava tentar ajudar Abdel com sugestões, enquanto Nicolau brincava com as crianças, procurando nelas o brilho dos olhos do miúdo que lhe falara do jardim das Hespérides. Depois do jantar, Miriam agarrou a mão de Helena e desapareceram juntas. O mundo das mulheres era um espaço aparte e quase proibido. Comiam e dormiam separadas dos outros.

Muhammad fechou a loja e pôs-se à janela. O dono da loja vivia em Larache há muitos anos. Ninguém sabia ao certo donde vinha, nem o que fora o seu passado, mas todos o aceitavam sem questionar. Tornara-se um homem importante. De súbito, uma luz intensa iluminou os seus olhos e lembranças antigas foram reavivadas, coisas voluntariamente esquecidas chegaram à sua memória com uma nitidez absoluta.

Como agora, estava no posto da polícia, 50 anos atrás, quando o interrogaram. Lembrou-se das exactas palavras que pronunciara. Não sei o que se passou naquela noite, fazia um calor intenso, era mais uma noite de insónias, vim à janela, cruzei os braços no parapeito e perdi-me na completação da noite. Chegara quase a hora da oração, vi o almude sair de casa e dirigir-se para a velha mesquita. Ainda era noite. Há anos que vivo aqui em Larache, tenho tido muitas insónias, tenho observado as pessoas que passam, que vêm e vão, os habitantes de Larache, os turistas... Naquela noite, vi as duas raparigas saírem em direcção à praia. Não fiquei surpreendido, porque fazia muito calor e elas pareciam conhecer-se muito bem, pois estavam tão próximas, pareciam felizes. Os seus corpos ajustavam-se a cada passo e riam como só amigas podem rir. Algo acontecera naquela noite que as juntou para sempre. Algo de indescritível, que ainda hoje não sei explicar. Por que razão foram até ao porto, não sei. Não, não as impedi. Como podia impedi-las de fazerem o que queriam? Como podia saber o que ia acontecer? Não sei mesmo. O que é certo é que os seus corpos foram descobertos, perto do mar, nas margens do rio, amarradas uma à outra por uns ténues fios de seda. Os fios teriam partido numa situação normal. Como era possível? Como resistiram àquela manhã de tempestade infernal? Pouco tempo depois de ter visto as raparigas, ainda era cedo de manhã, um dos rapazes apanhou um autocarro em direcção a Tanger, parecia exaltado, havia um brilho quase feroz nos seus olhos. Não podia ser nada de bom. Vi-o encontrar-se com um miúdo da Medina. Esperaram pelo autocarro e subiram juntos. Nunca mais os vi. Há uns anos apareceu aqui um jovem, a dada altura pensei que podia ser ele mas não, não tenho certezas, não posso dizer nada. Não há nada a dizer quando não se sabe.

Quanto aos dois outros rapazes, não sei.

Muhammad não quis continuar.

Colocou ambas as mãos na mesa, juntou-as e apenas acrescentou, não sei o que aconteceu naquela noite, só que isto relembra-me algo de parecido, algo que me acontecera há anos. Na noite em que perdi os meus amigos e na manhã em que acordei com a estranha sensação de não poder partir sem perceber o que tinha acontecido.

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 22/12/06)

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