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ARESTAS

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“Pela primeira vez, no processo de reprodução das imagens, com (a fotografia), a mão encontra-se liberta de todas as tarefas artísticas mais importantes, que doravante ficaram a cargo do olho pregado à objectiva. E como o olho captura mais depressa que a mão desenha, a reprodução das imagens fez-se doravante a um ritmo tão rápido que chegou a seguir a cadência da palavra.”(Walter Benjamin, L’oeuvre d’art)

Até agora, em quase todas as imagens que percorremos, excepto talvez a imagem de Jürgen Nefzger, intitulada Sellafield, Grã-Bretanha, 2005, onde aparece uma mensagem social e política facilmente reconhecível, prevalecia o aspecto pura e simplesmente estético, antes dos outros indícios que sempre podiam vir por acréscimo, como por exemplo as implicações íntimas, os prolongamentos históricos, ou os aspectos sociais, que podiam transparecer nas outras fotografias. 

Está imagem de Otto Steinert (1915-1978) é, sem dúvida alguma, uma imagem bem diferente das outras. Não quero avaliar o valor desta fotografia. Pois falar do valor, hoje em dia, levar-nos-ia sobre outros caminhos que nos afastariam da imagem. Quanto ao que foi dito do valor no passado, por variadíssimos artistas de diferentes campos das artes, cada um pensando com as suas ferramentas, foi o seguinte. Segundo alguns, o valor de uma obra de arte reside fundamentalmente no seu poder de testemunho histórico, segundo outros o seu valor reside na sua perenidade, ou ainda, como afirmou André Breton, mais ou menos nestes termos, a obra de arte apenas tem valor quando estremece dos reflexos do futuro, ou do porvir, deixando-nos novamente com a velha ideia recorrente, que continua a ajudar a explicar tanto o artista, como a sua intenção, de um artista demiurgo e inspirado. Estas considerações acerca do valor de uma obra foram variando e oscilando com as mudanças sociais e tecnológicas que acabam sempre por configurar uma nova percepção.

O que nos resta desta imagem? Como perceber esta imagem? Vemos um transeunte em movimento, o seu vulto indica um tempo passado. Vemos uns cartazes,  onde podemos ler, inscrito em francês, « SIGNEZ » e « APPEL ». Tudo indica que a fotografia refere-se a um passado. Um tempo longínquo onde está presente um significado com uma certa importância no momento exacto em que a fotografia foi tirada e com um valor de registo hoje em dia. Pelo espaço em que identificamos a arquitectura dos edifícios podemos pensar que se trata de um sítio na Europa, o espaço destruído remete para algo diferente quando se encontra aliado aos cartazes. É fascinante como em certas fotografias, nada é deixado ao acaso, tudo se coordena de forma adequada para transmitir sentido. Todos os indícios funcionam perfeitamente, ajustam-se de uma maneira adequada. Nos cartazes podemos ver, ou melhor ler, que se trata de apelos. Podemos ler que são cartazes escritos em francês e só estes indícios poderiam ajudar a apontar para um determinado espaço e um tempo definido, pois toda imagem tem um Hic et Nunc, uma data. Pois trata-se de uma imagem tirada em Paris, no ano de 1950.

Esta imagem tem uma particularidade. Além de reafirmar pela justaposição, ou melhor pela co-existência de um plano em movimento, que corresponde à personagem, e um plano fixo, que corresponde aos cartazes afixados, neste caso como que duplamente afixados, uma intenção estética, também manifesta a sua intenção política, pois sabemos das mudanças e dos tumultos após a Segunda Guerra Mundial. No entanto, no primeiro plano, ou pelo menos aquele que se chamaria assim numa situação normal, vemos um vulto. Uma personagem em movimento. O seu próprio movimento parece estar de acordo com os cartazes do segundo plano. Por um efeito especial ligado à velocidade, o segundo plano que corresponde ao espaço dos cartazes torna-se como parte integrante do primeiro plano. O efeito de sobrepor dois planos que seriam, numa situação normal, dois planos distintos, parece produzir uma transferência de toda a “aura” contida na personagem anónima para o significado da presença dos cartazes. Este aspecto é realçado pelo simples facto que o último plano desempenha quase a função de pano de fundo (digo quase, porque não é neutro e também carrega indícios de espaço) por estar colocado entre um plano intermédio, uma parede branca que delimita um espaço em destruição/construção e um plano predominante e em destaque de forma tão clara e evidente. Assim, o tempo indica caminhos e outra forma de percepção, dado que para nós a imagem não tem o peso que tinha em 1950.

Nota: Mais imagens de Otto Steinert para ver aqui, num documento em PDF: http://www.upress.uni-kassel.de/online/frei/Bildteil.pdf                      

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 15/12/06)

 

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