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ARESTAS

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Fascínios (8)

 

Nem sempre é fácil falar do presente, pois segundo alguns falta-nos sempre a perspectiva e o conhecimento das coisas para poder fazê-lo. Por isso mesmo, com o passar do tempo esse papel, devido a uma “história” tão velha como Platão, foi atribuído, quiçá por uma questão de conveniência, de superstição, incompreensão, etc. ao artista, esse ser “alado, sagrado, inspirado pelos deuses, mas que deve ser expulso da república”. Um ser dentro do mundo, com o mundo, mas que permanece fora, o que lhe permite assegurar outra visão. Logo como falar e que dizer de imagens tão recentes quanto estas?

São ambas imagens que foram seleccionadas no primeiro concurso de fotografia organizado pelo Jeu de Paume e o Ministério da Cultura e Comunicação (francês). Quanto à imagem da esquerda, esta foi seleccionada pelo público. É uma fotografia de Jurgën Nefzger, artista interessado pelos espaços habitados e/ou transformados pelo homem. A imagem da direita foi seleccionada pelo júri. É uma fotografia de Jean-Christian Bourcart, artista que se dedica ao espaço interior de vida dos homens. Voltamos ao essencial, a fotografia como meio, visitou frequentemente tudo o que girava em torno de nós próprios, desde o auto-retrato, o retrato, o homem no seu espaço, o homem com os seus, etc. Isto deu-se tanto na fotografia do amador, que regista a sua família, acontecimentos e espaço de vida, como na fotografia do profissional. É de facto um instrumento que remete frequentemente e conforme o que parece ser o mais importante no momento, para o homem e o seu espaço de vida, sendo o espaço algo de muito abrangente, posto que podemos delimitar várias áreas que no entanto fazem parte de um todo. Com estas duas fotografias acabamos por poder observar a ilustração deste aspecto do espaço.

Pode ser complicado procurar indícios. Onde procurar as referências? Se olharmos bem as referências são evidentes, tão evidentes que destoam e quase ferem o olhar.

Por um lado, há o espaço de vida, enquanto espaço exterior, aquele que habitamos, aquele que moldamos e modificamos, que sofremos e que é sofrido. Um espaço que acaba por se resumir na composição de uma paisagem, enquanto vista de conjunto que coloca o homem no espaço feito à sua imagem, à sua medida, ou desmedida. Um homem no meio da paisagem. Verificamos, na fotografia eleita pelo público, a prevalência do espaço de vida, que, como por um efeito de espelho, acabou por orientar a escolha do público persuadido e consciente de habitar este espaço. O que é que orientou a escolha do público? Porquê uma imagem tão apocalíptica e realística, devido à presença das centrais nucleares no último plano e ao mesmo tempo tão irónica, pela presença deslocada, descuidada, quase inocente, duma inocência plastificada, de três homens em pleno centro do primeiro plano, três homens de meia-idade a jogar golfo? Identificamo-nos num determinado espaço e pelo espaço em que vivemos, também nos vemos, mas de uma forma distante.

Por outro lado, há o espaço interior, complexo e imperfeito, característico e subtilmente revelador, o espaço com que vivemos sem dar por isso, espaço exposto, moldado também semelhantemente aos outros (espaços), submetido ao tempo, à vida, as marcas do tempo, dos hábitos e das circunstâncias, igualmente ao exterior, mas no entanto é um espaço opaco. Apesar da velha crença de que a fotografia roubava a alma, neste caso, apenas tenta dar uma ideia da superfície através do vidro translúcido inundado por gotas de água. Pois este tema, tão bem explorado e revelado de forma muito sensível e inteligente pelo artista, remete para algo de complexo, que não poderei abordar nesta pequena crónica, dado que evoca tanto os primórdios da fotografia, as velhas crenças e mitos que lhe foram atribuídos, como o mito de Narciso, onde aparece o espelho de água que reflecte a imagem do jovem, o escudo de Perseu, enquanto instrumento reverberante que fixa e mata eterna e repetidamente, pelo simples olhar que permaneceu vivo numa superfície, mas também todo um discurso teórico em torno do espelho que remete para o abismo e para um certo tipo de narração. Isto está subtilmente produzido, mostrado e lembrado no vidro através do qual a fotografia é tirada. Trata-se portanto de uma proposta teórica e estética que também tenta uma aproximação à vida real, mas pelo interior, pelo que o rosto revela. O vidro funciona como superfície estética e asséptica. O vidro não deixa passar, mas sendo translúcido imprime carácter ao objecto fotografado e o coloca desde já na categoria de quadro, com aquele efeito de “mise en abîme” que neste caso se encontra desmontado. Não é espelho, é quase espelho e o referente é o vidro. A componente que aproxima esta imagem do público é ténue e subtil, mas está bem presente neste mundo, onde experienciamos o Outro atrás de um ecrã, de um vidro, de um espelho, de um reflexo. Sempre aquele que vemos, mas sempre Outro. E isto aplica-se também ao nosso próprio reflexo.

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 8/12/06)

 

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