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ARESTAS

ARESTAS

A Pensão do tio de Abdel (5)

 

Na Praceta, enquanto as duas raparigas continuavam a passear, mastigando de forma compassada e quase numa harmoniosa melodia as pevides de girassol, Abdel e Pedro seguiam atrás silenciosos, ambos comprometidos com os seus pensamentos ocultos e, pelo menos naquele momento, um tanto inquietos.

Abdel encontrava-se dividido entre a possibilidade que constituía a presença de Helena, uma mulher do Ocidente, uma potencial esposa que lhe abriria as portas de um eventual, quase certo, sucesso, ou pelo menos de uma vida confortável num país europeu, e os seus sentimentos por Miriam. Enquanto Abdel tentava lidar com este problema de escolha, Helena e Miriam caminhavam lado a lado, de braço dado, e Pedro procurava acercar-se delas para fugir ao desconforto do silêncio que se tinha instalado entre ele e Abdel.

De súbito, Nicolau surgiu diante deles com um rosto luminoso, como se tivesse visto uma luz de sonho. Abdel deixou as suas preocupações e Pedro disse:

-Chegaste! Já estava a pensar que te tinhas esquecido de nós. Tens andado um pouco distante...conseguiste ver o túmulo de Genet?

-         Sim, consegui. Respondeu

Nesse momento, Abdel interrompeu-os, pois ficara com a sensação de ter sido enganado.

-         Ah! Assim já sabias! Foi mesmo por isso que foste ao cemitério! Bem me parecia! Sabem, posso vos mostrar ainda mais coisas...bonitas...muito bonitas. Conheço bem Larache e os arredores. Há imenso a descobrir e a visitar. Dizem que aqui estiveram os fenícios, os cartagineses, os romanos e até os portugueses!

-         Pois, comentou Pedro, parece-me que li algures que havia umas ruínas romanas em Lixus, poderíamos ir até lá...

-         É mesmo disso que precisamos! Exclamou Nicolau, ver velhas pedras, ruínas...é precisamente isso! E...porque não entrar no Jardim das Hespérides?

 

Enquanto continuavam a conversar acerca das coisas a ver, ou a fazer em Larache, ou por perto, as raparigas caminhavam alegre e lentamente sem dar por nada. Pouco a pouco uma maior intimidade crescia e agora estavam abraçadas como andavam as outras raparigas e alguns rapazes.

Houve um silêncio, os três jovens olharam para as duas raparigas que pareciam muito animadas. Riam-se, ouviam-se gargalhadas felizes. O riso delas trouxe à memória de Nicolau o rosto do miúdo que o convidara para ir ao Jardim das Hespérides, enquanto Pedro se sentia ligeiro, mas um pouco esquecido por Helena e Abdel fazia de Miriam e Helena uma única pessoa, apenas continuando a alimentar as suas incertezas quanto ao futuro. Era evidente que Miriam não lhe ligava nenhuma, a incógnita era se Helena podia sucumbir aos seus encantamentos machos. Olhou para Pedro e começou a comparação doentia, mas benéfica que assegurava as suas possibilidades de a seduzir independentemente de ela ser, ou não, sua namorada. Mas o que era ser namorado para eles, nada que comprometia definitivamente, apenas uma relação promíscua e condenável pela religião e que não revelava nenhumas intenções sérias. Abdel podia propor algo de consistente a Helena. Um rapaz novo como ele, com uma proposta inalienável: o casamento, só podia jogar em seu favor. Depois, teria tempo para pensar no que fazer. Agora, o que era preciso, era assegurar a dedicação e a espera de Miriam, conquistar a Helena fazendo perceber à Miriam que o seu amor por ela lhe dava todos os direitos. Tudo estava a construir-se logicamente na mente de Abdel. Tudo só podia funcionar tal como previa. Pois sabia e podia convencer Helena de um amor eterno e incondicional. Não será isso mesmo que as mulheres desejam, principalmente as mulheres ocidentais, extremamente sentimentais, muito mais que as raparigas de Larache. Pois estas sempre querem certificar-se do valor do noivo. Mas e o amor? Abdel continuava com estes pensamentos, contraditórios e estereotipados acerca das mulheres marroquinas e ocidentais, acerca do que elas desejam e querem no mais profundo do seu ser, como se fossem todas tão previsíveis, tão transparentes. Enquanto Pedro olhava para Helena, para os seus braços à volta dos ombros de Miriam. Como é estranho, pensava, nunca a vi estar assim com outra mulher. Perguntava-se, mudamos de lugar e os nossos gestos também mudam? As mulheres são mesmo imprevisíveis! Não que tivesse propriamente ciúmes, mas algo parecido nascia no seu peito. 

Nicolau perseguia o seu sonho secreto, sem se aperceber do gigantesco fervilhar de emoções e sentimentos nos mais profundos pensamentos dos seus companheiros.

-         Está na hora de irmos jantar, disse Miriam radiante.

Naquele momento, todos concordaram e saíram do círculo da praceta para dirigir-se para a Medina. Pedro aproveitou para agarrar a mão de Helena e Abdel acercou-se de Miriam, com a firme intenção de dar início ao seu plano de conquista.

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas 1/12/06)

 

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