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ARESTAS

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Fascínios (7): Flor e Flor



 

Entre Kertész e Sudek, entre flor e flor, repete-se o vaso e as pétalas. Para efeito de contextualização, relembro que André Kertész é um fotógrafo americano de origem húngara (Budapeste 1894 – Nova Iorque 1985) que chegou a Paris em 1925 e que trabalhou como fotografo independente ate 1936, quando se instala em Nova Iorque; e que Josef Sudek é um fotógrafo checo (Kolin-uber-Elbe 1896- Praga 1976), que se iniciou na fotografia em 1913 e se dedicou totalmente a ela a partir de 1920, é o co-fundador da Sociedade Checa de fotografia em 1924. Se o romantismo e a poesia são os traços distintivos dos trabalhos de Sudek “ poeta de Praga”, o “Olhar” de Kertész fez dele o representante de uma estética que vai influenciar a fotografia no sentido de uma busca silenciosa de uma presença.

Na imagem de Sudek, o objecto fotografado, neste caso identificado pelo título da imagem, pois trata-se de uma rosa, destaca-se de um espaço que também ocupa o quadro da fotografia, uma mesa ou uma bancada com uma janela atrás. Na imagem de Kertész apenas a sombra e a luz revelam toda a presença do objecto, neste caso uma túlipa. Enquanto numa imagem a identificação da flor é evidente e óbvia, na outra é sugerida pelo caule, que parece revelar as características do caule de uma rosa, e pela pétala côncava que se deixa entrever por um efeito de lupa criado pelo frasco no primeiro plano.

Entre Sudek e Kertész, vejo a transparência repetida pela presença dos vidros, os ecos de sombras nos espelhos contidos de poesia, a nitidez do embaciamento, o sonho contido nas coisas dentro de um espaço bucólico contextualizado pela história do fotógrafo, pois as últimas fotografias de homens, ou seja, uma série de trabalhos sobre os soldados estropiados data de 1922 e 1927, depois desta data Sudek nunca mais retratou o ser humano, mas apenas o que o rodeia, as estruturas que habita, ou visita, as naturezas mortas e a luz como uma promessa de futuro irrealizável. Durante a Segunda Guerra Mundial, o artista fecha-se em casa e tira fotografias desde a janela, nasce então a sua profunda necessidade de busca dos “reflexos exactos”.

Entre Kertész e Sudek, um mundo de imagens, um espaço limpo, depurado e nítido, onde se encontra o objecto fotografado igualmente puro e limpo, as linhas e os contornos perfeitamente dirigidos, esperados e recortados. A imagem evidencia uma estética totalmente centrada na busca das linhas, nos contornos e nas formas sem omitir a luz e a poesia. Ambas as imagens revelam todo um procedimento de busca estética, procurando evidenciar no mesmo tema uma preocupação, uma ideia de beleza, ou uma promessa.

Quanto mais observo, mais procuro, porquê ? São duas imagens tão próximas e tão distantes. Porquê ? Tanto uma como outra brandem uma estética que consigo distinguir enquanto conceito. Ambas posturas estéticas me agradam. Apesar de sentir maiores afinidades pela Rosa, a Túlipa inquieta-me, não sendo tanto como um desconforto, mas como um alheamento. Hoje sinto mais próxima da Túlipa, ontem só pensava na Rosa. Que maravilha poder inclinar-se para uma, ou para outra !

De súbito, tanto a vitalidade inclinada, a firmeza e a nitidez da túlipa de Kertész, como a sensibilidade oculta e multifacetada da rosa de Sudek, enquadrada num espaço bem particular, onde reina o espelho, trouxe algo profundo, semelhante à evocação de um afecto, aquele que é muito próximo do amor. Será essa a semelhança que me leva a oscilar, ora pela Rosa, ora pela Túlipa?
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas 24/11/06)

 

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