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ARESTAS

ARESTAS

A Pensão do tio de Abdel (4)

 

Enquanto hesitava a decidir se queria se preparar para ir ao encontro marcado com Abdel, Nicolau deixou-se afundar em pensamentos meandrosos e interrogações escabrosas sem solução, nem resposta possível, como se estivesse irresistivelmente atraído pelo abismo. Fora mesmo um sonho, não podia ter sido outra coisa. Mesmo assim, ficara com dúvidas, porque é difícil resistir à tentação de um mundo ideal, mesmo edificado por sonhos inconsistentes. As palavras aliciantes do miúdo chegavam à sua memória, como quando se relembra a doçura de uma colher de mel, ou a mais deliciosa e apetecível iguaria. As palavras da criança andavam à solta na sua mente atormentada, surgiam como uma lengalenga repetida continuamente, uma curiosa litania, onde cada palavra tinha o peso de um enigma que atormentava e regozijava simultaneamente.

Dissera: “Hoje, levo-te ao jardim das Hespérides. Vais poder provar os frutos míticos de Hércules. Conheço um sítio...”. Nicolau olhou para o relógio esperando que as agulhas, cronologicamente ajustadas, não indicassem hora nenhuma, procurando desesperadamente afastar o tempo, para poder recuperar um espaço sem espaço, mas eram quase 18 horas. O dia estava a acabar lentamente e as palavras do miúdo giravam como num carrossel infernal. Dissera: “Hoje”, uma palavra que normalmente se refere a algo próximo, não há equívoco possível, dado que se pode contar as horas de hoje e apenas faltavam seis horas para acabar. Mesmo assim permanecera uma dúvida do tamanho da maior incerteza e da profunda insegurança de Nicolau. Será que o hoje, proferido por aqueles lábios sorridentes e puros, referia-se mesmo ao dia que estava a acabar, ou era um hoje distante feito da substância dos sonhos, com uma possibilidade demasiado longínqua para ser realizável? Como podia um miúdo levá-lo ao jardim, além disso não se tratava de qualquer jardim, o jardim das Hespérides não era em nada semelhante a outro jardim. Como sabia ele o caminho? Como era possível saber o caminho para um sítio tão mítico, tão inacreditável e inexistente? De súbito, alguns de todos os sítios míticos, de que ouvira falar, foram convocados na sua memória como para assegurar-se de que se tratava simplesmente de um sonho inconsistente. Sentia-se como o sonhador Alastor, procurando verdades em terras desconhecidas e apenas descobrindo a tristeza e o desespero, porque é assim mesmo de que é feita a substância dos sonhos. A caverna de Alastor revela a busca inalcançável do poeta e da sua alma inquieta e insaciável, sendo, no entanto, um sítio onde a natureza se sobrepõe ao homem e mostra o seu imenso poder sobre todas as coisas. Mas o herói romântico apenas permitia evocar as grutas de Hércules, situadas a norte de Larache e que visitara uns dias antes com os amigos, pois aí também o turbilhão de luz podia levar a terras silenciosas, viçosas e serenas. São tantos os mundos maravilhosos criados nas águas do Mar Mediterrâneo. Miríades de ilhas, mais ou menos localizadas à entrada deste mar fechado, apareceram referidas ao longo dos tempos como mundos possíveis. Seria como ir a Abaton, cidade de localização variável, onde nunca ninguém chegou. No fundo não lhe era desagradável pensar que iria ver o jardim, cujos frutos dourados iluminaram Portugal e receberam o seu nome. Seria como Dioniso, uma ilha do Atlântico, a oitenta dias das Colunas de Hércules, onde se pode ver inscrito numa coluna de bronze: “ Juntos, Hércules e Dioniso viajaram até aqui” e onde criaturas arborescentes precipitam os homens que as beijarem no abismo embriagante do esquecimento. Seria como Anostus, uma ilha sem nome, à entrada do Mediterrâneo, onde correm dois rios, o rio do Prazer e o rio da Dor, uma ilha onde não existe nem noite, nem dia, e depois da qual não há regresso possível. Sempre ilhas, ou cidades, espaços delimitados e protegidos pelos seus limites, sem remeter para um território particular. Novamente tempo e espaço desapareciam para juntar as duas dimensões numa concepção de mundo ideal, como se fosse necessário perder as noções que regem o nosso mundo para aceder a esse outro mundo. Contudo, Nicolau não procurava alhear-se, apenas sentia uma imensa curiosidade. Uma lufada de ar fresco entrou pela janela e o ruído da porta a bater resgatou Nicolau das suas divagações silenciosas.

Olhou para o relógio. Já passara das 18. Estava na hora de ir ter com os outros. Quantas voltas já terão dado à praceta?

 Nicolau preparou-se para sair, mas secretamente alimentava o sonho de um hoje que nunca acabava e que iria ter por destino um espaço secreto, esquecido e mítico.

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 17/11/06)

 

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