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ARESTAS

ARESTAS

A Pensão do tio de Abdel (3)

Colocou a mochila numa cadeira perto da cama. Tirou um livro, um pequeno caderno preto e uma caneta que colocou em cima da almofada. Descalçou os ténis e desapertou o cinto. Aproximou-se novamente da pequena janela para se certificar da autenticidade primeira visão que tivera. A exígua abertura rectangular, semelhante a um quadro, delimitava um espaço privilegiado totalmente ocupado pelo minar. A torre branca simples, sólida e solitária da mesquita destacava-se, inflexível, na lenta e branca opacidade do fim da manhã. Sentia um certo tédio, próximo de uma tristeza insinuante, como se nada fizesse sentido, mas como se fosse mesmo assim, irremediável. Não há nada a fazer, os momentos de felicidade vão e vêm com picos de diferente intensidade e com períodos mais ou menos longos, como se estivessem em permanência regidos pelas estações do ano, ou como se o estado meteorológico dos dias fossem previsões dos estados de alma. Não vale a pena se lamentar, não é necessário procurar perceber, nem tentar encontrar uma saída. Descobrira que a melhor solução era esperar calmamente, sem entrar em pânico, sem impaciências que esse estado quase mórbido, semelhante a um profundo enjoo, desvanecesse. Ficou de pé à beira da janela. Esperou até ao momento em que os passos estreitos e ligeiros do almuadem trouxeram a voz à almenara. Eram horas da oração. Homens e mulheres dirigiram-se à mesquita num ruído de passos ensurdecedor. O seu estado displicente diminuíra estranhamente, enquanto a voz melodiosa, nitidamente abafada ecoou como um raio. Então, Nicolau saiu do quarto e dirigiu-se para a varanda. Puxou uma cadeira e instalou-se com as mãos juntas no peito. Fechou os olhos, pensando descansar alguns instantes. Pois acordara muito cedo de manhã para ir até ao cemitério e a noite passada na tenda à beira-mar fora agitada, irrequieta e inconfortável.

Estava no barco a atravessar o rio Loukos em direcção à outra margem para ir até à praia, quando uma criança de olhos profundamente escuros e sorridentes lhe oferecera uma laranja. Tirara a navalha do saco e delineara quatro sulcos na pele do fruto. Enquanto o descascava, seguindo meticulosamente cada traço deixado pela lâmina, o miúdo não parava de olhar para todo o procedimento com muita surpresa e um certo encantamento. No preciso momento em que levou o primeiro pedaço aos lábios, a doçura, semelhante às primeiras laranjas que os portugueses trouxeram da Ásia, que o fruto lhe deixou na ponta da língua e na garganta desfez de súbito toda a tensão e o cansaço acumulados no rosto e um sorriso lento esboçou-se nos seus olhos. O miúdo olhara para ele com um ar de desafio e dissera-lhe: “Hoje, levo-te ao jardim das Hespérides. Vais poder provar os frutos míticos de Hércules. Conheço um sítio...”

O muezim parara de salmodiar.

Perto da varanda, a voz de Abdel chegara com profusas palavras gastas. Nicolau regressou lentamente para o quarto. Quando entrou, Helena estava a arrumar as suas coisas numa prateleira vazia. Tencionavam ficar uns quatro, ou cinco dias, para aproveitar da praia, dos frutos, dos peixes, em particular das sardinhas grelhadas, e descansar um pouco antes de seguir para Safi e Essaouira. Entretanto, Abdel marcara um encontro na Praça da República pelas 18, para depois levá-los a jantar.  

Helena e Pedro foram tomar um duche, enquanto Nicolau tentava ainda acordar de um sonho. Ficara com a curiosidade aguçada. O miúdo dissera-lhe que lhe mostrara o jardim das Hespérides. Não podia ser um sonho, mas também não podia ser verdade. Pois não podia ter apanhado o barco, dado que ficara sentado a descansar na varanda da pensão.  Esta história só podia ser por causa da proximidade da gruta de Hércules. Não podia haver outra explicação. Continuou cismando.

Abdel saiu em direcção à mercearia com a estranha sensação de que veria novamente Miriam. Como é possível! Ela nem olhou para mim, esteve o tempo todo a olhar para aquela mulher sentada na mesa do canto a escrever. Todo o tempo. Mas como tinha pressentido, Miriam esperava-o perto da loja de Muhammad. Tinha um ramo de jasmim numa mão e um frasco de água de flor de laranjeira. Queria conhecer melhor aqueles jovens estrangeiros. Convidou-os a jantar em sua casa. Abdel concordou, pois sempre era uma maneira de estar mais próximo dela. Quando chegou a hora do passeio encontraram-se todos na praceta. Miriam tinha enfeitado as mãos com Henna e cheirava a laranja e erva cortada ao mesmo tempo.

Helena e Pedro chegaram juntos.

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 10/11/06)

 

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