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ARESTAS

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Fascínios (6) Exercício de estilo?

“No nosso corpo, algumas coisas são feitas para fins de utilidade, como as vísceras, outras tanto para a utilidade como para a Beleza, como a vista do rosto, e os pés, e as mãos, membros que são de grande utilidade e aspecto decentíssimo. Algumas são feitas só para ornamento, como os peitos nos homens e o umbigo em ambos os sexos. Algumas são feitas para discrição, como nos machos os órgãos genitais, a barba prometida e o amplo peito; e nas fêmeas, as gengivas suaves, o peito pequeno, e os rins e as ancas amplos para poder conter o feto.” (Isidoro de Sevilha, Etimologias, XI, 25)

“ A luz é a natureza comum que se encontra em cada corpo, tanto celeste como terrestre. (…) A luz é a forma substancial dos corpos, que possuem tanto mais real e dignamente o ser quanto mais nela participam.” (Boaventura da Bagnoregio, Comentários às sentenças, II, 12, 1; II, 13, 2)

 

Ainda não sei bem por que razão escolhi esta imagem. Por vezes, há escolhas que não conseguimos justificar completamente. Há escolhas que são completas, no sentido em que tudo se constrói harmoniosamente, outras vezes, apenas são o resultado de um pormenor que tomou dimensões mais consistentes, mesmo que hesitantes. Presumo que foi isso, um pormenor, algo quase insignificante, que me levou a escolher esta fotografia. Há qualquer coisa de insólito, qualquer coisa de inesperado nesta imagem datada de 1883. São dois corpos separados e indiferentes um ao outro. Não há um centro explícito, visível e bem definido na composição da postura dos dois corpos parados à beira da água. O centro da imagem permanece vazio, para oscilar lentamente entre um corpo e outro, seguindo a mesma inclinação dos corpos. Deve de ser por estarem dois homens nus numa situação de pausa e pose, como se estivessem diante de um jovem pintor renascentista à procura das formas dos corpos, ou então, como se estivessem a pousar para um escultor grego atento a todos os pormenores dos contornos dos músculos, relevos dos ossos e tensões corporais. Fico surpreendida com a planura e com a falta de perspectiva desta imagem. A água tem a função de um pano de fundo, semelhante a um lençol mais claro no último plano, que apenas parece realçar e pôr em evidência a luz que emana dos corpos. Por um efeito oposto, a planura da paisagem imprime relevo aos corpos expostos, separados e ao mesmo tempo unidos pela nudez, pelo olhar dirigido para o chão e o joelho em flexão, ambos os corpos com um joelho flectido. Precisamente na posição indicada para mostrar os músculos das nádegas, a torção dos corpos, a rotação da cintura e os ossos das costas. Não são posições totalmente naturais, mas têm prolongamentos em quase todas as representações iniciadas pelos gregos, como as do Mestre de Olímpia, de Doríforo, de Diadumeno e de Apolo. Daí o efeito de distanciamento criado entre o objecto observado e os observadores. O que não incomoda nada na imagem está terrivelmente ausente. O que vemos quando corpos nus estão expostos? Assim desta maneira, tão límpida, tão evidente. Uma prova? Um exercício? Uma prova para ser estudada? Uma prova ao tempo? Será que nesta imagem o corpo constitui um indício? O testemunho da nossa existência, da nossa nudez e, de alguma forma, sempre a nudez da nossa presença enquanto ser? A nudez da nossa existência apesar dos artifícios? Podemos olhar para um corpo qualquer sem peso, ou com todo o peso, tudo depende do que procuramos, daquilo que motiva o nosso olhar, ou daquilo que desejamos encontrar. Um olhar pode existir sem o outro, independentemente do outro, separados. Podemos facilmente abstrair-nos da imagem nua, e na imagem da nudez, assim como na presença de “Thomas Eakins T.E. and John Lauri Wallace at the Shore”, ver a indicação espacial como um indício. A simples indicação do espaço, no título da fotografia, implica necessariamente outra abordagem.

Não diria que esta imagem me inspira algum fascínio pelo que representa, isto é, dois corpos nus, mas, sim, pelo que ela não apresenta, ou seja, pelo que evoca. Vejo dois corpos num estado latente, numa desenvoltura encenada, num estado de espera, não só pela postura dos corpos esperando a exposição, mas por estarem fingidamente ausentes. Corpos infimamente observados observando algo de inexistente, permanentemente cientes de serem observados na postura de pose em pausa. O que se espera desta imagem? Se podemos esperar algo? Podemos? Há algo de semelhante à nobre sinceridade e simples grandeza das estátuas do mundo antigo, contudo aqui apenas permanece a vaga reminiscência das estátuas.

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas 3/11/06)

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