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ARESTAS

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A Pensão do tio de Abdel (2)

 
Abdel passou pela praceta vazia. Seguiu a estrada à beira mar em direcção ao cemitério, pensando no que iria fazer. Tinha que procurar mais clientes para a pensão. Ainda havia quatro quartos vazios e um dos casais hospedados ia sair no dia seguinte. Lembrou-se que tinha de passar pela mercearia para negociar a entrega de frutos e legumes, de falar com alguns pescadores para trazerem peixe fresco, de se encontrar com os amigos para combinar mais umas sessões de cinema e, ao fim da tarde, procurar ver Miriam. Todos os seus pensamentos ficaram presos à ideia de a ver. Representou-se o seu rosto sorridente, onde os dentes brancos brilhavam entre lábios lisos e carnudos, o seu cabelo escuro com reflexos de henna acaju avermelhado e o cheiro embriagante a erva cortada cada vez que o cabelo solto nos seus ombros se movia em ondulações pesadas. O seu corpo inteiro estremeceu quando pensou nos ombros aveludados e redondos de Miriam e de súbito o cheiro da sua pele emergiu com a lembrança do seu peito palpitante de pomba assustada, mas atrevida, naquele dia de festa, em que os seus braços nus se tocaram. Estava a ficar tonto de tantas sensações quando passou diante da loja de Muhammad, já apinhada de gente.
Bom dia, Abdel! Tenho aqui três turistas à procura de quarto, queres acompanhá-los agora?
Bom dia Muhammad. Sim. Só tenho uma coisa a fazer... dentro de meia hora passo por aqui e levo-os. Acenou ligeiramente em direcção a um rapaz e uma rapariga sentados numa mesa. Saiu e foi em direcção à praia.
     O jovem, que entrara no cemitério, continuava o seu percurso tentando relembrar o que o levara àquele sítio. Era uma manhã silenciosa e branca. Precisava de distância e solidão. Não queria ser visto, não por estar no cemitério, mas simplesmente porque sentia falta de estar só. Era difícil estar só neste país. Além dos dois amigos com quem viajava e com quem partilhava os quartos, havia sempre gente que os abordava. Caminhava entre os túmulos brancos com a ligeireza de quem se sente liberto de todas as amarras. Procurava um túmulo em particular, mas dado que não havia nenhumas inscrições, todas as campas podiam ser aquela que procurava. Deixou-se ir a imaginar que fora uma das que lhe pareciam mais antigas. Sentou-se com um suspiro e disse uns versos soltos gravados na memória em voz alta.
Solennel monument cadavres sans cercueil
Cercueils sans ornements nous étions par le songe
Embaumés empaumés.
Pressez vos mains d’éponge!
A mon torse sale portez vos doigts d’amour.
Je saurai revenir des informes détours
 Abel entrou no cemitério no preciso momento em que o jovem se preparava a partir. Cruzaram-se.
Bom dia! Gostas deste sítio?
O rapaz sorriu levemente, calmo e distante respondeu que sim. 
Abdel sentiu um receio, pareceu-lhe que o jovem não estava muito bem-disposto. Mesmo assim continuou. Eu sou Abdel e tu?
Chamo-me Nicolau.
Sabes, dizem que um escritor francês está enterrado neste cemitério. É por isso que estás aqui?
Sem motivo aparente, apesar de saber perfeitamente por que razão estava em Larache, o mito ou a verdade que foi alimentando durante vários anos de que Jean Genet estava ali enterrado, Nicolau disse fingindo a ignorância, ah! Sim? Está aqui enterrado um escritor? 
À medida que iam caminhando, Abdel continuava a falar de tudo e de nada. Falou tanto que quando Nicolau deu por si estava junto dos seus amigos na loja de Muhammad. Quando chegaram, Helena e Pedro estavam a escrever postais com um sorriso satisfeito no canto dos lábios. Nicolau juntou-se a eles em silêncio e pôs-se a observar Abdel a conversar com Muhammad. Quando uma jovem esguia de pele morena, cabelo solto e vestido cor-de-laranja entrou na loja, todos os olhares, como movidos por uma atracção irresistível, dirigiram-se para ela. Nicolau verificou uma certa inquietude no corpo de Abdel, como se a chegada daquela jovem tivesse provocado uma nítida alteração na sua respiração. Durante uns minutos a jovem olhou em direcção a Helena insistentemente, como se desejasse ser vista, mas Helena continuava a escrever freneticamente e não deu por nada.
     Por volta do meio-dia, estavam instalados na pensão do tio de Abdel, atrás da velha mesquita. O quarto era um grande rectângulo quase vazio. Duas das paredes caiadas estavam revestidas de tecidos ligeiros e coloridos como sedas. Havia três camas estreitas colocadas mesmo à frente de uma larga janela, com três painéis de portadas azuis, voltada para o oceano. Ao fundo, um lavatório com um espelho quebrado e uma minúscula janela rectangular pela qual se avistava o minarete.
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas 27/10/06)

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