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ARESTAS

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Fascínios (5): Monumentos de Edward Steichen.


Com as fotografias de Edward Steichen tropecei saborosamente nas imagens erigidas como Monumentos! Pois, há tanto a dizer! Tantos prolongamentos e indícios que delineiam múltiplos caminhos! Quer se trate de uma paisagem urbana, campestre, ou humana, o que prevalece sempre é o Monumento, na medida em que se trata de uma interrogação sobre a criação. As imagens passaram diante dos meus olhos e revelaram-me sempre o mesmo motivo, como se fosse uma preocupação, ou algo semelhante a um tormento. Apesar dos variadíssimos temas tratados ao longo dos seus trabalhos fotográficos e, mais tarde, da sua especialização no retrato, o motivo como “local de crime” do fotógrafo Steichen é de facto o Monumento, ou a erecção de monumentos. Eis as razões que me levaram a tal conclusão.

Encontramos frequentemente em vários autores motivos recorrentes que atravessam as suas obras como uma obsessão, como uma repetição, como se aquilo que se quer mostrar, ou aquilo que se quer dizer, nunca estivesse totalmente mostrado, ou dito, como se nunca se tivesse alcançado a expressão máxima, como se nunca se pudesse acabar de dizer o mesmo com imagens aparentemente diferentes, com movimentos corporais, traços de lápis, pincel, ou sulcos de buril variadíssimos, com sábias e intrincadas alianças de palavras, permanece a mesma preocupação. Esta aparenta-se a uma linha directora que conduz toda a produção. Logo, quando, apesar dos variadíssimos temas fotográficos tratados por Steichen, verificamos um motivo que pode uni-los, podemos reconhecer um estilo, o seu estilo, que neste caso além de constituir e definir parâmetros estéticos, também remete para uma interrogação subjacente em todas as imagens: Que génio criador?

Nesta fotografia, o homem retratado, ou re-apresentado, é um grande vulto da escultura. Um grande homem: Auguste Rodin (1840-1917), com um Museu em Paris, e várias obras espalhadas pelo mundo. Além de ser este o homem representado, no seu espaço de trabalho, com uma obra sua intitulada Eva (1907), de que o título ainda apresenta as características do indício que desejamos revelar. O que é que sobressai nesta imagem? Será a cor predominante? Será o branco imaculado da concepção? Vejamos. Será a estátua branca, o pano branco sobre o ombro do homem no primeiro plano, ou o branco no último plano de que se destacam tanto a escultura, como o escultor Auguste Rodin? Serão as dimensões? O desnivelamento entre o primeiro e o segundo plano? Será que as dimensões da imagem, dando-nos a contemplar o homem do primeiro plano menor do que a obra criada no segundo plano, utilizando o efeito criado pelo jogo de dimensões, para provocar uma fusão entre o homem e a sua obra? Será a posição de perfil? Como expressão do perfil de uma obra, ou do perfil de uma obsessão? O que indica o abraço da estátua? Que corpo é este que poderia ser masculino, ou feminino, se o título não estivesse presente para comprovar o seu sexo?

Esta fotografia lembra de forma subtil os primórdios da arte e da arte fotográfica por duas razões principais. Primeiro porque evoca a história de Pigmalião, o escultor que se morria de amores por Afrodite e que, por não ser correspondido, criou uma estátua branca de que se apaixonou, até beneficiar dos favores da deusa que acaba por dar vida à estátua, fazendo dela Galateia. Uma história que remete para a concepção da Alma Gémea, o Outro/a, o/a semelhante com quem se criam laços e a quem são atribuídos traços amorosos, como podemos reencontrar com Eva resultado do fruto do desejo e do corpo de Adão. Aqui não se trata tanto do objecto do desejo, mas a criação do mesmo, como Eva, a criação de Deus, Galateia, a criação de Pigmalião, a criação do Escultor, a criação do Homem. Segundo por relembrar a história contada por Plínio, o esboço da sombra amada desenhada pela jovem e concretizada em baixo relevo pelo escultor. Trata-se de um sentimento poderoso que motiva a criação e é uma imagem Homenagem, não tanto ao homem que foi Rodin, mas à fotografia.

(Edward Steichen, fotógrafo americano, Luxemburgo 1879- Nova Iorque 1973. Emigrou para os estados unidos em 1881. De 1902 a 1914 colaborou com Stieglitz. Trabalha para Vogue e Vanity Fair. Dirigiu o departamento de fotografia do MOMA em Nova Iorque.)

Nota: Na penúltima crónica intitulada Fascínios(4), por lapso de paginação, faltava a imagem que acompanhava o texto, mas podem vê-la a cores no seguinte sítio http://arestas.blogs.sapo.pt no artigo com o mesmo título Fascínios (4)

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 20/10/06)

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