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ARESTAS

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Leituras de Verão: O mundo grego no “O escudo de Aquiles” (1)

Uma das estratégias do contador de histórias para aliviar a tensão da acção é a repetição na caracterização das personagens. Neste tempo repetitivo, onde as palavras surgem de forma automática, processa-se a continuação da história, a concepção da intriga. Outra estratégia, tanto oral, como literária, é a digressão, ou seja, o momento em que o narrador fala de outra coisa, frequentemente uma coisa conhecida e disponível, acrescentando por vezes significado, ora tornando a narrativa mais interessante, ora mais pesada, isto independentemente do valor literário da obra, ou do texto. Penso que deve de ser por esta razão que Roland Barthes diz num pequeno livro intitulado O prazer do texto, algo próximo de: “O que é bom com Proust é que nunca omitimos os mesmos trechos cada vez que o lemos”. O canto XVIII é um trecho importante tanto para os conhecimentos sobre a época, como para a estrutura da narrativa. Este canto, onde é descrito o escudo de Aquiles surge na narrativa como uma ruptura, porque se afasta do momento descrito na Ilíada, isto é, apenas um episódio de cinquenta e cinco dias durante o décimo e último ano da guerra de Tróia. Ao que concerne a narrativa, serve para anunciar a morte de Heitor e a origem divina de “homem de pés velozes” e, por outro lado, põe em evidência a importância do saber do forjador, ou ferreiro, em tempos de guerra e descreve a vida e a organização social daquela época. É com um verdadeiro talento de ilusionista que a descrição do escudo de Aquiles se imiscui na narrativa. Por meio de um objecto, um simples escudo, muito ornado e trabalhado, que se assemelha ao espelho de um tempo, é nos oferecido um esboço panorâmico do mundo grego. É um retrato vivo, um espaço em movimento repleto de sensações visuais e auditivas, onde se pode vislumbrar os passos de dança e onde estão gravadas as músicas. Hefestos, que segundo algumas versões mitológicas, tinha feito as armas de Peleu, pai de Aquiles, forjou umas armas lustrosas e coruscantes de ouro e prata para o filho de Tetis. Um escudo é um objecto de guerra. É um instrumento que deve necessariamente ser grande e sólido para proteger. Mas, as armas feitas pelo Deus coxo para um semi-deus, como Aquiles, só podiam ser magníficas. O acto de forjar era considerado como uma arte que implicava “sábios pensamentos”. Voltando ao escudo, encontramos informações sobre os conhecimentos astronómicos e geográficos da época. A terra é plana e circundada pelo mar Oceano, como é referido no canto: “Forjou lá a terra, o céu e o mar” e também: “Modelou ainda a grande força do rio Oceano, na cercadura extrema do escudo tão bem lavrado.” O sol, o maior astro, a lua, assim como as Plêiades, as Híades, Orion e a Ursa Maior estão representados “ A ursa, (...) que gira no mesmo lugar e espreita Orion(...)”. São conhecimentos importantes tanto para a agricultura, como para a navegação. Também não devemos esquecer que o grande astrónomo, Cláudio Ptolemeu, foi igualmente um importante teórico da música, que chegou a fazer corresponder as notas e os astros, o que Platão chamou a “música das esferas”, ideia que permaneceu durante a Idade Média, como mais tarde para Shakespeare. Hefestos forjou duas cidades, uma em paz e uma em guerra. Na cidade em paz representa cenas de bodas e festins. Vemos noivas que ao sair do leito conjugal à noite, são levadas entre cantos e música, pela cidade iluminada por archotes. Vemos a flauta e a cítara. Sabemos as origens divinas da música através de Apolo, Anfião, Orfeu e temos notícias de que a música fazia parte das cerimónias religiosas, contudo da música grega só nos restam cerca de quarenta fragmentos. Enquanto os jovens dançam as mulheres observam fascinadas. É representada uma cena de julgamento, onde os Anciãos sentados em “pedras polidas” vão dar a sua opinião sobre o caso da quantia a pagar à família de uma vítima de homicídio. O Povo assiste à cena como testemunha. Aparecem dois grupos sociais: o Povo e os Arautos. Os Arautos exercem uma tarefa de policiamento e os Anciãos, que seguram o ceptro dos Arautos, exercem o seu poder de julgamento que só os mais idosos podiam exercer. No chão estão dois talentos de ouro que serão destinados àquele que dirá a sentença mais justa. Esta cena revela o nível de organização social da época e mostra uma sociedade ainda organizada em tribos, onde um grupo de anciãos detinha o poder.
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas 4/08/06)

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