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ARESTAS

ARESTAS

A pensão do tio de Abdel (1)

É sempre uma questão de tempo. Mais cedo, ou mais tarde, o que deve acontecer, acontece. Devia ter sido a frase final do filme que vira a noite passada. A chuva começara a cair por volta das 23:00 horas e esta manhã o chão ainda estava molhado. As poucas árvores pingavam gotas pesadas das suas folhas em festa. Esta chuva apenas vira aumentar o calor agonizante dos dias anteriores. Agora, nem uma aragem de frescura reconciliadora, nem a proximidade do Atlântico pareciam poder mudar algo ao ar quente e húmido que estava, definitivamente, viciado. Acordara muito cedo totalmente encharcado. A noite fora agitada, cheia de imagens confusas e entorpecedoras de que apenas ficara a lembrança do corpo de Eva. Macio, tão macio que a sua memória quase doía. Mas tudo não passara de um filme visto ontem à noite com os amigos. O corpo daquela mulher ocupara o espaço todo do ecrã ao ponto que tinha a estranha sensação de ter passado a noite com ela. Sentia um certo nojo ao recordar a sua proximidade e exuberância. Saltou fora da cama e abriu a janela para sentir o ar do oceano, como se pudesse refrescar e limpar. O horizonte parecia ter sido delineado pelas sábias mãos de uma mulher com khôl azul-escuro. Nesta imobilidade serena, quase ameaçadora, algo se moveu e esse vulto longínquo despertou a sua atenção. Viu um jovem entrar no pequeno cemitério, à beira do atlântico, banhado por uma luz de aço impenetrável e intocável como acontece depois da chuva. Era um pequeno cemitério simples, onde as campas, sem nomes, nem ornatos estavam mais ou menos alinhadas. Um pouco mais longe, o oceano estendia-se entre o azul e o cinzento.  

Como todas as manhãs, Abdel deu as indicações ao pessoal da cozinha para prepararem o pequeno-almoço aos turistas hospedados na pensão. Não podia faltar nada. Seu tio tinha-lhe dado a oportunidade de ganhar um pouco durante a sua ausência. Este trabalho era muito importante, talvez pudesse ficar a trabalhar ali e não tivesse de regressar para Tanger, nem emigrar para França. As coisas estavam muito complicadas e difíceis para os jovens de famílias pobres e com pouca formação. Há muitos anos que o futuro estava afastado por um polvo gigante, com braços múltiplos e poderosos do outro lado do Estreito de Gibraltar. Chegar a Ceuta, não era suficiente para poder vislumbrá-lo. Para alguns, o futuro mais próximo e prometedor era Espanha, para outros era França. A França sempre era mais fácil, por uma simples questão de língua, mesmo se muitos odiavam a língua francesa como se fosse um par de algemas irremediavelmente fechadas sobre o passado. Hoje em dia, havia tanto turista espanhol que a língua quase já não era um obstáculo e no fundo sempre ficava mais perto de casa. Visto como anda o mundo, sempre pode ser melhor não estar muito longe para poder fugir em caso de emergência. Abdel já tinha tudo imaginado, mas como para muitos jovens da sua idade, a maquinação não passava de um sonho de ouro. A viagem até Ceuta, a passagem de barco até perto de Algeciras. O percurso era difícil porque sem papeis não se podia seguir o caminho normal. Já tinha feito uma tentativa há dois anos atrás. Tinha conseguido um passaporte, mas foi impossível obter um visto. Tudo parece ser tão fácil para uns e tão difícil para outros. Pode não ser tão evidente, mas, à volta de Ceuta, há um batalhão de soldados que guardam a fronteira, fora as torres de vigia dos espanhóis provavelmente cheias de guardas. Alguns contrabandistas, aqueles que conhecem os caminhos e as mudanças de turnos, passam a sua mercadoria sem problemas, mas mesmo assim é perigoso, pois nunca se sabe quem pode aparecer. Enquanto Abdel tomava um chá à janela do lado do mar, vira que o jovem ainda andava no velho cemitério. Observou-o durante uns minutos. Perguntando-se o que fazia ali e o que procurava. Só podia ser um turista. De natureza extremamente curiosa, preparou-se para sair.

Em Larache, todos e todas estavam destinados a uma vida miserável, onde o único momento de felicidade, ainda que se possa contestar, era resumido a umas horas ao final da tarde. A partir das seis e meia, todos os jovens se encontravam para o passeio quotidiano à volta do jardim central. Na verdade, não se pode dizer que se encontravam, isto é, que conversavam, trocavam olhares e palavras. Não, apenas estavam todos no mesmo local, mas os rapazes andavam sempre juntos e as raparigas também. Davam voltas e voltas, uns atrás dos outros, partindo e chegando sempre ao mesmo sítio, olhando-se discretamente com o desejo na ponta dos olhos e comendo pevides de girassol compulsivamente.
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 13/10/06)
 

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