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ARESTAS

ARESTAS

Fascínios (4)



“A imagem é dotada de uma irradiação paralisante, como a cabeça da Medusa que transformava em pedra todos os que passavam sob o seu olhar. Todavia, essa fascinação não é irresistível senão aos olhos dos analfabetos. Com efeito, a imagem não é mais do que um emaranhado de signos, e a sua força maléfica vem da junção confusa e discordante dos seus significados, como a queda e o entrechoque dos biliões de gotas de água do mar formam em conjunto o bramir lúgubre da tempestade, em vez do concerto cristalino que um ouvido dotado de um discernimento sobre-humano poderia ouvir. Para o letrado, a imagem não é muda.” (M. Tournier)


 

 

Uma sucessão de imagens colocadas mais ou menos lado a lado, ou seguindo um agenciamento preciso pode contar, ou não, uma história, ou revelar uma série, como sendo a preocupação, ou uma urgência, do seu autor, mas a forma de apresentar essas imagens obedece normalmente a regras. Qualquer exposição lê-se sempre começando por um lado formal “institucionalizado”, sempre o mesmo lado. Há imagens que, colocadas em determinado espaço, prescindem das palavras e outras que remetem necessariamente para o texto que as acompanha. Lembremo-nos, também, no caso particular, de uma prática individual e de um fenómeno colectivo da sucessão de imagens sabiamente ordenadas no álbum de família, em que cada imagem tem uma legenda, cada momento de vida representado de forma sistemática é necessariamente apresentada ao Outro com um conjunto de frases-memória, frases-anedota, frases-sentimento, etc., frequentemente repetidas ao longo dos tempos. Podem ser poucas palavras, mas juntamente com a imagem falam e contam um passado, ou a história que desejamos, ou não, relatar.

Neste objecto de John Adams Whipple, retratando Cornelius Conway Felton, com o seu chapéu e casaco por volta de 1850, reencontramos a sucessão de duas imagens e o retrato que poderia figurar num álbum de família, o objecto sendo em si muito semelhante a um álbum. Quanto à disposição, lado a lado, destas duas imagens podemos reencontrar a fotografia como forma narrativa, ou melhor, a narratividade da imagem. Por um lado, porque são duas fotografias que parecem indicar o mesmo presente, em que existe um antes e um depois, e, por outro lado, porque são duas imagens que poderiam ser como as palavras numa frase. Os retratos sucedem-se da esquerda para a direita como palavras inscritas, mas eventualmente da direita para a esquerda!

Vejamos as ordens de leitura das imagens que relatam narrativas diferentes. Se olharmos para o objecto como lemos um livro, a história é a seguinte: Cornelius Conway Felton veste-se. A mão que se destaca por cima da cadeira está prestes a agarrar o chapéu e o resultado final é a personagem da direita. Se olharmos para o objecto começando pela outra imagem, vemos Cornelius vestido com a mão na abertura do casaco e a mesma mão retirando-se do chapéu na imagem da esquerda e neste caso o homem despiu-se. Em ambos os casos o referente é o mesmo. Mas, se olharmos sem a intenção de ler uma história, são duas imagens que até poderiam não ser relativas ao mesmo objecto fotografado.

Dei a imagem a ver e verifiquei que, na maioria dos casos, os olhos são automaticamente levados ao rosto e à mão do homem representado à direita.  Só depois o olhar inicia a leitura à esquerda, ou seja, seguindo o processo normal de leitura. Dado que o título não nos diz nada sobre a ordem da narrativa, conforme o que vemos em primeiro e a forma como processamos todos os dados podemos ler uma ou outra história.

Mas o que fez com que o meu olhar caísse em primeiro na imagem da direita em vez da imagem da esquerda ? Qual o processo de identificação que fiz para ler estas duas imagens desta forma ? Primeiro duas imagens separadas pelo tempo sem a sua narratividade e depois o regresso à história, que neste caso é a seguinte: o homem não põe o casaco ! Não, o homem despe-se ! Tira o casaco, até porque tem os dedos sobre os botões e tira em primeiro o casaco e a seguir o chapéu que vai ficar colocado silenciosamente por cima do casaco que se encontra na cadeira. Depois desta revelação procuro qual o índice, que identifiquei na imagem para pensar na transmissão de uma necessária nudez, como algo próprio da fotografia? Foi todo um processo que se encontra na falha das imagens, naquelas que desapareceram entre a esquerda e a direita. Toda a construção da minha narrativa fez-se a partir das imagens ausentes!

(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 6/10/06)

 

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