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ARESTAS

ARESTAS

Uma noite ao teatro

Quando lemos uma peça de teatro é com uma única voz. Uma única voz para dois textos, por um lado, as falas das personagens, que sussurramos ou murmuramos, e por outro lado, as didascálicas, que constituem um texto em si, e que, por vezes, em algumas peças, fingem diluir-se na memória da representação de uma imagem e ficam num espaço indefinido. Não se lê teatro. O teatro não é um acto de leitura individual e silencioso. O teatro atinge o seu efeito no acto perlocutório, esse que une os actores aos espectadores através de uma mensagem dita oralmente. N’ “A dança da morte”, é íntima a mensagem de Strindberg e incomoda precisamente por isso, pela sua qualidade de ser intimamente reconhecível. Por um caminho traçado com velas, entramos no pátio do Museu do Hospital Termal, seguimos pela mata para penetrar na antiga lavandaria. Seguimos este caminho quase como um percurso iniciático. No edifício, o calor natural, que emana como vindo das entranhas da terra, suaviza o tema que, sabemos, vai ser apresentado dentro de instantes. Subimos a escadaria e aqui estamos quase no palco, a respirar o ar dos actores, a sentir os movimentos de profundo cansaço de Alice e de Edgar. O espaço circular é torre, é arena e abre-se apenas por uma passarela em arco de círculo, como o prolongamento de uma parede retirada de propósito e foi de propósito! É desta forma que o espectador está quase no palco. Aqui o cenário é necessário não para destacar-se, encenar-se no sentido de se mostrar, mas para aproximar, envolver os espectadores. Aqui o espaço e o cenário coadunam-se perfeitamente para alcançar o efeito desejado inerente ao tema tratado por August Strindberg: é uma dança. Uma dança da morte em vida. Não importa muito falar da história ou da trama em si, pois não há, verdadeiramente, uma história porque est uma história repetida ao longo de 25 anos. Tudo acaba como começa, apenas com mais ruinas –Alice e Edgar uma noite , mais uma, juntos a cuspirem ressentimento, amargura e ódio, ambos, profundamente, cansados da relação, mas ambos sem força para quebrar laços, presos um ao outro pelo tempo, e até pelo próprio ódio de que se alimentam mutualmente. Respiram um no outro de forma doentia, sem luz, sem futuro. Nessa noite, a nossa noite de espectadores, chega o primo Kurt, antigo pretendente de Alice. Chega com uma imensa ternura, com imensa carência afectiva, ouve Alice, ouve Edgar, e os seus sentimentos oscilam - quando aprendemos que Edgar está doente e que vai morrer – de que, no fundo, ninguém tem a certeza, porque Edgar mente e diz a verdade quase simultaneamente - estas são as palavras de Alice, que nós espectadores nos apropriamos!- Alice pensa en refazer a sua vida com Kurt, mas a tentativa, vista como um salvação, fracassa, e tudo volta ao princípio – o que no fim é importante referir é o que nos resta desta noite a densidade, a depuração e a intensidade, assim como a concentração que retrata a vida. Apenas fica o tempo em que nos perdemos. São duas experiências, semelhantes a um reconhecimento, para o espectador. Por um lado, o reconhecimento próximo ou longínquo desta vida “entranhamente” ligada, sem luz e sem remédio de Edgar e Alice, e por outro lado, o reconhecimento da hesitação e de todas as oscilações da alma e do entendimento representadas por Kurt. Saímos exaustos de tanta vida como Bernardo Soares saiu do electrico com a sensação de ter vivido várias vidas.

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