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ARESTAS

ARESTAS

Uma tarde com árvores...Porquê?

Depois das quatro árvores, aqui apresentadas, sinto a necessidade de explicar. Pois nada se faz sem razões íntimas e profundas. Num mundo invadido por tantas referências longínquas verdadeiras ou falsas, a que atribuímos uma relevância significativa ou não, com um efeito que perdura ou não, no meio desta confusa proliferação de informação, que nos atormenta como fúrias gregas, erínias, que se encarregavam das vinganças de sangue, ou moscas divinas, tem que haver um espaço próximo que alia o que nos rodeia com o resto do mundo, tem que haver algo a fazer a ligação entre a terra e os céus, algo a relembrar a nossa profunda humanidade, para esquecermos por momentos a nossa aspiração a homens-deuses, grandes reguladores e ordenadores do nosso espaço. Vou continuar o percurso entre as árvores que nos rodeiam ou que rodeamos e que por vezes não identificamos. Paulatinamente, o caminho estreita-se, não por falta de árvores para visitar, observar, identificar e nomear, mas porque, por um lado, nomear confere-nos um poder sobre as coisas e, por outro lado, porque falar das árvores é um pretexto para falar de outras coisas, que me parecem importantes, mas de uma forma ligeira. Falar de nós sem o peso e a gravidade que me habita, quando ligo o Castanheiro da Índia à rapidez e à falta de tempo, a Tília a um conhecimento anterior ao nascimento, a Araucária ao belo natural inspirando talvez um belo artístico, a Ameixoeira ao mundo das sensações e das emoções. Outras árvores virão, pois ainda há muitas para descobrir, mesmo apenas no Parque D.Carlos I, mas hoje queria visitar outro espaço...Um jardim perdido. Atrás dos armazéns de uma fábrica fica uma “cova de verdura”, a aliança de palavras não é minha, pedi-a, postumamente, emprestada e traduzia-a de um poeta francês, um vagabundo com asas de gigante. Dizem que calçava do 46 e que tinha mãos, desmedidamente, grandes, que era um adolescente rebelde com o dom da palavra, um homem de uma energia frenética, um ser inumano que vagueou pelo mundo, implicado numa série de negócios duvidosos, em suma um monstro, um génio que escrevia poemas em latim aos 15 anos e que abdicou, definitivamente, da escrita antes de morrer miserável, amputado de uma perna, com os outros membros paralisados, num hospital de Marselha. Atrás de uns armazéns, nas Caldas da Rainha há um antigo jardim invadido por ervas, plantas e árvores onde se ouve o sussurro cristalino de um riacho. Os troncos deitados entre sombras e gotículas são pontes. Há fontes e minas, onde alguma vez apareceram ninfas e faunos, os da Ilha dos Amores, os das éclogas, os da Tarde de um Fauno ou os que povoam os mitos gregos. Atrás de uma fábrica e de uma urbanização de casas, limpas, bonitas, assépticas, que crescem como cogumelos, há um horto secreto, onde as crianças brincavam, inventavam histórias e segredos de aventuras quiçá de exploradores. Um calor emana das aberturas das minas, onde o doce som da água apenas relembra um tempo passado, porque não sabemos muito bem em que entranhas escuras e meandrosas, em que túneis nauseabundos desaparece esta água. À margem, nos limites do jardim, sim, à margem do espaço, onde o homem se aventura, nos arredores do jardim há lixo, há garrafas, há plásticos entrelaçados no musgo, mas no fundo, no coração do jardim a terra é escura e consistente, o húmus visitado pelos escassos raios do sol abunda extravasa a beira do riacho, cobrindo as pedras e criando mundos em miniatura. À margem, à beira das cidades, dos jardins, dos rios, à beira, à margem existe um espaço de desequilíbrio onde anda o homem, funâmbulo com pretensões divinas, isto à beira, à margem de um espaço maior e profundo que assusta. (Gazeta das Caldas, 13.05.05)

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