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ARESTAS

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Uma tarde, uma exposição... Bordá-lo na Memória – António, Cid, Maia –

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Sobre o riso, o cómico, a sátira, o burlesco, o humor e a caricatura, já houve quem falasse, apesar de faltar um verdadeiro breviário/anuário da caricatura e das origens de todos os risos! Desde muito cedo, alguns pintores de renome dedicaram-se à expressão do rosto, contudo a palavra caricatura apenas aparece no final do século XVI, com os irmãos Carracci. Neste contexto, houve estudos preciosos, sobre como sugerir efeitos de luz ou de textura e sobre a mestria das expressões fisionómicas, feitos por alguns pintores, mas todos, além do traço, remetem para a distinção teórica básica entre semelhança e equivalência. O riso é próprio do homem de uma forma geral e próprio de uma cultura de uma forma mais restrita, pois o que faz rir um português pode não ser, exactamente, o que faz ir um francês, um inglês, etc. Há risos que se aprendem ao contacto com outras culturas, mas não sendo grande especialista do riso e tendo experimentado o cómico, principalmente, através das obras de Molière, dos filmes de Jacques Tati e dos Marx Brothers, entre outros, isto é apenas um pequeno apontamento para acompanhar a exposição intitulada: Bordá-lo na Memória – António, Cid, Maia, patente ao público na galeria municipal Osíris. Baudelaire, nos seus escritos sobre estética, dedicou três capítulos ao riso e aos caricaturistas da sua época. O poeta distinguia, sem estabelecer, à partida, critérios de valor ou um dispositivo qualitativo, dois tipos de arte da caricatura. Por um lado, aquela que serve de registo do pensamento humano, que é útil ao investigador, ao historiador, ao arqueólogo e ao filósofo, e que deve ser arquivada, a que dá o nome de “caricatura histórica” e, por outro lado, aquela que se torna intemporal, contendo em si o belo, apesar de representar o homem na sua faceta moral e/ou física mais defeituosa, a que chama “caricatura artística”. Baudelaire argumenta a sua posição dando exemplos de caricaturistas contemporâneos e de outros mais antigos, de que se destacam dois nomes, por um lado, Daumier (1808-1879), o criador da série “Robert Macaire” e, por outro lado, Goya (1746-1828) com a série dos “Caprichos” . No fundo, esta distinção apenas vem ao encontro de questões fundamentais, relativas à obra de arte, colocadas pelos filósofos e teóricos da estética, mas sugere uma questão que me parece importante e que liga a perenidade de uma obra ao seu valor artístico, como se uma obra de arte não tivesse nem espaço, nem tempo (Proposta para reflectir, pois não significa uma descontextualização absoluta!) Baudelaire, também, esboçou uma pequena história do riso, dizendo que o riso e o choro são próprios do homem inserido na sociedade e que é o resultado da queda e da perda do Paraíso. Podemos imaginar o rosto de felicidade serena, sem uma marca de emoção, sem um ricto expressivo ou uma ruga reveladora de Adão e Eva! Poderia ser um ponto de partida, mas teríamos de distinguir entre vários risos, fazendo um mapa do riso e uma espécie de sociologia do riso. Segundo Bergson, o riso associado ao cómico é inteligência pura e é explorado através de uma série de mecanismos. Não há dúvidas quanto ao profundo poder de observação, à inteligente manipulação da equivalência e ao cunho próprio de todos os mestres do riso. Também, não há dúvidas quanto ao traço e à originalidade do caricaturista António. É o estilo que permite traçar algumas linhas teóricas em todas as artes. Um estilo próprio, identificável, reconhecível e que não relembra ninguém de forma óbvia – sendo as influências benéficas e inevitáveis - é o ponto de partida para a afirmação do artista. Mas, na caricatura, como em outras artes, o traço não é suficiente, pois sendo, intimamente, ligada ao homem, tem que dirigir-se a ele com as ferramentas da sua cultura ou/e do seu conhecimento do mundo, logo é um cruzamento de mundos e de saberes que o desenho deve conter e explorar por equivalências. Na exposição que decorre na Galeria Osíris, todos os desenhos contêm dados históricos passados ou actuais, todos reflectem sobre a realidade social e política de Portugal com signos culturais próprios. Da minha primeira visita, apenas alguns desenhos ficaram na minha memória. Lembro-me do 6º desenho de Maia sobre a evolução lusa e do 6º desenho de António, onde o significado do pecado original tem prolongamentos múltiplos!
(Gazeta das Caldas,20.05.05)

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