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ARESTAS

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Uma tarde, uma exposição... Imaginária de Vulto

A palavra Imaginária carrega um mundo de representações. O vocábulo é sinónimo de estatuária e vem do latim imago que significa, num primeiro tempo e de forma geral, a representação, a imitação e o retrato e, de uma forma mais particular, refere-se à imagem em cera de um antepassado. Quanto à palavra vulto, esta vem do latim vultus e significa rosto, fisionomia, para depois passar a significar figura. Ambas as palavras apontam para a ideia de dois conhecimentos. Por um lado um conhecimento profundo relacionado com a alma e, por outro lado, um conhecimento superficial relacionado com a aparência ou o corpo. Mas a ideia de representação, de cópia e de reprodução, de figura ou de aparência remete para a ilusão e por oposição para a realidade. A história da arte já tinha a experiência e o conhecimento de Pigmalião, cujo mito ou lenda remete para Galateia, a escultura a quem Afrodite deu vida. É a história de um escultor que modela uma forma feminina de que se apaixona e a quem a deusa do amor dá vida para atenuar a dor causada pela paixão do artista. Não é a parte fantástica, aquela que conta a transformação da estátua em mulher de carne e osso que é inquietante, mas a paixão vã que uma forma sem vida pode provocar e os excessos a que tal projecção ou devoção pode levar. Todos nós conhecemos a história do bezerro de ouro e as consequências da credulidade ou da descrença dos homens. A representação foi de facto um grande problema a superar nos primórdios da religião cristã. Desde as primeiras representações, a imagem contém algo de mágico e inquietante. Como conciliar os ensinamentos de Jesus e as crenças pagãs? No livro intitulado História da Arte Portuguesa, sob a direcção de Paulo Pereira, é nos revelado que “As resoluções tomadas na sessão XXV do Concílio de Trento, a única dedicada às artes, produziram um enorme efeito na arte religiosa durante séculos(...) De facto, nesse Concílio realizado em 787 expressamente declarava que ‘Quanto mais se contemplam estas imagens mais viva será a recordação do que elas representam e maior será a inclinação para venerá-las mas sem que por elas se manifeste adoração, que só a Deus se deve dirigir(...) Quem venera uma imagem venera a pessoa que ela representa.” Portanto era importante delimitar e controlar o espaço de adoração ou de veneração que podia, facilmente, ser contaminado e, neste sentido, a escultura apresentava ainda maior perigo devido à sua presença tridimensional no espaço. As imagens deviam apenas remeter para algo maior, algo superior sem deixar lugar a uma adoração pagã, logo foi importante estabelecer modelos e padrões para orientar a devoção do povo. Deve ser por esta razão que, ao longo dos tempos, os atributos dos santos permanecem nas representações. São atributos fixos que permitem reconhecer as personagens e colocá-las na história da Bíblia. É desta forma que São Marcos é representado com um leão, São Mateus com o Menino, São Lucas com um touro, São João com a águia, São Pedro com as chaves do Paraíso, São Brás com o báculo, Santa Clara com a mitra episcopal, Santa Catarina com o Menino ajoelhado, Santa Ana com a bíblia, São Bartolomeu esfolado, etc. Acaba por não ser o santo em si que tem importância, mas a sua participação na história de Jesus Cristo sempre relembrada por objectos ou posturas que vão facilitar a aprendizagem do homem comum. Foi de facto algo conseguido pela igreja e deu lugar a belíssima obras de arte, de que podemos ver, alguns exemplos no Museu do Hospital e das Caldas, na exposição intitulada Imaginária de Vulto.
de pormenor S.Baptista.JPG S.J. Baptista (pormenor da mão direita)
As estátuas patentes nesta exposição foram esculpidas na madeira. Algumas são de pé direito reduzido, talvez cerca de 60 ou 70 centímetros, e outras maiores de cerca de 1,30 m, quase todas datam do século XVIII. As cores utilizadas, além do preto, do encarnado, do verde, do azul, revelam uma frequente utilização do ouro para a decoração de motivos. É revelador, para quem sabe ler os sinais, observar a forma e a representação das mãos, pois se por um lado, São Baptista aparece com o indicador e o médio da mão direita quase juntos e o polegar e o médio, da mão esquerda, formando quase um círculo, surpreendentemente, esta mesma configuração das mãos é invertida nas imagens de Jesus. Como sabemos, a mão direita, na tradição ocidental, serve para benzer. É a mão da misericórdia, enquanto que a mão esquerda é a mão da justiça, mas também da maldição. São igualmente singulares as reminiscências pagãs, mais, precisamente, porque evocam Afrodite, na representação de Nossa Senhora da Conceição e ainda as cabeças de santos expostas na vitrina de que tentei identificar algumas. Entre elas, talvez São Francisco, São Sebastião, mas há um santo, completamente, calvo com barba de que parece haver duas imagens, cujo nome nem suspeito. Voltando a Nossa Senhora da Conceição, esta repousa sobre uma nuvem com anjos. A nuvem tem as mesmas características que a água com linhas esculpidas em arabescos e a sua forma oval evoca uma concha. Na base da nuvem está uma serpente que neste caso particular, posto que a Santa não parece estar calcando-o, poderia muito bem não ter nada que ver com a tentação ou a impureza, pois como sabemos a serpente também simboliza a renovação e a regeneração. Atrás deste conjunto, onde se misturam peso e leveza, emergem dois crescentes simétricos, como crescentes de luas ou dentes de serpente que evocam o princípio de uma linha imaginária delimitando um círculo, envolvendo a figura representada. (Gazeta das Caldas 10/06/05)

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