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ARESTAS

ARESTAS

Palavras para o poeta

As palavras
São como um cristal, as palavras.
Algumas, um punhal, um incêndio.
Outras, orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam: barcos ou beijos, as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes, leves.
Tecidas são de luz e são a noite.
E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta?
Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?
(Eugénio de Andrade)


É difícil falar da morte de um poeta. É difícil escapar a todas as palavras que se apresentam como lugares comuns. É difícil escolher aquelas palavras que ainda não foram ditas e que irrompem trazendo uma nova palavra para a palavra do poeta. Dulce et utile assim era a palavra poética para Horácio. Verdadeiramente doce mesmo quando transborda de amargura e de dor. Não sei da palavra esquecida que abunda. Não sei da palavra que pula ao ritmo incerto do verso branco, nem da sua escansão misteriosa, dos seus berros e universos. Não sei do grão da voz dos poetas, nem das suas mãos abertas na areia, do seu canto, do seu murmurar de rios secos. Não sei dos gritos contidos nas formas, nem do não dito que assalta intimamente. Não sei da palavra procurada sempre procurada sempre procurada... Não sei do ar opaco onde esbracejam uma a uma a palavra com o seu erro de ser simplesmente palavra soletrada juntamente com as outras...todas. E Octávio Paz que me murmura é impalpável a palavra e assim fica o sabor do seu próprio som, a sua aliteração, irremediavelmente, nas cavernas quiméricas do canto. É isso o grão? Aquele que resiste ao tempo e que se dilui na memória incerta dos nossos tempos. Será esta a palavra dita pelo poeta? Não sei dos seus ecos fundidos nas árvores ondulantes. Ouvidos e palavras, ambas do mar, conchas e conchas, búzios e búzios, assim na mão do poeta trazendo as palavras todas...todas? Não sei das vozes de dentro que nunca chegaram a ser voz e há tantas que não podem ser tantas as palavras para dizer...como dizer ao sabor as amoras do seu país? Como dizer à morte que não escapa ao amor? Como saber o sabor do corpo na boca? Como conhecer os meandros das palavras gastas no amor? Agora...

Urgentemente
É urgente o Amor,
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros,
e a luz impura até doer.
É urgente o amor,
É urgente permanecer.
(Eugénio de Andrade)

mais nada a dizer...permanece o grão da palavra na concha da mão e na voz.




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