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ARESTAS

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Uma exposição uma tarde...Antonino Mendes: “Scripta Memoriae”

Os quadros de Antonino Mendes levam-nos aos primórdios da aprendizagem da escrita e até a uma reflexão sobre a escrita e sua ligação com a pintura, através de traços simples feitos com tinta de china que evocam jogos de sombras, onde o segredo estaria não tanto nos contornos escuros, mas no próprio fundo do suporte. Afastei-me da pintura para aproximar-me da escrita, mas já para Paul Klee a escrita e o desenho eram coisas muito semelhantes. Há várias possibilidades para o título da exposição. A palavra scripta vem do verbo latino scribo que significa traçar, escrever. Esta palavra deu lugar ao nome ou substantivo neutro scriptum. É este que está inscrito no título da exposição e significa linha, ou doze linhas, ou escrito. A palavra não está no ablativo porque não tem acentuação, logo está ou no vocativo – o que é pouco provável – ou simplesmente no nominativo plural. A palavra memoriae vem do substantivo feminino memoria, que significa memória. Aqui poderia ser singular e estar no genitivo ou no dativo, ou ser plural e estar no nominativo ou vocativo – o que não é provável -. Eis então as possibilidades: com o genitivo teríamos “escritas (os) da memória”, com o dativo teríamos “escritas (os) à/ para a memória”, com o nominativo plural teríamos “memórias escritas”. Contudo esta última possibilidade não parece muito provável devido à ordem dos vocábulos, logo ficamos apenas com as duas primeiras possibilidades. Através da observação dos quinze quadros apresentados na exposição patente ao público no Atelier – Museu António Duarte, tentei optar por um, ou outro título, ou os dois! Os títulos das obras estão todos em latim. Todos estão relacionados com os primórdios da criação, da escrita, da vida. O princípio de tudo que arrasta consigo as palavras evangélicas de São João: “No começo era o verbo”. Há um provérbio romano, conhecido pelo mundo inteiro e utilizado como título para alguns quadros: VERBA VOLANT SCRIPTA MANENT, cujo significado é de forma breve e resumida: as palavras ditas voam, as palavras escritas permanecem. Este ditado permaneceu até aos nossos dias, mas com o tempo adquiriu um significado diferente. Para os romanos a palavra dita oralmente tinha maior poder que a palavra escrita, considerada como uma palavra morta, inerte, fixada sobre o suporte, logo pouco acessível, enquanto que a palavra oral espalhava-se e tinha maior impacto e poder. Agora, na época de grande democratização do livro, a palavra escrita, gravada é perene, permanece, dura, perdura e até voa. Por um lado, há a pintura como memória escrita no papel ou na tela com tinta de china, relembrando os primórdios da escrita com pictogramas, ideogramas passando pela escrita cuneiforme até às primeiras tentativas alfabéticas. Por outro lado, há a própria aprendizagem da escrita que passa pela manipulação da caneta, lápis, lapiseira, pincel, pena, ou cálamo. São os instrumentos que se apresentam como o prolongamento da mão e que evocam a dor no pulso, a tensão dos dedos no instrumento para traçar as primeiras linhas desajeitadas, tortas, os primeiros círculos, os primeiros quadrados e antes de tudo os “pauzinhos”, cuja arte consistia em alinhar linhas verticais de idêntico tamanho lado a lado, entre duas linhas ou pautas horizontais erigidas como suporte ou semelhante a pautas da escrita. Assim como antes da escrita alfabética havia a escrita cuneiforme, utilizada pelos Sumérios há cerca de 6000 anos, onde os símbolos já representavam palavras, antes da aprendizagem do alfabeto, há os “pauzinhos”. Juntando a representação aos títulos escolhidos para cada quadro, voltamos à escrita como ideia. À entrada, à direita, o primeiro quadro intitulado: Currente Calamo e, no prolongamento deste, a escultura: Scripta Manent II e I. Estas três obras parecem estar a “soletrar o pauzinho”na sua paciência de pau polido. Quanto ao início, o princípio de tudo, como o verbo, encontra-se no círculo, no oval, no ovo, linha que sempre começa e nunca acaba, o seu princípio juntando-se ao seu fim, que vemos nos quadros intitulados: Ab initio I e II, In Ovo e nos quadros intitulados Verba Volant I e II. Junto do verbo e da escrita há a pontuação que apesar de ter sido atribuída a Aristófanes de Bizâncio e de sempre orquestrar a fala, não era utilizada na escrita latina. Nos quadros, os sinais diacríticos são sinais separados, mas imprescindíveis para a compreensão da tecedura do texto, estes encontram-se nos quadros: In Aeternum e Ex Nihilo. São pequenos passos em torno dos quadros e se volto ao título diria “Escritos da memória”? (Gazeta das Caldas, 25706/05)

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