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ARESTAS

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Uma tarde...com água (1): Quem verifica a pureza da água sobre um bronze de Corinto?

A água necessidade e mito. A água tão natural como a vida, tão indispensável e agradável. Agora, chega-nos, de algures, pelas inumeráveis ramificações de tubos com o desprezível sabor a cloro, com a sua dureza e macieza que controlamos por filtros, sais e soluções químicas. Aí, nessas ramificações e nós, nos segredos das canalizações perdeu-se a sua simbologia e pureza. Mas, em contra partida, tornámo-nos aprendizes feiticeiros. Que mistério, estas ramificações e bifurcações de tubos percorrendo casas, prédios e cidades inteiras! Já nem importa de onde vem, jorra das torneiras naturalmente! Nos supermercados, todas as garrafas e garrafões ostentam pureza, limpidez... Tantos tamanhos, formas e marcas! Apresentam-se-nos numa panóplia plástica cuja transparência se quer engrandecida pelos rótulos sugestivos. Impossível escolher! Seria necessário um dia inteiro para ler os rótulos todos, e saber porquê escolher esta com mais cálcio, ou esta com menos sódio ou nitratos! Os romanos também procuraram ter uma água própria para o consumo. Percorriam montes à procura do sítio certo para construir e cultivar. Para esse efeito, seguiam métodos e critérios rigorosos, alguns deles definidos por Vitrúvio, parâmetros que nós, filhos pós-modernos - ou será que já nem isso somos? - não podemos jamais aplicar. Vitrúvio dizia que para ter a certeza que a água é pura, tem que se observar o estado de saúde dos que vivem nos arredores da fonte, observar a transparência e, que uma nascente é sempre mais poluída quando musgo e juncos crescem à sua volta. A fonte tinha que ter um débito constante de Verão como de Inverno. Era necessário determinar a altitude exacta e apropriada para obter água realmente saudável. Ainda segundo Vitrúvio, uma água de qualidade não deixa depósitos de limo nem areias, no fundo do recipiente, em que foi fervida, não deixa marcas ao escorrer por cima de um bronze de Corinto e é quando a água é mesmo pura que os legumes cozem mais depressa... Mais depressa, sim a mesma pressa que sempre procuramos e que agora apagou da nossa mente toda memória do tempo que cada coisa tem naturalmente... Quem verifica a pureza da água sobre um bronze de Corinto? A água que os romanos bebiam era água "pura"ou "aqua mera". O pequeno-almoço resumia-se a um copo de água e a uma lavagem rápida. A água fresca servia para acalmar os excessos de comida, que aparentemente eram frequentes, nos faustosos banquetes descritos por alguns autores, onde até regurgitar a comida e voltar a comer era comum, ou para resfriar uma bebida escaldante. Nos Anais, Tácito conta-nos como foi com água fresca que, normalmente, ninguém provava, que Britanicus foi assassinado: “ Uma bebida demasiado quente, previamente provada e inofensiva, lhe foi apresentada, sendo difícil de beber a essa temperatura, é-lhe adicionada água fresca. O veneno espalhou-se em todos os seus membros com uma tal rapidez que as palavras e o sopro lhe foram arrebatados ao mesmo tempo”. Quantos outros morreram assim de forma tão inesperada e tão rápida? Por isso, Nero só gostava de beber uma água previamente fervida e resfriada na neve à qual ele chamava "decocta". A água fresca era também adicionada ao vinho aromático que continha plantas aromáticas e especiarias tais como: tomilho, canela, hortelã, serpão, rosa, madressilva, louro, absinto, rábano silvestre, e açafrão, e que os romanos herdaram, de uma certa forma, dos gregos, porque estes, segundo parece, também lhe acrescentavam cal e água do mar! Além de terem água fresca à sua disposição, os romanos preferiam beber a água tépida: “aqua calda”. Era, geralmente, uma decocção de ervas aromáticas. Para terem água morna sempre disponível, eles dispunham de aparelhos às vezes bem complexos. Séneca, no seu livro Questões Naturais, descreve-os como serpentinas, espécies de esquentadores com uma série de tubos em espiral. Nunca cheguei a ver estes objectos mas deviam de ser extraordinários! Imagino as cozinhas ou as casas de jantar onde se instalava um pequeno lar especial, cujos mais simples se chamavam: “milliarium”, e tinham a forma de pequenos marcos. Que engenho! Que astúcia! A água serviu o prazer estético, inútil e refinado para o conforto e o lazer dos mais favorecidos. Fontes com cenários evocando ao mesmo tempo um templo, uma gruta e um arco de triunfo. A arquitectura e a escultura puseram-se ao serviço do elemento líquido. Viam-se peixes e máscaras cuspindo água, conchas e Vénus nascida da leve espuma do mar, que segundo alguns autores gregos, Vénus ou Afrodite (a grega) teria nascido da espuma dos órgãos genitais de Ouranos, lançados ao mar por Zeus. (Continua...) (Gazeta das Caldas, 1/07/05)

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