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ARESTAS

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Semanas de Olaria

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Um barreiro

A terra exerce sempre uma espécie de fascínio, quer pela sua vegetação, quer pelas suas cores, quer pelo seu cheiro ou a sua textura. A terra também é detentora daquela magia que transforma o lixo orgânico, ou estrume, em terra fértil, aquela terra escura e consistente que faz crescer todas as plantas. A terra pinta e pode-se moldar. Lembro-me que, há uns anos atrás, ia apanhar rãs num charco barrento e aproveitava para brincar, com as várias cores de terra de um antigo barreiro, com o meu irmão. Utilizávamos aqueles tons verdes, amarelos e vermelhos para pintar o rosto um ao outro, fazendo as mais fantásticas máscaras cor de barros, estranhas misturas, estranho prazer de tocar uma terra viscosa, de se sujar sem ficar sujo, é isso o contacto com a terra, não suja, alimenta a imaginação.
Durante estes meses de férias, decorrem, no Centro de Artes, ao lado do Museu João Fragoso, uns ateliers de olaria para crianças, organizados pelo Atelier de Arte e Expressão. Uma tarde, quando cheguei ao atelier de olaria, vi mãos pequeninas que amassavam, esmagavam, moldavam a terra, ora cinzenta, ora preta, ora vermelha e lembrei-me que tinha chegado a estar inscrita num atelier de olaria para crianças, perto do Trocadéro, em Paris. Os objectos que resultaram daquelas sessões, que decorriam todas as tardes à quarta-feira, a tocar no barro, pouco importaram, pois não me lembro do que fiz, mas ficou a lembrança das mãos no barro, das mãos a amassar, a moldar, a quebrar e a bater no barro. Lembro-me que a experiência de estar em contacto com a terra foi decisiva para, mais tarde, moldar umas pequenas estátuas em gesso, sobre um suporte metálico, e para percorrer as catacumbas de Paris, de que havia uma entrada perto da Cidade Universitária, à procura de barro.
Lembro-me das palavras de uns amigos oleiros na Lapa, perto do Cartaxo: “O barro, há que batê-lo, há que domá-lo para que seja pasta”. Foi aí que, pela primeira vez, verifiquei que existia uma dupla relação que se estabelecia entre a matéria e o Homem, uma de força e outra de amor, ternura e doçura. Muitos escultores começaram assim vestindo a massa, a pasta e a terra com as mãos, para depois despir a pedra com instrumentos. Uma das mais belas descrições que li até agora, sobre o encontro com a terra, foi a do primeiro contacto com o barro da escultora Camille Claudel, cujas obras se encontram em Paris no Museu D’Orsay e no Museu Rodin, era irmã do poeta Paul Claudel, amiga do compositor Claude Debussy, amante do escultor Auguste Rodin, e foi uma mulher que, por ter nascido em 1864 e ser artista, foi colocada num manicómio, pela família, durante os seus últimos trinta anos de vida. Outro encontro com a terra, de que a literatura deixou rasto, foi descrito, de uma forma extremamente sensual, num livro de Michel Tournier, intitulado Vendredi (Sexta-feira). Consiste numa nova versão da história de Robinson Crusoe, pois a primeira versão marca os primórdios do Romance, enquanto género, e foi escrita pelo inglês Defoe.
Apercebi-me que a olaria não é só o momento em que as mãos trabalham na roda ou à mesa. Antes da olaria há o barreiro, o espaço onde se escolhe e recolhe o barro em função do que se quer conceber. Conta-se que antigamente havia um homem que percorria as olarias do concelho e abastecia-as com barro. Antes de ter barro pronto para ser utilizado há que prepará-lo. Cada coisa precisa do seu tempo de preparação, cada coisa tem uma idade. Apercebi-me da idade do barreiro, da idade da decantação e da idade do forno a lenha. É um mundo com as suas regras, os seus vocábulos, os seus prazeres e as suas estranhas ou maravilhosas surpresas resultantes da cozedura, para descobrir.

(Gazeta das Caldas 5/08/05)

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