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ARESTAS

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...Toda a gente fala de fotografia como de uma outra pintura...É ainda a velha querela sobre a imitação ou não da Natureza, do que faz ou não faz com que a fotografia seja uma arte, como a pintura, ou, pelo contrário, nada tenha a ver com ela, etc. então é necessário “enfiar o nariz”, ver de mais perto, no próprio momento em que ocorre a acção, e não no produto dela, ou então numa híbrida ambiguidade que contenha os dois, uma múltipla dispersão de ambos, louca revelação banhado o vento que passa...numa vasta questão de visar e de enquadrar (um depósito de saber e de técnica), no receio do momento inelutável onde o indicador recurvado e decidido se apoia sobre o disparador ou lança ao mesmo tempo um brilho electrónico (um depósito de saber e de técnica), na brutalidade do polegar que faz progredir o filme, sentido com nitidez pelos músculos da falange...naquilo que pesa nas mãos, mantido à altura dos olhos ou sobre o ventre ou de braços caídos; depósito de saber e de técnica, fogo cruzado...necessária questão de tempo e de morte, matéria-prima precisa como nenhuma outra teoria jamais o foi... A questão já não é “que problema nos levanta uma fotografia?” nem “o que é que um filósofo pode fazer de uma fotografia?” ...é sobretudo “com o que é que a fotografia se pode relacionar, a partir do momento em que a tiramos?” (DENIS ROCHE, 1978)
Existem algumas imagens que desde sempre tiveram uma grande influência sobre a arte fotográfica, desde no que diz respeito à técnica até ao ícone. Entre elas, encontra-se esta fotografia de Daguerre. Trata-se de uma vista panorâmica. Á primeira vista não há nada de muito extraordinário nem de significativamente surpreendente nesta imagem. No entanto há que saber que as chapas de iodeto de prata eram positivas, únicas, submetidas a muitas manipulações e que só revelavam uma imagem quando estavam expostas a um determinado ângulo de luz. As sessões de fotografia eram demoradas e constituíam verdadeiros momentos experimentais que frequentemente levavam a conclusões negativas. Daí a famosa lenda do daguerreótipo que relata a experiência de um provinciano, chamado Monsieur Balandard, que desejava oferecer à sua esposa o seu retrato e que, depois de estar submetido aos cuidados do daguerreotipista Monsieur Carcassonne, acaba por desaparecer completamente. Para a fotografia que procurava fixar o momento como nunca fora possível, com todo o grau de certeza, de verdade e de autenticidade, o desaparecimento torna-se o maior problema desta arte incipiente. O desaparecimento tornou-se a palavra-chave, aquela em que a ciência e o mito se encontravam para dar lugar a algo de mágico. Pois a fotografia podia não só fixar o corpo e o olhar, como eventualmente aceder à alma, roubando-a definitivamente àquele que se deixasse tirar o retrato.
Voltando a esta imagem, se olharmos bem, vemos um céu, uma avenida, prédios e árvores. No entanto há três manchas mais claras, de um branco acinzentado que se destacam entre os outros tons de cinza e preto: o céu, a avenida que liga o último plano ao primeiro e a fachada do prédio no primeiro plano. Entre estas manchas, podemos ver sombras e formas mais escuras constituídas pelas árvores, as sombras das árvores os seus troncos, as fachadas contra o sol dos prédios, a floresta de chaminés e falta, ainda, referir uma sombra que foi muito comentada e que se encontra no primeiro plano. Trata-se de dois vultos. São duas personagens frente a frente, cuja sombra funciona como um indício. À beira do passeio podemos observar a resistência, ou a persistência, de dois corpos parados. É frequentemente a falha numa obra que surge como uma revelação.
Voltemos atrás!
Pelas sombras curtas produzidas pela luz do dia, verificamos que deve ter sido feita quando o sol ainda estava alto no céu, não podemos ser conclusivos quanto ao momento. Será o início da manhã ou o final da tarde? Contudo, podemos pensar, pelas sombras das árvores, que o sol parece encontrar-se a meio caminho entre o horizonte e o topo do céu. Algo nos indica que deveria de haver pessoas, carruagens, deveria de haver alguma vida, no entanto não vemos nada. Não há ninguém nesta avenida! Ninguém passa, ninguém caminha, não há ninguém a não ser os dois vultos.
Não sei o tempo de exposição, pois conta-se que em função do ângulo de incidência da luz, este variava de 5 a 40 minutos. Não sei quanto tempo Daguerre calculou ser necessário para esta imagem se formar na chapa, mas o que é fascinante é que foi esse tempo que tornou invisível tudo o que estava em movimento, toda a velocidade foi apagada da imagem e apenas ficou gravado para a perenidade o que estava imóvel, ou seja, estes dois vultos, um homem de pé e outro a engraxar os seus sapatos. A falha permanece naquilo que está invisível, no entanto esta chapa pode ter sido uma pequena vitória da fotografia!
(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 18/08/06)

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