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ARESTAS

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Uma exposição, uma tarde...O lápis de Bordalo –Bordalo nas Caldas –

“Sahido um domingo a passear com o avô, a cuja rispidez ninguém se atrevia a replicar, o pequeno Raphaël, encontrando no caminho outro petiz que lhe não despertou sympathia, entendeu que lhe não devia fallar, motivo pelo qual o severo jurisperito o censurou asperamente, fazendo-lhe ver que um menino bem educado devia cumprimentar todos os conhecidos. Raphaël tomou nota, e no domingo immediato, repetindo-se o passeio, desata a certa altura em grandes barretadas, sem que naquella occasião fosse passando alguém.
- Quem está o menino a cumprimentar d’esse modo? – perguntou intrigado o avô, franzindo o sobrolho.
- O avô não me disse outro dia para cumprimentar todos os conhecidos? Inquiriu por sua vez o pirralho.
- Disse, sim senhor.
- Pois está alli um meu conhecido... – respondeu Raphaël Bordallo.
E continuando a acenar com o chapéu, apontava um cão vadio que costumava errar por aquellas paragens.”
(Manuel de Sousa Pinto, 1915)
É a este homem, Rafael Bordalo Pinheiro, que sempre preservou a capacidade de surpreender e de ser surpreendido, que o Museu do Hospital e das Caldas dedicou a exposição intitulada Bordalo nas Caldas – Obra Gráfica. Se para constituir um território são necessários poucos estímulos; se a constituição de um território é quase o nascimento da arte, então o território construído por Rafael Bordalo Pinheiro está abocado com a arte. Por um lado, pelo legado que constitui a sua obra gráfica para a caricatura portuguesa, como para a banda desenhada e, por outro lado, pela actualidade imarcescível do seu traço e do seu olhar. Em todas as artes, a perenidade, não tanto no sentido do registo e do suporte, mas na forma como se imiscua nos nossos tempos, na perfeição da composição e na actualidade dos conteúdos, é o que faz de uma obra uma obra de arte. No caso de Rafael Bordalo Pinheiro os estímulos são: o campo, a linha e a luz. Por um lado, as ideias transmitidas atingem o seu efeito máximo quanto mais breve, mais resumido o traço ou o signo. Por outro lado, o artista desenvolveu uma linguagem gráfica metafórica com grande sabedoria, utilizou signos e símbolos de forma subtil e refinada, criou neologismos e soube empregar de forma sistemática todos os recursos ou efeitos do cómico. “Vamos tentar ter alguma piada” dizia ele. Alguma piada é pouco, para um homem que revela ter um profundo conhecimento da natureza humana, uma sensibilidade exacerbada dos processos de transferência e equivalência. É de uma extrema modéstia, quando sabemos o impacto que tiveram as suas publicações. Quanto à capacidade de observação e à memória visual de Rafael Bordalo Pinheiro resta-nos o testemunho de Manuel de Sousa Pinto: “É que, muito antes da invenção dos Kodaks, Raphael Bordallo dispunha de uma retina que, no tocante à fidelidade e rapidez, nada tinha que invejar às mais aperfeiçoadas e instantâneas objectivas photográphicas, como, alliaz, de um modo inaudito e oneroso o reconheceu a Fazenda Pública.” Como trabalhar esta memória em anos de distúrbios sociais, de crises políticas ou financeiras ou de repressão? Como trabalhar o signo para apontar a verdade, dizendo-a, revelando-a? Podemos ver a resposta a algumas destas perguntas na exposição Bordalo nas caldas – Obra gráfica. Podemos perceber o grau de inteligência atribuído ao Infante D. Augusto, por meio da simples representação de um corpo enorme e desproporcionado em relação à cabeça. Podemos apreciar a louca aliança de imaginação gráfica, servindo o profundo desagrado que causa o administrador do hospital das Caldas o Pim, nome dado ao Conselheiro Pimentel. Como utilizar a metáfora de forma tão clara e evidente que não deixa qualquer dúvida possível para outras interpretações? Assim cada administrador do hospital termal é representado sob a forma de uma sereia. Aparece a Sereia Pim (Pimentel), a quem sucedeu a Sereia Mazilapatão (Rodrigo Berquó). A exposição, além de mostrar as obras de Rafael Bordalo Pinheiro e de ter um carácter didáctico, posto que relata um período da história das Caldas da Rainha e em particular do hospital termal, revela uma sensibilidade muito especial no percurso expositivo. Começa e acaba sob a forma de uma dupla homenagem. A exposição começa por uma belíssima peça original onde podemos ler: “Muito agradecido à gentileza com que foi recebido nas Caldas”. São momentos íntimos entre a História das Caldas e a Arte ofertados pelo “lápis de Bordalo”. (Gazeta das Caldas, 12/08/05, Ana da Palma)

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