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ARESTAS

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Leituras de Agosto

Normalmente durante o mês de Agosto temos sempre mais tempo para ler, por isso, a maior parte dos jornais diários, semanários e mensais fazem frequentemente uma lista de livros a ler durante o período estival para quem não se sente muito inspirado em termos de escolhas de leituras. Nunca tive grande gosto literário pelo que se chama a metaficção histórica, ou romance histórico, apenas porque parece-me um género que pode facilmente influenciar o conhecimento do leitor como eu que pouco sabe de História e que prefere ler manuais sobre a história do que lê-la ficcionada. É apenas a minha preocupação com a realidade, se bem que, como sabemos, mesmo numa aula de história ou na leitura dos cronistas sempre teremos a visão do professor que orienta e transmite o conhecimento, ou o relato do cronista que escreveu em determinado contexto. Ocupa-me um certo cepticismo, quanto à verdade das coisas e sobre estes assuntos gosto de pesquisar sozinha. Gosto de encontrar o meu próprio percurso e fazer os meus próprios cruzamentos de leitura. Eventualmente poderia depois de dominar um aspecto da história ler um romance com raízes na História, mas a História romanceada nunca me atraiu muito. Não sei explicar porquê. Há coisas assim. Mas parece-me que está intimamente ligado à minha forma de apreender a verdade. Prefiro fazer o caminho inverso, isto é procurar na ficção o que aparece na História, mas sabendo, desde o início, que o que estou a ler é mesmo ficção. Como prender a atenção do leitor, fazer acreditar nos laços tecidos pela ficção que tudo o que é narrado é autêntico. Como é? Como fazer? Como construir a narrativa? Há um momento de tensão que se cria entre ficção e realidade. No romance histórico a ficção apoia-se em facto reais, onde os pormenores da intriga real, com raízes na História, servem de esqueleto para a construção da narrativa, onde se podem introduzir digressões narrativas e intrigas secundárias, personagens fictícias, mas indo sempre ao encontro da História ou de um aspecto da História. Ontem acabei de ler um livro de Epicteto (c.50-130) intitulado Manual, com um prefácio de Giacomo Leopardi. Em regra geral, não gosto muito de manuais, mas este livrinho tem a particularidade de transmitir uma visão filosófica sobre o estar na vida. Epicteto transmite uma visão estóica, segundo a qual o bem e o mal dependem do que está ao nosso alcance, enquanto que a felicidade depende de uma escolha moral guiada pela razão. Eis um pequeno excerto: “ Não queiras que as coisas que acontecem, aconteçam como as queres; queiras que as coisas aconteçam como acontecem e sentir-te-ás bem.” Quanto ao autor que escreveu o prefácio trata-se de um escritor romântico italiano autor dos Cantos. Acabei um livro de leitura difícil de Bernard Stiegler intitulado “Aimer, s’aimer, nous aimer. Du 11 septembre au 21 avril » (Amar, amar-se, amarmo-nos. Do 11 de Setembro ao 21 de Abril.), sobre a violência, a insegurança e a sociedade de consumo regida pelas industrias culturais. Eis um pequeno trecho: “As indústrias culturais servem para criar mercados. (...) é um processo entrópico que levanta questões de ecologia cultural (...)”. Comecei quatro livros ao mesmo tempo: A imagem-nua e as pequenas percepções de José Gil, no quadro da minha insaciável curiosidade sobre a estética; L’autre Venise de Predrag Matvejevitch, onde o autor apresenta a cidade de Veneza de uma forma totalmente nova, isto é, através da literatura, da cultura e até das ervas daninhas e plantas que crescem entre as pedras da cidade italiana; A Europa desencantada. Para uma mitologia europeia,>/em> de Eduardo Lourenço, isto porque depois do alarido em torno da constituição europeia senti a necessidade de ler um homem com uma visão nítida e elucidativa sobre a nossa Europa, e um livro de Jaime Semprum sobre a língua francesa, mas que se pode aplicar à nossa língua, posto que reflecte sobre a forma como a língua muda e se adapta aos nossos tempos. Não é nada de novo, mas é um assunto que me preocupa. Para ler ainda estão pousados à beira da secretária, um livro sobre arte intitulado “Sem título. Escritos sobre arte e artistas” de José Gil e dois livros de ficção “La bella estate” de Cesare Pavese e “Três cavalos” de Erri De Luca, um autor italiano que nasceu em Nápoles em 1950. Este último começa assim: “ Leio apenas livros de segunda mão. Coloco-os contra o cesto do pão, viro a página com um dedo e ela fica imóvel. Assim mastigo e leio ao mesmo tempo.” Esquecia-me! Há ainda dois livros que me emprestaram, um sobre as abelhas e outro de um autor angolano, Manuel Rui...Quem me dera ser onda. (Ana da Palma, Gazeta das Caldas 3/09/05)

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