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ARESTAS

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Uma noite com Molière... O Médico à força pelo Teatro da Rainha.


O teatro diverte ensinando, tal é uma das suas propostas sociais. É interessante verificar que existe um paralelismo entre a componente divina tanto no teatro grego, como no teatro medieval. Contudo este paralelismo apresenta-se como divergente nas suas propostas. A tragédia, considerada como um dos dois único géneros nobres entre os gregos, até à aventura cómica de Aristófanes, põe em cena personagens nobres ou semi-deuses com nobres sentimentos, enquanto que o teatro medieval põe em cena representações da vida de personagens divinas, principalmente Cristo. Nas duas propostas aparece a componente divina. Mas se o teatro nasceu do culto dionisíaco acabou por adquirir uma componente pagã no mundo católico. Durante a Idade Média, o teatro desempenhou uma função didáctica ligada aos ritos cristãos, pois retratava principalmente o que se chamava os mistérios, ou seja, os grandes momentos da vida de Cristo, como a Incarnação e a Ressurreição. Quando por ordem do Papa Inocêncio III todas as representações, que não fossem de carácter religioso, deixaram o interior do templo e passaram do adro das igrejas para as praças públicas, sucedeu então a primeira grande emancipação do teatro. Este encontrou outros espaços e passou a representar a vida dos homens sob todos os seus aspectos.
Uma peça de teatro atinge o seu objectivo apenas in praesentia, isto é, a apresentação de uma peça de teatro precisa de um público para ser, tal como o livro precisa do leitor. Ir ao teatro consiste em estabelecer um pacto. O compromisso consiste em aderir a uma proposta que se propõe a criar um espaço comum. É um espaço de encontro entre todos os elementos da representação e o público, cada qual nos seus respectivos lugares delimitados pela ténue separação que constitui um palco, um cenário, um cortinado ou um objecto, mas também é o encontro entre dois espaços primordiais. Um é constituído pelo espaço dos espectadores, onde se exprime uma relação lateral, ou seja, a partilha das emoções provocadas pela representação e o outro é constituído pela ligação com a representação única, irrepetível e pontual no momento do acto ilocutório. Toda a arte reside nesse momento irrepetível que engloba o trabalho de todos e atinge o seu alvo no acto perlocutório. Seria precisamente isto o que se poderia chamar o lugar ou o locos do teatro, a junção de dois espaços que se concretiza através da boca de cena. Este espaço é primordial, porque aproxima os espectadores do momento de vida que foi representado. Parece-me importante realçar este aspecto porque estamos a viver uma época de afastamento, posto que as representações mais assistidas são aquelas que colocam um dispositivo (ecrã, escuridão...) entre o espectador e o que é apresentado, onde na intimidade solitária as percepções e as leituras do espectáculo tendem a ser interiorizadas e a ter expressão através do grau de eficácia das imagens e da mensagem que as imagens pretendem transmitir. Não se trata de desvalorizar umas e valorizar as outras, pois são propostas diferentes que envolvem uma postura e uma experiência diferentes, contudo pela sua natureza tão específica ambas importam, pois ambas tecem laços especiais com o espectador.
Representar Molière no século XXI é um desafio. Pois nos dias de hoje, é necessário muita coragem, determinação e engenho no meio de tanto peso cultural mal repartido. É preciso e faz falta a leveza crítica, irónica e lúdica de um Molière. Nos tempos de hoje é definitivamente uma proposta saudável! Faz falta olhar para o mundo com os olhos de Molière revisitados pelo teatro contemporâneo. Faz falta um olhar destes! Molière soube renovar a comédia francesa ao submeter-se às leis específicas do estilo cómico; soube quebrar as convenções atribuídas ao género dando lhe uma expressão verdadeira. A sua obra, além de tratar temas importantes, oferece um retrato intenso da natureza humana. Para O médico à força, utilizou uma trova medieval intitulada “Le Vilain Mire” imprimindo-lhe força cómica. A trama é simples: Martine querendo vingar-se do seu marido, o lenhador Esganarelo, que lhe bate, faz acreditar que ele é um médico famoso, que só reconhece o seu saber quando é espancado. Além da história ser construída em torno da crença popular: “as aparências enganam”, também trata um tema frequente na obra de Molière a medicina e os médicos. São momentos simples semeados de risos fáceis e outros mais subtis. Aprender a gostar da literatura passa também pela vida da literatura possível através do teatro!
Ana da Palma


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