Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

ARESTAS

ARESTAS

O ramo da madrinha

RamodaMadrinha.jpg
Estabelecemos frequentemente laços entre o que nos rodeia e que vemos e outras imagens que vamos armazenando na memória. Ainda não percebi por que razão, por que magia a simplicidade e a beleza na mesa da cozinha da madrinha me tocou. Só me apercebi quando descarreguei as imagens, pois foram tantas da mesma coisa, só variavam os ângulos, a luz, o enquadramento, mas quase todas voltavam às flores da madrinha, a este ramo composto pelas flores do quintal, em que se pressentia a procura de um prazer simples, em que se percebia o momento em que as flores foram lentamente colhidas para serem expostas na mesa da cozinha com uma única finalidade, a beleza e a vida tão especial e específica que apenas as flores transmitem, aquele sentimento tão peculiar que nos comunicam os ramos colhidos com a inspiração do campo. Não era dia de festa, nem de convívio especial. Era um dia semelhante aos outros. A parede rachada pelo tempo e amarelecida pelos fumos do lar, onde a cinza é recolhida, brasa a brasa, na paciência escura da borralheira, depositada perto da fornalha, pá a pá. Nada se perde. Juntam-se as cinzas. São baldes para o quintal, ou para fazer a lixívia, que jazem na borralheira com outro destino útil, mesmo útil. Nesta cozinha escura todas as cores têm uma vida própria. A toalha estendida na mesa, a jarra metálica, o saco de plástico branco e as sementes de feijão cor-de-rosa, escondidas pelo quadro desta imagem, constituem tantas incongruências de uma estética da lentidão. Haste a haste, caule a caule, entre o verde e o rosa vem o sol, maravilha do quintal. Lá fora, a roupa quase branca continua a corar na luz, docemente, cada coisa com tempo, cada passo sua firme paciência, sem palavras juntas em frases feitas. Entre o plástico e o fumo, entre o que persiste e o que é efémero, permaneceu esta imagem de um ramo para aquele dia.
Depois da contemplação pura, foram outros os ramos evocados. Desde aquele que está fixado no canto esquerdo de um quadro de Velásquez, ainda como simples elemento decorativo, no Retrato da infanta Margarida (1653), onde de uma jarra de vidro verde se destaca uma rosa, ligeiramente inclinada para o azul da toalha, na qual pousa a mão da infanta, até aos impressionistas. Fiz novamente um percurso rápido pelos temas tratados pela pintura e verifiquei que com o impressionismo o retrato se acerca do seu objecto, procura, entre outros temas, a vista do pormenor e o seu aumento. Procurei entre algumas das flores e ramos representados e encontrei o Vaso de Peónias num Pedestal (1864) de Manet, em que uma mancha branca ocupa o espaço todo da tela; a Dama dos Crisântemos (1865), onde a abundância das flores e das cores em pleno centro do quadro pretende apontar para a mulher (Mme Valpinçon) à sua beira, no canto direito da tela; o Vaso com Crisântemos (1885) de Renoir, cuja abundância de pétalas recurvas parece anunciar um cansaço premente semelhante àquele que se encontra nos cemitérios no momento de Todos os Santos; fica também um quadro de que não me lembro nem a data, nem o título de Berthe Morisot, mas que está gravado na minha memória como uma única flor encarnada; depois vem o puro encantamento da Jarra com Margaridas e Anémonas (1887), dos Doze Girassóis numa Jarra (1888) e da Natureza Morta: Jarra com Aloendro e Livros (1888) de Van Gogh, como uma procura da cor e do equilíbrio; seguem o Ramo de Flores, óleo sobre tela (1896) e a aguarela intitulada Ramo de Flores (1895-96) de Gauguin, cuja mancha releva da poesia pura. Depois voltamos a outro tipo de distanciamento, onde novamente o ramo está associado a algo mais, ou à mulher com Matisse: Natureza-Morta com “A Dança” (1909), Flores e cerâmica (1911), Natureza morta espanhola (1911) e algo muito revelador A lição de Pintura (1919), ou A mesa Preta e também Chagall com Mulher com Ramo de Flores (1910) e Os Amantes nos Lilases (1930); um tema abordado novamente por Warhol com Modelo para Pintores Amadores (Narcisos) (1962). Fica o espaço livre para todos os outros ramos, aqueles que estão ainda por vir. (Ana da Palma, Gazeta das Caldas,25/08/06)

Links

ALTER

AMICI

ARGIA

BIBLIOTECAS

EDUCAÇÂO

ITEM SPECTO

VÁRIOS

Sapatos, Figas e Pedras

Arquivo

  1. 2020
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2019
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2018
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2017
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2016
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2015
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2014
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2013
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2012
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2011
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2010
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2009
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2008
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D
  170. 2007
  171. J
  172. F
  173. M
  174. A
  175. M
  176. J
  177. J
  178. A
  179. S
  180. O
  181. N
  182. D
  183. 2006
  184. J
  185. F
  186. M
  187. A
  188. M
  189. J
  190. J
  191. A
  192. S
  193. O
  194. N
  195. D
  196. 2005
  197. J
  198. F
  199. M
  200. A
  201. M
  202. J
  203. J
  204. A
  205. S
  206. O
  207. N
  208. D
  209. 2004
  210. J
  211. F
  212. M
  213. A
  214. M
  215. J
  216. J
  217. A
  218. S
  219. O
  220. N
  221. D