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ARESTAS

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Alerta! Violência



A violência que tem acontecido, estes últimos dias, nos subúrbios de Paris e noutras cidades, revela um profundo mau estar de uma parte da sociedade francesa. Não há remédio, não nada a fazer senão o que as autoridades anunciaram: restabelecer a paz social e a ordem, mas como? Pela repressão? A presença da polícia não parece ter tido qualquer efeito. Como fazer? Quais as respostas imediatas possíveis e as respostas a longo prazo imprescindíveis? Há dias, perguntava a uma amiga residente em Paris, o que queriam esses jovens. É impossível perguntar-lhes, não têm um representante ou um líder que possa reivindicar algo. Não se sabe o que querem e quiçá nem eles sabem o que querem. O que é certo é que isto vem dilacerar e revoltar toda a comunidade imigrante em França. Os imigrantes europeus que lutaram para ter uma vida mais ou menos boa e gratificante sentem-se ameaçados na pele. Muitos deles engrossaram já as listas do partido nacionalista francês. O mesmo partido que, nos anos 80, punha em perigo a vida dos emigrantes do sul (portugueses, espanhóis, italianos). Estes aparecem agora nas listas de um partido político que se destaca pelas suas posições xenófobas. Onde está o erro? Verificamos que todas as associações e todo o tipo de apoio social a desempenhar trabalhos culturais, acções de integração e que todo o apoio social financeiro não funcionou como se pretendia que funcionasse. Verificamos que a concentração de comunidades de mesma origem acaba por degradar todo o espaço físico e o ambiente em que se encontram. Por um lado, é difícil conviver com os magrebinos na cidade, por outro lado é impossível empurrá-los todos, ou deixá-los concentrarem-se, num único espaço de vida como tem vindo a acontecer. Parece-me que num caso ou no outro há excessos. Não podemos partilhar de extremos que, por um lado culpabilizam a polícia e, por outro lado, culpabilizam aqueles jovens. Se há necessidade de um culpado, de algo ou alguém que assume todas as culpas, tem que se procurar na História da Argélia, Tunísia, Marrocos, tem que se procurar na fúria da construção das cidades nos arredores de Paris nos anos 70, para eliminar os chamados "Bidons-ville" que também existiram na cidade das luzes; tem que se procurar na forma como os jovens foram integrados na sociedade francesa, na educação e em todo os contexto social e político em que cresceram e se formaram. Cometem-se sempre erros. Alguém alguma vez visitou os subúrbios de Paris? As tais "Banlieues", como são referidas nos noticiários ( posto que não têm nada que ver com os nossos subúrbios.), e entre elas, La Courneuve, Blanc-Mesnil, Aulnay-sous-Bois, Clichy-sous-Bois, Montfermeil não são sítios onde se pode viver. Não são sítios onde se deseja viver. São sítios chamados "cités" ou cidades. Serão cidades? Não me parece serem estas as cidades desejadas. Assemelham-se mais a guetos, dormitórios, capoeiras construídas para amontoar os menos integrados, os mais pobres, os que não pertencem ao modelo dos 3 Bs, aqueles que não são nem Belos, nem Brancos, nem Bons. Quem criou este modelo? Nós, habitantes do mundo ocidental? Mas será que o maior problema está nas convicções do mundo ocidental. Estas que pomos em práticas por todo o lado e que não parecem resultar. Estas que nos levam a brandir o estandarte de civilização com valores universais e que nos leva a compensar as falhas ou as faltas com fundos, com ajudas económicas que não parecem ter os resultados esperados, posto que agravaram as diferenças sociais, posto que não diminuíram a fome em África, etc.
Não podemos cingir-nos a dizer que há, por um lado, os maus e, por outro lado, os bons, "os coitadinhos", não me parece ser a melhor forma de perceber o profundo mau estar social que tem vindo a instalar-se em França (e em vias de acontecer noutros países) e analisar a situação com olhos de quem procura uma solução, independentemente da informação transmitida pelos media. Este mau estar é o espelho dos espaços construídos para os homens sem serem à imagem dos homens, é o espelho de um governo ultrapassado, sem políticas de coesão social, que compensa com apoios financeiros, formações pseudo profissionais uma sociedade doente que, por sua vez, usa e abusa dos subsídios e das ajudas económicas simplesmente porque não se lhe oferece mais nada. Parece-me que isto levanta uma questão de dignidade. Haverá dignidade possível para todos neste mundo?


(Gazeta das Caldas, Ana da Palma)



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