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ARESTAS

ARESTAS

A vida em Lanquín (1)

Ouvi um estrondo. Vi o punho fechado e crispado sobre o acelerador. Senti a poeira do caminho levantar-se. A alguns metros, vi a frágil ponte de madeira remendada com chapa, baloiçando ao vento, e imaginei a corrente rápida do rio, a cascata, as borbulhas de espuma e os remoinhos de águas tumultuosas transportando troncos e terra. Senti vertigens e estremeci. Quando o vento entrou no capacete e envolveu o meu rosto gotejante de um suor amarelo da cor do caminho sabia que, doravante, tudo podia acontecer. O meu corpo inteiro permaneceu em estado de alerta, todos os músculos ficaram contraídos, como para testemunhar de uma última luta a travar contra a adrenalina, que espalhava ondas de calor e uma sensação de picotado na pele. Pela primeira vez na minha vida, agarrei-me ao condutor e desejei minguar. Desejei poder ser como Alice no País das Maravilhas. Desejei ter a maravilhosa sensação de ser como um telescópio. Assim sendo, todas as partes do corpo encaixavam-se harmoniosamente umas nas outras e entrando-me, primeiro a cabeça dentro do pescoço, o pescoço entre as clavículas e as omoplatas, depois a bacia cobrindo-se da caixa torácica e as pernas, osso a osso, encaixando-se uns nos outros, assim tornava-me tão pequena, quase desaparecida que até o perigo desvanecia. Também desejei transformar-me num rato, não pensei na barata de Kafka, porque a sua dimensão e o espaço exíguo e ofegante que ocupava na minha memória, como uma voz surda, ou um grito sem som, atrás de uma porta sempre fechada, incomodava a minha lembrança. Mas essas coisas só existem na literatura de que me alimentei, durante o longo sono dos outros, debaixo de um cobertor, com uma lanterna. Não era a lanterna dos miúdos de Stevenson, nem a lanterna surda dos pescadores, não era uma lanterna que iluminava caminhos reais, apenas revelava representações, palavra a palavra. Nesse instante, desejei ter recebido uma chuva mágica, no meio de um oceano qualquer, num barco à vela americano, num filme americano que, remexendo na minha memória e tentando uma tradução adequada, chamava-se “O Homem que encolhe”. Uma chuva mágica que teria feito de mim uma minúscula poeira, um átomo, uma partícula invisível e impalpável. Claro que no meu caso, a transformação tinha que ser instantânea! Não podia de modo nenhum ser lenta e progressiva. Impossível! Aqui, no momento de real realidade – desculpem o pleonasmo, é propositado. Só assim é que se compreende qualquer coisa neste mundo, onde a autenticidade é autentificada. Como? Não sei bem explicar, mas é verdade! Quase todas as novas palavras do quotidiano, decalcadas sobre as antigas, revestem um prefixo grego ou latino que quer frequentemente dizer: mais, ou menos, tanto para aumentar como para diminuir! Tudo se justifica pelo seu contrário e só depois é que procuramos o que há de real, ou então, tudo é tão real que se torna uma ficção elaborada ao sabor de cada um. O nosso mundo continua oscilando entre dois extremos, o maior e o minúsculo, e podemos agradecer à língua e à existência de prefixos e sufixos a possibilidade de existirem extremos. Estas partículas soltas subtilmente utilizadas e adequadamente colocadas reflectem exactamente o que pretendemos, isto é, palavras novas para dizer a mesma coisa, mas com a ilusão de que tudo é novo e diferente. Contudo, o que é certo, é que tenho pena. Gostava tanto da palavra: autêntico. Não sei bem como, mas estabeleço laços com certas palavras. De vez em quando, renovo o meu léxico de palavras queridas e registo-as por ordem alfabética no meu caderno. Sim, gostava da palavra, mas agora sinto quase medo em proferi-la. Gostei da palavra, pela primeira vez, quando conheci uma pintora argentina que vivia em Paris e que tinha sido deportada durante a segunda Guerra Mundial. Quando vi os números gravados na pele delicada e fina do seu braço, soube que era autêntico, soube que o que tinha visto na Alemanha não era um museu de arte contemporânea. Naquela pele estava inscrita a História dos homens. Apesar de tudo, prefiro, mesmo assim, autêntico a verdade. Verdade faz me pensar em “vero icon” e na polémica que foi, e é para o nosso pobre mundo cristão. E, quando penso em “vero icon”, pergunto-me se Verónica sempre se chamou assim, ou se só teve esse nome, depois de dar o pano de linho para limpar o rosto de Jesus. Poderia ter sido uma mulher qualquer. Uma mulher com outro nome. Um nome desconhecido e pouco importante até ao momento exacto em que entrou na história da Bíblia dos homens, quando estendeu o pano de linho, aquele que veio revelar-nos a imagem tão procurada, mas de que não há nenhuma certeza.
Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 25/11/05

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