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ARESTAS

ARESTAS

A vida em Lanquín (2)

A palavra "autêntico" deve ter origens gregas. Atenas sempre me apeteceu mais que Roma. Tudo teria sido tão diferente se os augúrios não se tivessem manifestado a favor da criação de Roma, se os Sabinos tivessem vencido, ou se as suas mulheres não tivessem sido raptadas, ou se os Etruscos não tivessem sido, pouco a pouco, assimilados. Que teria acontecido na Eneida de Virgílio e daí, em todas as epopeias que seguiram, querendo igualar a Eneida, ela própria feita sobre o modelo de Homero ou outro grego do mesmo nome, como disse Óscar Wilde, falando da Ilíada, posto que nem se tem a certeza que foi o mesmo homem que escreveu as duas epopeias ?– nesse instante, senti um sopro de adrenalina invadir os meus ombros, remexer o meu ventre, prender os meus nervos. Nem pensei no que estava pensando. Não há maneira de registar a rapidez com que pensamos. A única certeza é que identificar o pensamento com palavras, ou colocar palavras no pensamento é longo, complexo e demorado. Construir frases não é tão fluido e rápido como pensá-las. Um único pensamento me percorria, já me via morta, caída num caminho de pedras e pó. O meu corpo apodreceria anónimo, perto do rio Cahabón e ninguém teria a coragem de Antígona, ninguém se atreveria a cobri-lo de terra. Não existem heroínas gregas no meio da selva! Não, nem chegava a me ver cair, posto que já estava morta. É claro que nem me via cair! Estava a cair, interminavelmente, na minha memória, a queda nunca parava. O corpo estava a ser arrastado pelo chão não havia meios de exercer uma força para pôr um fim à queda. À minha frente, existia um sorvedouro, uma voragem ensurdecedora. Atrás de mim apenas um abismo ameaçador povoado de homens armados. Não via o que estava atrás de mim – gostaria ter sido como Eric Satie que dizia caminhar segurando-se pelas ancas e olhando, fixamente, atrás dele. Contudo, não sei bem do que teria servido! Ver. Ver, simplesmente, os olhos, os rostos dos camponeses guatemaltecos armados e saber que, a qualquer momento, iam disparar. Não havia outra solução, tinha que enfrentar o meu fim, para não ter o sentimento de ter sido morta por acaso – não via, mas sentia o peso das espingardas apontadas na minha direcção e os machetes brandidos, ameaçadores à distância. Nesse instante morri pela primeira vez – no momento em que se morre, não há, como nos filmes, aquele efeito técnico que enevoa o espaço e a visão, como um doce arrependimento, um suave lembrar lacrimante ou um adeus promissório. Não há analepse, flash-back, não revivemos o tempo passado, nem relembramos nada! O tempo não perdura, obscurecendo-se apenas na lentidão. Não olhamos, uma última vez, para o que nos rodeia, como uma última saudação, o adeus final. Está tudo falso, errado! Não há tempo para essas coisas. Não me lembrei do meu primeiro amor, aquele cujo beijo permanece como uma dádiva, como a única promessa de felicidade. Não tive recordações do meu primeiro brinquedo, aquele que sobreviveu a todas as tentativas de destruição ou desaparecimento numa lixeira, nem do meu primeiro livro, aquele que indica o caminho para todas as outras leituras e que permanece estático nas prateleiras, recolhendo as aranhas do tempo e o pó da memória. Em suma, o primeiro de tudo que possam imaginar, pois seria fastidioso de tudo enumerar, contando que cada um de nós tem as suas preferências! No momento em que se morre, o tempo passa rápido e cada respiração é uma vida e a mais próxima memória resumia-se a quatro dias. Tinha passado quatro dias, num sítio encantador. Foram momentos maravilhosos na selva, perto de Lanquín, numa paisagem suavemente ondulante e exuberantemente verdejante, à beira do rio Cahabón. Quatro dias, a observar e registar a selva, as plantas, as aves, os mamíferos e os insectos, e a tentar comunicar com os raros índios ou mestiços que passavam curiosos, mas silenciosos, como se não houvesse possibilidade de uma língua naquele sítio, os índios murmuravam sorrisos tímidos, perguntavam com os olhos ou com as mãos o que é que gringos, ou seres parecidos com gringos, faziam ali. Foram dias de silêncio, de recolhimento e de partilha. Durante todo esse tempo, não importou ter apenas arroz branco para comer, porque o espaço se sobrepunha ao conforto do estômago e do corpo. O espaço preenchia todos os desejos. (Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 2/12/05)

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