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ARESTAS

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A vida em Lanquín (3)

Cai. Bati com a cabeça no chão. Parti o pé. As águas turvas do rio passavam por baixo das tábuas rachadas e quase podres da ponte. Uma chuva persistente e ligeira imiscuía-se na minha roupa pelas costas desnudadas, o pescoço e os punhos. Apenas restava aquele espaço, esquecido do tempo e dos homens, entre montante e jusante da memória. Era um sítio de acesso difícil, onde a natureza exuberante, de uma riqueza e diversidade quase suspeita, inundava de lianas, epífitos, heras, árvores, musgos, líquenes e cogumelos de toda a espécie, cada pedaço de húmus que persistia agarrado às pedras polidas, semelhante a ilhotas de verdura, ou a micro mundos vegetais, onde a noção de grandeza era invertida. A magia estava contida e resultava apenas do encantamento que produzia a natureza, quiçá fora por esta razão que os homens que passavam por ali não se atrasavam e caminhavam ligeiros e silenciosos. Havia algo de inquietante e cheguei a pensar no Stalker de Tarkovski e na Zona que acabou por ser filmada na Estónia. Era exactamente onde tinha estado, mas longe do estado báltico e ainda mais longe de Isfara no Uzbequistão, o primeiro local eleito para filmar a Zona. Não havia, nem filósofo, nem escritor louco à procura de um conhecimento para ocultá-lo, possui-lo, ou destruí-lo, mas a água que se reflectia em espelho nas paredes do precipício, anunciava tempos dolorosos, tempos em que as águas indomáveis reclamariam, com certeza, ao homem, uma longa dívida para com a terra. Havia um saber contido neste espaço que cada dia cobrava a imprescindível necessidade de silêncio e de esquecimento. Gotas de água pingavam contínua e paulatinamente pelas rochas, com aquela força que transmite a inesgotável permanência da água, que corre nas fontes, e a incessante renovação, onde cada pingo contém o peso do efémero. Não fui alvejada. O grupo de homens armados, no meio de um caminho em plena selva, já tinha, uns dias antes, degolado um americano, que, segundo eles, espiava as actividades da guerrilha ou do governo, nas paragens. Ninguém podia estar nas regiões de Alta Verapaz e do Petén sem ser suspeito de preparar algo de perigoso para o país. Mais tarde, soube que só queriam verificar que não tínhamos nada a ver com aquele americano anónimo, cuja cabeça iria sobrevoar os pesadelos ainda por vir, que não íamos impedir os actos eleitorais semi-democráticos que se realizariam naquele dia em Lanquín. Era frequente as pessoas desaparecerem nestes sítios, num dia de eleições, quando um antigo golpista, Rios Montt, ia ter direito a ser representado no parlamento, quando o próprio candidato favorito veiculava ideias do general, quando camiões de caixa fechada, postos à disposição do povo pelo partido, transportavam todos os homens em idade de votar. Lembrei-me das palavras de uma mulher que tinha uma pequena loja perto de Lanquín e que me estava a cobrar o dobro por um pão de açúcar, sobre a necessária colaboração dos partidos, sobre os massacres de índios e o preço do feijão. A mensagem de propaganda da campanha ressoava por todas as partes “ Que suben los salários! Que bajen los frijoles!”. Murmurei uma palavra, o nome de um guerrilheiro conhecido na capital do México, com quem tinha tido múltiplos encontros secretos em locais públicos, na cinemateca, em jardins e pequenos cafés, onde tínhamos trocado documentos e ideias, quando ainda acreditava que só a palavra podia salvar o povo Maia. Contrariamente ao que promovia Rigoberta Menchú Tum, para este homem guerrilheiro exilado, os tempos exigiam acção armada. Sussurrei o nome do único autor guatemalteco que conhecia... “Mira así empezaban los cuentos de Miguel Ángel Asturias "A mi madre que me contaba cuentos”... “Te acuerdas como hablaba de las ciudades... Ciudades sonoras como mares abiertos!”... “No puedo olvidar las palabras... dentro de la selva, el bosque va cerrando caminos”... Procurei acercar-me, sem saber quem eram estes homens. Civis organizados? Guerrilheiros? Militares sem farda? Ainda hoje, não sei bem como iam verificar quem éramos. Apenas me lembro de um grupo de homens de rosto cor de bronze polido, belos na sua pura e segura postura de seres armados, vestidos de branco, com botas de borracha, e uma sacola colorida atravessada no peito. Os homens não me meteram medo, pareciam crianças, só as armas ameaçavam. Nunca tinha visto tantas armas juntas no meio da natureza, como se a violência se pudesse exercer de forma mais nítida, mais pura, naquele espaço, onde a única presença da frágil e efémera mão do homem se resumia a uma ponte precária, prestes a ruir. (Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 16/12/05)

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