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ARESTAS

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A vida em Lanquín (4)

Depois da queda não me lembro de nada, a não ser de uma melodia ligeira de Bach e de uma voz trémula e surda atrás da ténue parede do quarto. Acordei numa pensão de Lanquín, com um rosto atento por cima do meu e um papagaio pousado à beira da mesa-de-cabeceira. Tudo parecia natural, como se sempre estivera naquele quarto, como se toda a vida vivera naquele sítio. A primeira coisa que vi foi uma rosa desenhada na parede, mesmo por cima da cama. Era uma rosa de pétalas abertas reflectida num pequeno espelho aos pés da cama. Olhei para o espelho e, naturalmente, relembrei uns versos de Rilke. Depois, a lembrança do espinho da roseira brilhou na ponta do dedo do poeta e a ferida que causou nunca mais sarou. Foram rios de sangue que se esvaziaram em poemas. Fiquei comovida com a visão, mas aguentei sem lágrimas, nem suspiros. Tentei balbuciar os versos silenciosamente, quando me apercebi que a voz que dizia os versos não era a minha. Pouco a pouco, todas as rimas sobre rosas assaltaram a minha memória. Algumas semanas mais tarde, quando já conseguia sair da cama, as duas índias quiché que trabalhavam na pensão instalaram um cadeirão na cozinha. Era um grande espaço, com paredes escuras e várias aberturas sem portas, nem janelas, onde o chão, sempre impecavelmente limpo, era de terra batida. No centro, ocupando quase o espaço todo, havia uma estrutura que parecia feita de terra, tijolo, ou adobe, semelhante a uma grande mesa recortada de círculos e quadrados de tamanho variado, como um gigantesco fogão. Por baixo, ardia um lume mais ou menos forte conforme o sítio onde se concentravam os tições. Cheirava sempre a limão lima e a pimentos. Assistia no cadeirão à confecção de tortillas, enchiladas, frijoles, tamales, moles, pozoles e outras delícias. Mensalmente, uma das índias chegava com um pato debaixo do braço direito e um martelo na mão esquerda, enquanto a outra, assustada e desajeitada, tentava amarrar as patas do animal com um cordel. Foram os mais estranhos e cómicos sacrifícios a que assisti. Um dia, a dona da pensão contou-me, num espanhol entrecortado de palavras quiché, como me trouxeram para este sítio. Contou-me que a Senhora Martínez tratara de tudo, que o meu amigo tinha caído no rio com a moto e desaparecera, levado pela corrente. Pouco a pouco, aprendi a viver em Lanquín. Ensinaram-me que ter boa memória é saber esquecer. Na verdade, nunca pensara nisto, mas o esquecimento só pode existir na memória das coisas e depende do que se faz com elas, tanto com as coisas que persistem, como com as que se apagam voluntária ou involuntariamente. A boa memória acarreta tanto o rancor como a genialidade, mas o rancor alimenta-se da memória, enquanto que a genialidade lhe é alheia. Ainda hoje, vivo em Lanquín. Ainda hoje, não me lembro do meu nome, mas lembro-me de todos os outros nomes que povoaram o meu passado. Passo os dias na mercearia do Senhor Mendoza, a quem uns militares, tinham arrancado uma parte do rosto, o que fazia com que não podia falar sem se babar. Evaristo Mendoza carregava a mutilação da mesma maneira que a pequena toalha, rectangular e sempre branca, semelhante a uma bandeira da paz, que habitava o seu ombro esquerdo, com que limpava a saliva palavra após palavra. O senhor Mendoza orgulhava-se de ser descendente directo dos conquistadores espanhóis. Cada dia que passava um novo antepassado surgia na sua memória. Fui recolhendo as suas histórias e fiz a sua árvore genealógica. São tantos os seres nos ramos da árvore que já nem sei como acrescentar ramagens, contudo depois de Evaristo Mendoza não há um descendente e esta grande e gloriosa família verá a sua extinção no dia em que já não se lavarão toalhas brancas na pensão de Lanquín. Senti alguma tristeza quando me apercebi que Evaristo estava doente e, quando ele já não podia sair da cama, tomei por minha conta a tradição da toalha no ombro esquerdo. Segura da minha existência e do sopro que ainda me anima o corpo. Fico sentada perto da porta, atendo os clientes e limpo com o mesmo gesto lento e dedicado o canto dos lábios. Apesar dos anos que passaram, a dona da pensão continua a olhar para mim como se eu fosse algo de estranho, mas indispensável à vida da pensão, da mercearia e da praceta cada vez mais abandonada. Descobri que tinha uma paciência de pedra. Precisa-se de pouco para viver em Lanquín. (Ana da Palma, Gazeta das Caldas,23/12/05)

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