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ARESTAS

ARESTAS

Fim de festa, outras festas, Admirável Ano Novo

Dada a situação do continente não há nada a acrescentar, a Península Ibérica não manifestou intenções de se deslocar para outra parte, apesar das aliciantes propostas e um estatuto de paraíso fiscal em forma de ilha flutuante. Dada a situação sócio-económica de Portugal alguns pressagiam augúrios infelizes para os próximos anos. Quanto ao estado da natureza, de Setembro a Dezembro 2005, tem chovido mais que em 2004. Parece que não foi necessária a intervenção de aviões militares para polvilhar os cúmulos brancos de uma substância química mágica, para provocar gotículas insignificantes, em território aleatório. Logo esperamos que o ciclo de seca em que se encontra o país, não seja tão dramático como o do ano passado. Esperamos sempre algo de melhor, simplesmente, porque herdámos, dos nossos antepassados gregos, a caixa de Pandora, onde permaneceu a Esperança. Não me perguntem porque razão a Esperança se encontra na caixa que Prometeu entregou ao seu irmão Epimeteu em troca de uma promessa!
Repetimos, de ano para ano, a passagem de um ano para outro ano, da mesma maneira que viramos uma página, que tomamos decisões drásticas, principalmente novas e boas, sim, sempre novas e boas decisões! Alguns mudam de hábitos alimentares, ou trocam de estilo, outros mudam de vida, de pais, outros ainda, não mudam, nem trocam nada, simplesmente acrescentam tempo ao tempo. Com o tempo que flúi, há a eterna e fascinante repetição do irremediável. Sucedem-se os anos, as estações, os amores, as amizades, as comemorações e festas, os nascimentos e as mortes, sempre diferentes, sempre semelhantes.
Sobre o decorrer do tempo, antecipei este ano ainda por vir. Dado que a nossa vida e a nossa história são feitas de datas e acontecimentos importantes, dei uma breve olhadela a algumas, todas elas ilustres nascimentos. Depois de subtrair algumas datas de nascimento a 2006, verifiquei que o seguinte número de anos nos separam do nascimento das seguintes personalidades: 250 anos para Mozart, o jovem pródigo genial e instintivo de que vamos, provavelmente, ouvir falar durante o próximo ano, 200 anos para John Stuart Mill, o economista filósofo, defensor do voto das mulheres e contra a pena de morte, 150 anos para Freud (não me esqueci, inconscientemente, de acrescentar algo, pois parto do princípio de que todos nós sabemos quem foi), 100 anos para Samuel Beckett e Léopold Sédar Senghor. Este último centenário é aquele do nascimento de dois homens que admiro pela obra, pela criação e pelo trabalho intelectual. Samuel Beckett e Léopold Sédar Senghor nasceram ambos em 1906 e viveram em França. Ambos escritores, ambos poetas, mas, enquanto Samuel Beckett dedicava-se às palavras dos homens e à sua solidão, Senghor brandia a sua palavra – verbo com a negritude de outro poeta.
A palavra “negritude” é um neologismo, criado pelo poeta martinicano, Aimé Césaire, em 1939, num longo poema intitulado « Cahier d’un retour au pays natal », publicado na revista Volontés 10 e integrado na antologia organizada por Léopold Sédar Senghor em 1948, intitulada: Anthologie de la Nouvelle Poésie Nègre et Malgache. Para o eu – poeta, a negritude significa a acção e a força pela negação, reiterada sob a forma de anáforas ao longo do poema. A negritude corresponde a uma consciência e valorização da cultura negra. Para Senghor, a palavra transforma-se em verbo, logo é a palavra em acção. Leopold Sédar Senghor foi eleito presidente do Senegal em 1960. Morreu em Dezembro de 2001, deixando-nos as suas obras e trabalhos poéticos. Quanto a Samuel Beckett, pouco se sabe sobre a sua vida, segundo o seu primeiro editor era “um homem nobre e modesto, lúcido e bondoso...discreto e autêntico”. Nasceu perto de Dublin e instalou-se em França em 1938. Um homem de duas línguas e de nenhum país, que recebeu o prémio Nobel literário em 1969. Ficam aqui apenas algumas citações para obras a (re) -descobrir:

“ É na tranquilidade da decomposição que me lembro a longa e confusa emoção que foi a minha vida...decompor também é viver” (Molloy)

“A humanidade é um poço com dois baldes. Enquanto um desce para ser enchido, outro sobe para ser esvaziado” (Murphy)

“É longa a estrada quando se caminha sozinho” (À espera de Godot)

“Esqueci-me da ortografia...e da metade das palavras” (Molloy)

“Que horror, o ponto e vírgula!” (Watt)

“O pior é o princípio, depois o meio, a seguir o fim, por fim, é o fim que é o pior.” (Inominável)

“Amor, só queria amor, um pouco de amor, todos os dias, duas vezes por dia, cinquenta anos de amor duas vezes por dia...” (Todos os que caem)


(Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 6/01/01)

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