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ARESTAS

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Apontamentos sobre Israel-Palestina (2)

A reflexão sobre as notícias oficiais publicadas online é sempre muito esclarecedora quando procuramos ler de forma atenta. Cada palavra colocada no seu respectivo espaço, naquele famoso eixo sintagmático, aquele das simultaneidades, acaba sempre por nos projectar de forma quase involuntária para aspectos da História, não só das palavras, mas da Humanidade. O Ministério dos Negócios Estrangeiros de Israel publicou uma pequena nota a 27 de Setembro com o seguinte título: «Behind the Headlines: Palestinian Preconditions for Peace Talks».

 

O título indica-nos claramente que a Autoridade Palestina quer impor pré condições para continuar as discussões de paz. Parece-me muito curioso, primeiro porque sabemos de facto que os colonatos são ilegais. Portanto, a moratória nem deveria existir, nem deveria ser o ponto-chave neste momento das discussões. O ponto-chave seria retomar as resoluções não cumpridas por ambas as partes e discutir e resolver cada uma delas de forma justa e correcta para ambas as partes. Caso contrário, para que servem as resoluções da ONU? Quem contribui financeiramente falando para que essas mesmas resoluções sejam estudadas, elaboradas e comunicadas? Serão os habitantes de cada estado membro da ONU?

 

Israel constrói e instala-se em terras que não lhe pertencem e a própria elaboração da moratória é uma afronta à lei internacional. Contudo todos nós aceitamos a moratória, pois é falada nos nossos media e quase parece a chave do problema (actual). Não há nada a fazer, pois existe a moratória e é de facto um bom documento para um começo. Pergunto-me, como é que a comunidade internacional chegou ao ponto de aceitar a moratória, como é que a comunidade internacional permaneceu tão cega estes anos todos?Trata-se de uma apropriação ilegal, trata-se de espoliação de famílias e neste caso a resistência é totalmente legal. Como é que podemos concordar e apoiar discussões de paz quando nitidamente alguém está a invadir o Outro e que esse Outro não tem nenhum recurso a não ser basear-se num documento ilegal para se defender e tentar construir a paz?

 

Voltando ao artigo, vejamos estas duas primeiras frases: «The Palestinian Authority has preconditioned further peace talks on a halt to all Jewish building in the disputed territories. Israel, on the other hand, seeks to reach a negotiated peace settlement with its Palestinian neighbours as soon as possible.» (Tradução literal:  A Autoridade Palestina impôs pré condições à continuação de discussões de paz com base na interrupção de todas as construções judaicas nos territórios disputados. Israel, por seu lado, procura atingir um acordo de paz negociado com os vizinhos Palestinos o mais brevemente possível»). Conhecendo os sucessivos mapas (em 1946, 1948, 1967),  dando alguma viabilidade a um futuro estado Palestino, isto numa visão de dois Estados, posto que a proposta de um estado está definitivamente afastada, pergunto-me quais os supostos «territórios disputados» mencionados na notícia? Serão mesmo disputados ou usurpados?

 

Depois pergunto-me qual a boa-fé de Israel na vontade de paz com os «vizinhos palestinos», quando sabemos do boicote sistemático de qualquer solução ao longo dos anos de discussões, quando sabemos da proposta nitidamente colonialista de Israel, quando sabemos da conivência do Ocidente (EU & UE), quando sabemos dos ataques sucessivos perpetuados por Israel ao longo de 60 anos, quando sabemos dos ataques sangrentos em Gaza 2008-2009, quando sabemos dos sucessivos confrontos e destruições de casas palestinas em Jerusalém e de forma sistemática na Cisjordânia, quando sabemos do emparcelamento do território palestino, quando sabemos das humilhações e violências, quando sabemos agora, pela proposta de Lieberman, que o alvo e o problema é o Irão...

 

Não há boa-fé, nem se trata de boa-fé. A questão é que, por um lado, os Palestinos, enquanto povo judeu, muçulmano, cristão e laico sob o domínio britânico não podia, nem tinha as ferramentas para se organizar de forma a proteger a sua integridade e direitos enquanto povo habitante de uma terra, não houve unidade enquanto povo de várias confissões religiosas habitantes daquelas terras, o que é bastante natural numa situação colonial e, por outro lado, como quiçá o mundo ocidental (mais genuíno), não soube antecipar, nem prever o que realmente começou a ser construído a partir de 1878 com as primeiras colónias.

 

Agora, Israel é aquilo que podemos chamar um estado pária e pior Israel é semelhante a uma criança malcriada que faz birras subtilmente controladas, mas tão insuportáveis aos olhos benevolentes dos media, que obtém sempre o que quer e que Outros querem!. A observação dos mapas acima referidos permite-nos confirmar que todas as negociações pautaram o crime político cometido por Israel com o apoio do Ocidente e o suicídio político sofrido pelos diversos negociadores de paz do lado palestino, tal como a entrevista a Ziyad Clot confirma. A solução de um único estado, unindo habitantes de um território, há muito que não é possível. A solução de dois estados vivendo lado a lado, partilhando passagens e espaços tornou-se impossível dada a actual configuração demográfica e geográfica daquilo que fora chamado Palestina e dado o crime político habilidosamente orquestrado ao longo de 60 anos. Contudo, segundo Michel Collon uma união sólida e efectiva dos Povos, revoltados com esta situação e que possam e queiram pressionar os seus representantes, ainda pode ter um peso contra este colonialismo com um rosto manipulador, subversivo, oculto e mortífero?

 

Ana da Palma

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