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ARESTAS

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Apontamentos sobre Israel-Palestina (1)

Sabemos que Israel foi autorizada a existir, enquanto país, pelas Nações Unidas e consequentemente pelo Mundo Ocidental. Sabemos que foi uma decisão formulando vários objectivos que na verdade ainda não são bem claros, mas que permitiu perpetuar um colonialismo camuflado com o qual todo o mundo ocidental pactua indecentemente desde 1948.

 

Diante dos factos relatados pelos media correntes e decorrentes das decisões tomadas, temos uma vaga ideia das razões que levam a Europa e os Estado Unidos a serem condescendentes para com as decisões do Estado de Israel. Pois, muito sucintamente, estas envolvem questões de poder na região, como podemos verificar com as sucessivas guerras iniciadas no Médio Oriente e as consequentes mentiras e verdades de que temos conhecimentos a posteriori. Por um lado, verificamos que o apoio militar dos EU a Israel, permite disfarçar a adesão dos EU ao pacto de não proliferação de armas nucleares. Por outro lado, este «laissez faire» implica sentimentos de culpa que se têm instalado e propagado de forma perniciosa e que alimentam o desejo de poder. Uma primeira culpa sobrevive à custa dos horrores cometidos, neste caso concreto (mas não só) contra as comunidades judaicas durante a Segunda Guerra Mundial e uma segunda culpa hipocritamente disfarçada por terem pactuado com a espoliação e eliminação de um Povo que não soube antecipar o que já estava a acontecer antes da primeira guerra mundial ainda sob o controlo da Coroa britânica e a quem não foram dados os respectivos apoios e instrumentos para a sua autodeterminação.

 

Quando as discussões entre Mahmoud Abbas e Benyamin Netanyahu foram anunciadas em Agosto numa conferência de imprensa transmitida na televisão nenhum jornalista fez, ou foi autorizado a fazer, as perguntas pertinentes, ou quiçá, incómodas, que novas discussões implicavam, tanto nos pontos a discutir (fronteiras, refugiados, segurança, reconhecimentos e compromissos mútuos) como na legitimidade de Mahmoud Abbas em participar nas discussões. Naquele momento, teria sido legítimo questionar se, ao negociar com Abbas, sendo ele ilegítimo, se Israel estava a reconhecer a sua ocupação ilegal. Tendo em conta este aspecto, qualquer acordo favorável à Palestina era possível posto que Israel sabia e sabe que Abbas já não representa o Povo Palestino, neste caso um apoio estratégico do Hamas e dos Palestinos teria sido benéfico o tempo de concluir negociações e seguir com novas eleições. Mas na verdade, trata-se provavelmente e apenas de uma forma de Israel prestar contas aos EU e de legitimar diante da Comunidade Internacional a continuação da construção de colonatos, não de tentar resolver o problema.

 

Agora, a poucos dias do final da moratória sobre a construção de colonatos, que finda a 26 de Setembro de 2010, os órgãos de comunicação dizem-nos que as discussões iniciadas estão em perigo. Pergunto-me se as discussões estão em perigo, porque do lado Palestino não vai haver mais concessões (e com muito direito) ou se o perigo é principalmente o futuro sofrimento do Povo Palestino. Muitos activistas, jornalistas, analistas sempre foram cépticos e descrentes sobre estas discussões. Muitos apontaram o carácter fictício, ou ainda a autêntica farsa que constituem estes encontros, a continuar esta semana no Egipto (14 e 15 de Setembro). A ficção continua, pois Netanyahou só quer luz verde para continuar a construção e os Americanos pactuaram mais uma vez. Quando e se M. Abbas disser que não concorda, a culpa ira recair sobre os Palestinos, por não fazerem concessões, não quererem ceder mais uma vez às exigências de Israel, ou será que deveria dizer Estado Judeu? Não há estados Cristãos e como é que pode haver um estado de uma confissão religiosa que possa eventualmente se dizer também democrático?

 

O problema que não foi antecipado, nem pela comunidade internacional, nem pelos dirigentes da Palestina de forma clara foi que Israel, não tem uma existência justa, para retomar as palavras de Robert Fisk, Israel tem uma existência legal e até o seu direito de existir foi reconhecido em 1988 pelos Palestinos. Não há dúvidas, pois isto está inscrito na História. Agora verificamos que além de terem de ceder mais terras, os palestinos terão igualmente de reconhecer um Estado Judeu. Imagino o surto de medo que surgiria no Ocidente se houvesse a criação de um (dois ou mais) Estado Muçulmano!

 

Quanto à solução criativa enunciada por Netanyahou, presumo que a antiga proposta feita pela administração Bush está subjacente: oferecer a cidadania americana a 100 000 Palestinos. Isto constitui mais uma afronta ao Povo Palestino, mas, curiosamente, indica que no fundo a administração americana não vê perigo terrorista nos Palestinos. Outra solução foi enunciada por Noam Chomsky numa entrevista recente. Segundo ele, os EU e a Europa devem impor regras a Israel cortando todo o subsídio aos colonatos, promovendo um regresso dos colonos que assim o desejarem aos territórios Israelitas. Trata-se de uma proposta sensata em que a Comunidade Internacional terá de demonstrar firmeza, sem cair sistematicamente na questão ilusória da segurança de Israel. Israel é provavelmente a única e mais poderosa potencia militar na região e todos sabem que os Palestinos não constituem um perigo para a segurança de Israel.

 

Num momento em que o Ocidente cria o terrorismo numa proveta disfarçando as suas próprias inconsistências, desacreditando as nossas raízes ou ideias de democracia e direito, pactuando com a construção de todo o tipo de muros, temo que uma «solução criativa» apenas venha confirmar a eliminação e a deslocação, injusta mas legalmente aprovada pelo Ocidente, do Povo Palestino.

 

Portanto a comunidade internacional terá de impor regras de forma autoritária, solidária e consistente e apostar numa solução legal, mas justa para ambas as partes e que ambas as partes terão de aceitar incondicionalmente.


Ana da Palma

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