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ARESTAS

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Roteiro Imaginário 1- Uma viagem pela leitura

O “canto das sereias”, utilizando as palavras de Maurice Blanchot, que tanto atraiu Ulisses assim como o escritor, tal como ele aparece, por vezes, no nosso mundo de etiquetagem mágica, ofereceu ao leitor consentâneo um Roteiro Imaginário, uma intricada panóplia de percursos possíveis, rede de teias, fios de Ariadne que seguimos ao ritmo da leitura. Pouco importa se o corpo se deslocou, porque o espaço imaginário é aquele que se abre, que se faz e desfaz ao desenrolar o texto. É o espaço imutável e, todavia, sempre em movimento. É cada vez semelhante ao novelo mágico que Dédalo ofertou a Ariadne, e que ela deu a Teseu em troca de uma promessa. Semeando os olhos nas páginas, as viagens cumprem-se, paulatinamente, polvilhadas de leituras. Por esta razão, Claudio Magris, citando Giorgio Bergamini, na introdução que fez ao Bréviaire Méditerranéen, abre um caminho: “Mas hoje em dia, todo verdadeiro Ulisses deve, em vez de uma camisola de marinheiro, revestir um roupão, (...), e aventurar-se na sua biblioteca, tanto ou ainda mais do que por entre ilhas perdidas; o Ulisses contemporâneo deve ser um perito do afastamento do mito e do exílio da natureza, um explorador da ausência e da deserção da vida verdadeira.” Este leva nos a reconsiderar a leitura assim como a viagem. Indicando-nos a senda fastidiosa mas, que acaba sempre por ser exaltante, que vai da secretária à biblioteca do corredor, do quarto ou à biblioteca municipal. Por vezes percorremos quilómetros antes de sair de casa. Pelos "As" das narrativas, veremos de novo o Mali de Amadou Hampaté Bâ e sonharemos com uma viagem sobre o rio Niger de Tumbuctu a Bamako. Pelos "Bs", passamos de África para a América com J.L.Borges, omitindo as leituras mais remotas para o "encontro" mais recente com Alberto Manguel. Pelos "Cs" voltaremos para a Europa com Camus e a viagem do estrangeiro dentro de si mesmo...

Uma listagem evocadora da biblioteca das narrativas longas tornar-se-ia enfadonha, apesar de poder vir a ser uma viagem pelos níveis de leitura que, noutro contexto, alguns estudiosos do Talmud codificaram no acrónimo PaRDeS. Dieppe, Etretat, Veneza, São Francisco, Trieste, Atenas, Lisboa fazem parte do Roteiro Imaginário. Todas mergulham os pés na água. Todas apareceram num espaço de preferências como um pretexto... Um "pré-texto". Aliaram-se ao espaço imaginário para justificar uma deslocação. Mesmo assim, a trasladação pertence ao domínio da ficção, por ser demasiado literária, por ser excessivamente ligada ao texto, ao autor, a um conjunto de palavras e a uma leitura que por natureza virá a ser outra... Pouco importa se é um erro. Aquele que vai analisar o texto dispõe de um leque admirável de ferramentas astuciosas, de uma metalinguagem apropriada e imprescindível que passa pelos maiores nomes dos teóricos da literatura, sempre disponíveis nas prateleiras duma biblioteca bem apetrechada em literaturas. Mas é um pecado gostosíssimo, a mais suculenta das iguarias literárias. Justificaremos a viagem pelas leituras, pois esta também virá a ser um texto.

Perseguiremos a miopia de Monet desde a "Gare du Nord" para Dieppe, a pequena desprestigiada irmã de Etretat. Andar à volta também é necessário. Imaginar, nem muito longe, nem muito perto do verdadeiro, do autêntico espaço. Assim ainda se cria. Talvez se creia que se cria. Seguiremos desde a "Gare de Lyon" para Veneza, onde sonham fantasmas, pedras, poços, pombos e um velho corvo. Entraremos pela porta das traseiras, ou seja, a estação de comboios, para não sermos demasiado obedientes ao aviso de Gustav Aschenbach. Ao longo da costa do Mar Adriático, avistaremos o cenário de um texto de Pier Paolo Pasolini e seguiremos lendo o texto até Trieste, onde a linha dos caminhos de ferro parece acabar. Persistiremos em conviver com o desassossego de Bernardo Soares, durante as frescas noites diante da estação ou com os gatos que habitam no antigo teatro romano. Não podemos esquecer de alugar um quarto numa pensão da "Via San Nicolo", para reencontrarmos James Joyce em 1915, ano da sua única comédia. Foram, com certeza, os últimos momentos de Trieste. Logo, chegaremos à Acrópole de Atenas. Desde a "Gare d'Austerlitz" o destino é sempre para Lisboa, onde o Rio e o Mar se encontram num beijo prolongado, com Fernando Pessoa e Antonio Tabucchi.

Fora Dieppe para não ser Etretat, Veneza para não ser São Francisco, Trieste para não ser Lisboa. Todavia, acabaremos por chegar a Lisboa e seguiremos os passos do narrador de Requiem. (...)

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