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ARESTAS

ARESTAS

Aranhas e outras teias (6)

“The wind must have risen. She was going to bed, in the room opposite. It was fascinating to watch her, moving about, that old lady, crossing the room, coming to the window. Could she see her? It was fascinating, with people laughing and shouting in the drawing-room, to watch that old woman, quite quietly, going to bed alone.” (Mrs. Dalloway, V.Woolf)
Com a luz inclinada do fim do dia chegou uma ligeira brisa marítima. Um vento fresco que trouxe com ele uma ténue névoa como para afagar o calor premente do dia. Ao longe, nuvens brancas e redondas pareciam delinear um colar de missangas de algodão elegantemente colocadas no pescoço do horizonte. Nestas terras do fim da Europa, Finisterra abocada com o atlântico, é este o vento que invade o fim das tardes, convidando a se recolher, a se abrigar da humidade, enquanto que o vento que sopra no mar calmo e envolvente do mediterrâneo é quente e embriagante, evocando a ternura das carícias possíveis, as paixões arrebatadoras e a fatalidade do destino ao final de um dia assombrado por um calor pegajoso. É um vento sensual que relembra os amores impossíveis dos primórdios de Roma e as lutas devastadoras pela conquista dos portos de toda a orla costeira do mediterrâneo.
Chegara a hora de regressar a casa. Arrumou a carta na bolsa e enfiou a mão direita no bolso da saia procurando, timidamente, encontrar o envelope fechado que encontrara na caixa do correio durante a manhã. Não tivera coragem de o abrir e permanecera o dia todo no bolso como a promessa de algo ainda por vir, ou um enigma para resolver, sem saber se a carta podia ser uma chave para perceber algo que não tinha sequer explicação. Não havia equívoco na caligrafia das letras traçadas a azul no endereço, a data comprovava que fora enviada há uma semana do norte de África. Não podia estar enganada, só podia ser uma carta do Sérgio. Uma carta recente após todos estes anos de silêncio e de ausência. Os dedos impacientes acariciaram levemente o envelope e voltaram a sossegar. Dirigiu-se para casa. Era hora de jantar. Era hora de recolher o peso do dia entre os lençóis.
Quando chegou à porta do prédio, cruzou-se com uma vizinha. Falaram um pouco do dia, da vida, dos filhos, do preço do arroz... Todas palavras gastas, mas necessárias para manter os laços de uma vizinhança saudável. Todas palavras de que já nem sabia o sentido, mas que repetia como uma lengalenga, algo que apenas comprovava que o tempo ainda seguia um ritmo cronológico e que passava sobre os actos quotidianos de cada um como a agulha de um relógio nos quadrantes, sabiamente orquestrados por um tiquetaquear regular. Todas palavras simples, mas geniais, porque aconchegavam e reconfortavam dando à vida aquela repetição necessária na urgência do tempo que passava.
Entrou em casa e dirigiu-se para a cozinha. Pós um pouco de sopa a aquecer, enquanto colocava a pequena toalha azul na mesa. Depois de jantar, foi à janela repetindo sempre aquele olhar semelhante às palavras que trocara com a vizinha. Olhou para o fundo da rua e a seguir para o céu antes de fechar as portadas. A porta do quarto estava aberta e a luz da rua iluminava a almofada branca. Tirou a roupa, colocou a saia em cima da arca, tirou a carta do bolso e deitou-se. Fechou os olhos com a carta na mão. Propunha-se a abrir o envelope, mas deu voltas na cama sem conseguir, nem tomar a decisão de ler a carta, nem de adormecer. À medida que as suas pálpebras se tornavam mais pesadas, não parava de pensar no Sérgio, na carta que tinha na mão e que ainda não lera. Os seus pensamentos davam volta inesperadas entre a janela da casa de fronte, as transcrições da gravação, o jardim, as árvores, a cor do dia e o que ia fazer amanhã, quando, de súbito, ouviu bater à porta. Quem será a esta hora de noite? Quem podia bater à sua porta. Há muitos anos que não tinha visitas. Os seus amigos estavam longe, todos dispersos por países estrangeiros, todos longe uns dos outros. Quem podia chegar assim tão tarde. Sentou-se à beira da cama. Levantou-se devagar e dirigiu-se para a porta a titubear entre o sono e o sonho, sem saber se ouvira mesmo bater à porta, sem pensar ia lentamente abrir a porta. Quando abriu, um ser quase familiar surgiu na sombra do vão da porta. Sussurrou umas palavras inaudíveis. Balbuciou um nome...Sérgio?...És tu? Ana da Palma, Gazeta das Caldas, 8/09/06

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