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ARESTAS

ARESTAS

Interlúdio (2)

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Desci lentamente a escadaria da colina de San Giusto em direcção ao teatro romano. A Bora, um vento do norte, frequentemente representado como um cavalo e com um passado mitológico importante, soprava violentamente à beira do Mar Adriático e percebi porque é que o associavam à loucura. O vento forte pode provocar todo o tipo de desordem, tanto no mapa da natureza, como na paisagem interna de cada um de nós. Cheguei à estação e apanhei o último comboio que partia ao fim da tarde de Trieste para Veneza. Depois da cidade dos canais e dos pombos, dormi o tempo todo, não me lembro das estações por onde passei, não me lembro dos rostos à minha volta. Mudei de comboio várias vezes. Quando cheguei finalmente a Lisboa, já tudo estava muito verde, já o ar estava carregado de humidade e chapéus-de-chuva apressados desciam as ruas escorregadias e desapareciam no metro, nos prédios e nos carros. Fetos e musgos cresciam nos telhados das casas antigas. Senti-me diferente. Desde Janeiro que não me via ao espelho. Não me apercebi que a minha pele tinha mudado. Não me apercebi que já não era apenas eu, mas que éramos dois. Passávamos as tardes nas estações de comboio. Em primeiro, no Rossio, depois mudámos para Santa Apolónia. Era maior. A partida, tal como a tínhamos concebido em sonho, durante anos, aquele outro, ainda por vir, e eu, ganhava em significado. Não dei importância à mudança. Desprendi-me para apenas considerar tudo aquilo que era exterior ao meu corpo. Durante vários dias, tive o mesmo terrível pesadelo semeado de imagens de horror. Batalhões de crianças suspensas e petrificadas com um esgar aterrorizado, o corpo tenso e aninhado na opacidade do ar, os olhos esbugalhados e injectados de sangue, os rostos brancos e os lábios roxos semi-abertos povoavam as minhas noites. Não havia explicação para tanta dor, mas o corpo permanecia o local do crime. Escrevi uma carta, muito longa, para me libertar das noites assustadoras. Funcionou, pois, por vezes, procurar as palavras para identificar o que nos parece inexplicável, acaba por resolver uma parte do problema e afastar os fantasmas, as angustias, as culpas ou projecções, mas não me lembro nem do conteúdo da carta, nem a quem a mandei. Melhor assim. Desprendemo-nos. Continuei sem saber aquilo que era para vir. Como sempre. Como todos nós! Não há mistério nessas coisas. Concordei com uma seita gnóstica que dizia que o passado estava à nossa frente, porque o conhecíamos, enquanto que o futuro ficava atrás de nós, porque não sabíamos o que iria ser. Pensando assim todas as perspectivas de vida mudavam, porque o futuro já não se distinguia por ser algo com uma duração indeterminada, mas ilimitada, como se fosse uma fonte de possibilidades, como se fosse algo que abrisse um caminho, onde o tempo, enquanto duração, predomina. O futuro acabava por tecer-se sobre algo conhecido e identificável, que não dependia do tempo, mas apenas do conhecimento. O presente fazia a ponte entre dois momentos, um com uma duração destorcida, porque vivia da memória e outro feito apenas de instantes que se sucediam a uma velocidade vertiginosa. O conhecimento do passado só podia dar uma vaga ideia do que seria o futuro. Isto trouxe-me algum reconforto. Acabei por despir as paredes dos mapas e dediquei-me atentamente a observação das nuvens. Nunca pensei que o céu dava origem a tantas palavras, mas faz sentido, porque os Homens sempre procuram um nome para todas as coisas. Identificar o que nos rodeia facilita a sua compreensão. Neste caso, antes de procurar um nome, houve um registo, houve uma imagem. Foi assim que comecei um relatório nefelibata, para me obrigar a olhar para cima. Foi assim que registei o aparecimento quotidiano das nuvens. Post-scriptum: fora apenas outro pequeno interlúdio para repousar da “cultura”. (Ana da Palma, Gazeta da Caldas 24/02/06)

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