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ARESTAS

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Outras Valsas

Tenho dificuldades com as palavras nestes dias violentos em que o frio do corpo e da alma nos corroem e sinto-me tentada pelas palavras de uma personagem de um texto de Jacques Prévert, que diz ter frio na cabeça. Apesar de umas remotas origens marranas, não consigo calmar a razão que me diz que um povo tem direito a viver em paz dentro das suas fronteiras. Quando consulto as notícias que consigo ler e por vezes «entre-ler» de todos os lados: Le Monde, o Público, Info-Palestine, ynet news, Alive in Gaza, Gaza Today, le Nouvel Observateur, le Fígaro, The Times, The Guardian, el País, fico sempre desesperada ora por tanta injustiça, crueldade e sangue, ora por tanta ignorância e manipulação.

Marek Edelman[1], o último sobrevivente do Gueto de Varsóvia, aquele que, pelo que parece, Claude Lanzman não incluiu no seu elucidativo filme, intitulado Shoa, revela uma voz inaudível. É a palavra daqueles que não pactuaram com a proposta subversiva do mundo ocidental, com um objectivo duplo, por um lado, lavar a consciência europeia do genocídio cometido durante a 2ª Guerra Mundial, juntamente com um estigma ancestral mal resolvido e por outro lado, ficar «devedores e descansados» com uma presença que se quer defensora do Ocidente no Médio Oriente e que é a única presença democrática na região. É certo que Israel está rodeada de estados policiais, é certo que Israel é uma ilha de democracia num mar de ditaduras, mas isso não justifica a expropriação das terras dos palestinianos. Revi a postura de Marek Edelman em alguns textos de Jacques Derrida e até na tentativa de Sartre[2], aquela voz que levaram judeus a permaneceram onde sempre viveram em vez de apanharem o barco, o último barco que levou os últimos judeus para Israel, aspecto que também vem referido no último filme de Godard intitulado Notre Musique. Não acredito num estado Católico, Judeu, Islâmico, etc., mas as palavras que aparecem nos jornais levam-nos a confundir tudo, porque como é possível contrapor um Estado Judeu a um Estado Árabe? Pois existem árabes que são judeus! Logo, penso que por um lado, um jornalista que usa as palavras tem que ter cuidado e empregá-las justa e correctamente e, por outro lado, terá de ter ou de procurar ter um profundo conhecimento da história da religião e da História dos Homens para fazer um verdadeiro trabalho de informação.

As notícias desfazem-se em contradições, deturpações, os vídeos online pululam sem credibilidade, as comunidades judaicas dedicam-se a ilibar Israel a todo o custo, confundindo frequentemente estado judaico, estado de Israel, estado palestiniano, estado islâmico. Foi e é uma guerra a todos os níveis e no entanto seria com as palavras que as coisas se poderiam resolver, mas isto com a justeza e agudez da palavra certa para cada coisa.

Quem viu o filme de Ari Folman e seguiu na imprensa regular e a outra «não alinhada» e nos blogues algumas informações sobre a realidade de Gaza durante os ataques que decorreram de 27 de Dezembro 08 a 18 de Janeiro 09, pode verificar algumas semelhanças nas técnicas e práticas...pois entre 1982, 2008-2009 há coisas demasiado parecidas, mas desta vez com o possível (provável segundo informação de The Palestine Chronicle[3]) uso de armas proibidas tais como o fósforo branco. Desta vez não é a milícia falangista a cometer crimes sob o olhar condescendente da armada israelita, mas pelo que parece surgiram espiões e a Fatah pelo meio para «fazer» o que a armada israelita nunca poderia fazer, posto que como dizem os dirigentes militares israelitas, os seus soldados são educados com uma noção «maior da humanidade».

Valsa com Bashir é um acto de coragem por parte de um homem, ex-soldado israelita e realizador que de certa maneira se expõe, posto que o que retrata não é provavelmente do agrado de alguns dirigentes actuais, mas não vai além de uma terapia que procura a desculpa. A fórmula do filme em animação, ou o documentário de animação alivia as tensões e as dores do horror, mesmo se no final, como um ressurgimento implacável da memória, aparecem fragmentos de imagens retiradas de reportagens da época. Partindo do princípio que um documentário destina-se a nos fazer pensar no assunto tratado, o próprio uso do esquecimento dos momentos trágicos das nossas vidas não nos ilibam e é um aspecto que sobressai ligeiramente neste filme como uma possível desculpa.

Os nossos media, para não se envolverem demasiado ,reportam com grande alarido a história terrível de Ezzedine Abou Al-Aish[4], um médico palestiniano cujas três filhas morreram a 16 de Janeiro num ataque israelita, ilustrando a dor e o desespero de todos os outros. E no final, percebemos porquê Israel e os USA não assinaram o tratado de Roma que criou o Tribunal Internacional. Percebemos porque é que o governo israelita avisou os seus soldados para não saírem de Israel[5], temendo as acusações de uso ilegal de armas proibidas. O que terão a temer? Será por esta razão e outras mais ocultas e obscuras que proibiram a entrada de jornalistas em Gaza durante o conflito? Agora o que parece chamar a atenção são divergências internas entre o Hamas e o Fatah, mas isto só vem ocultar o mais importante, isto é, o direito a não ser expulso, expropriado das suas terras, o direito a viver em paz nas suas casas ancestrais.

(PS: este post era mais completo, mas estranhamente desapareceu no momento em que já estava publicado. Vou tentar repor as palvras e os links do post inicial)



[2] Jean Paul Sartre, Réflexions sur la question juive, Paris, Gallimard, 1954.

 

 

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