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ARESTAS

ARESTAS

tradução: Perceber a crise

Perceber a crise

de Pierre Larrouturou, economista socialista que tem anunciado a queda do sistema há vários anos.  (Les Inrocks)

 

1. Porquê este súbito pânico?

Desde que rebentou a crise das subprimes, em Junho de 2007, toda a gente anda finalmente inquieta com a importância da dívida acumulada pelos Estados Unidos.   Em 1929, quando rebentou a última grande crise do capitalismo, a dívida total (privada e pública) representava   130% do PIB americano. Hoje, atinge 240 % e até ultrapassa os 350% ao integrar a dívida do sector financeiro! Percebemos que um tal nível de endividamento torne os mercados nervosos. Mas até agora os bancos centrais fizeram tudo para evitar um descalabro do sistema : há cerca de um ano, por várias vezes, emprestaram alguns milhares a este ou aquele banco com necessidades urgentes para honrar um prazo junto de outro banco. Resumidamente, as praças financeiras andavam agitadas mas aguentavam-se. A 15 de Setembro de 2008, a falência de Lehman Brothers, um dos bancos mais importantes dos Estados Unidos foi a gota de água. Por razões ainda desconhecidas, o governo americano e o Banco central americano decidiram deixar este banco ir à falência. Pois Lehman Brothers devia quantias consideráveis a outros bancos, que viram imediatamente o seu valor na bolsa cair. Como a situação de Lehman Brothers não era fundamentalmente diferente das dos outros bancos, muitos pensaram : «É apenas a primeira. Se Lehman faz falência outros bancos também vão ir à falência.» E, foi o início do pânico.

2. Por que é que o país mais rico do mundo está tão endividado?

Com recuo e analisando as estatísticas fornecidas pela Reserva Federal para os últimos cinquenta anos, percebemos melhor de onde vem esta crise. Entre 1950 e 1980, a relação divida/PIB estava perfeitamente estável nos Estados Unidos porque a economia estava regulada por um compromisso «fordista»  : um certo número de regras colectivas asseguravam uma progressão regular dos salários e uma partilha equitativa dos ganhos de produtividade entre assalariados e accionistas. Estas regras do jogo estão na origem dos trinta anos de forte crescimento que os Estados Unidos e a Europa conheceram. Mas, em 1981, Ronald Reagan chega à Casa Branca. Foi a partir daí que a dívida vai consideravelmente aumentar. Num primeiro tempo a dívida pública (por causa da diminuição dos impostos sobre os mais ricos), mas sobretudo a dívida privada, porque a precariedade do mercado do trabalho conduz a uma diminuição de uma parte dos salários no PIB: um número crescente de casais americanos são obrigados a endividar-se para poder continuar a consumir.
Num contexto de ganhos de produtividade muito elevados, as políticas neoliberais provocaram nos mercados uma catastrófica precariedade.
O último relatório económico da Casa Branca indica que a duração real do trabalho (sem contar os desempregados) caiu para 33,6 horas porque milhões de assalariados americanos apenas trabalham 10 ou 15 horas por semana. Pequenos empregos, pequenos salários...milhões de americanos viram os seus rendimentos diminuírem no decorrer de vinte anos. Se o consumo continuou de aumentar, é unicamente porque as classes médias e as pobres foram levadas a endividarem-se um pouco mais de ano para ano. Até ficarem endividados além do razoável.

Ao criar milhões de pequenos empregos, compromete-se a demanda duravelmente. Havia portanto que dar asas ao crédito. Por um lado, retira-se uma parte do salário dos trabalhadores para remunerar melhor os accionistas, por outro lado, empresta-se lhes dinheiro para que possam continuar a comprar o que as empresas produzem.   A crise actual não é apenas devida à inconsciência de alguns cambistas loucos. O problema é mais grave e mais profundo : para assegurar um máximo de benefícios aos accionistas mantendo o nível de consumo da maioria, o neoliberalismo teve estruturalmente necessidade de um endividamento crescente. Como explica Patrick Artus, director de estudos da Caixa de Depósitos e consignas, “sem o aumento da dívida dos casais, o crescimento seria nulo na zona euro desde 2002”. Na Grã-Bretanha, a dívida dos casais ultrapassa os 160% do rendimento disponível. Um estudo recente revela que, sem o aumento da dívida dos casais, a Grã-Bretanha estaria em recessão desde 2002!
É um ponto fundamental: a crise não é o resultado da excessiva remuneração dos banqueiros e dos presidentes directores gerais, mas de uma remuneração insuficiente do conjunto dos assalariados durante vinte e cinco anos.  

3. Como funciona o contágio?

Para melhorar a sua rentabilidade a curto prazo, os bancos europeus foram comprar aos Estados Unidos produtos financeiros que se revelaram podres. Portanto registaram perdas colossais. Consequência : vão emprestar menos dinheiro às empresas e nomeadamente às pequenas e médias empresas que vão portanto diminuir o seu investimento. É a primeira causa do contágio. A segunda decorre do facto que a parte dos salários no PIB caiu muito baixo : os casais ocidentais precisam de se endividar para continuar de consumir. Se os bancos não lhes dão novos créditos, a demanda vai obrigatoriamente diminuir.  

As raízes da crise financeira são trinta anos de crise social.  

4. Justifica-se a semelhança com 1929?

Globalmente, infelizmente, sim mesmo se há algumas diferenças importantes. Há trinta anos que vivemos a repetição do cenário que conduziu a 1929. Primeira etapa: ganhos de produtividade elevados que provocam um desemprego e desequilibram a negociação sobre os salários. Entre 1900 e 1920, forma as novas formas de organizar o trabalho de Ford e Taylor (ver Charlot nos Tempos Modernos). Há trinta nãos que é a revolução informática e robótica. Segunda etapa: a diminuição da parte dos salários e o aumento contínuo dos benefícios fornece momentaneamente uma nova força à esfera bancária e bolseira. Terceira etapa: a euforia sobre os mercados financeiros torna-se pouco razoável. Em França, a parte dos salários no PIB diminuiu de 11 % em vinte e cinco anos. Este ano, foram cerca de   200 bilhões de euros  que reverteram para benefícios quando teriam sido para os assalariados se tivéssemos guardado o equilíbrio salários/benefícios do início dos anos 1980. 200 Bilhões num único ano! E, em vinte e cinco anos, são uns 2 500 bilhõess que deveriam ter ido para os assalariados e que saíram de França para a esfera financeira...percebemos que alguns tenham perdido todo o bom senso da medida e que tenham especulado imaginando que este movimento de baixa dos salários e de aumento dos proveitos ia durar para sempre. Infelizmente,  há sempre um momento em que a euforia acaba e onde é necessário regressar à realidade. O sistema é insustentável.   Felizmente, os nossos governos tiraram algumas ilações de 1929 e, há um ano, no sentido de evitar o desmoronar do sistema financeiro. Mas o problema permanece : o desemprego e a precariedade provocaram o desequilíbrio entre salários/benefícios. Salvar os bancos é necessário mas não é suficiente para sair da crise. As raízes da crise financeira são trinta anos de crise social.

Se não saímos da crise social, não resolvemos nada. Após 1929, houve 1933 (a chegada de Hitler ao poder) depois a guerra de 1939. Hoje, o que é muito inquietante é a situação social nos Estados Unidos ou na Europa, mas sobretudo o que se passa na China. Todos os mentecaptos que durante anos nos diziam que não havia riscos de recessão nos Estados Unidos afirmavam com a mesma alegria que em caso de abrandamento a China continuaria. Infelizmente, constatamos hoje que o crescimento é nitidamente lento na China (diminuição das exportações e rebentamento da bolha imobiliária). Ora a situação social está tensa. Em oito anos, a China duplicou o seu orçamento militar. E, na semana passada, os Estados Unidos venderam mais de 6 milhares de armas ao Taiwan.

Não nos atacamos ao verdadeiro problema : a crise social e a distribuição cada vez mais desigual das riquezas que esta provoca.

5. Os planos Paulson  e Sarkozy estão à altura?

O plano Paulson assim como as acções levadas a cabo pela Europa pelos diferentes governos deveriam permitir de evitar o desmoronar dos bancos.   Nada fazer teria sido mais dispendioso. É escandaloso de ver como os dinheiros públicos são utilizados para salvar um sistema podre pela avidez da especulação, mas é urgente agir. Em vários países, há recurso à justiça e podemos esperar que aqueles que agiram de forma totalmente cínica terão a oportunidade de reflectir sobre a gravidade dos seus actos passando alguns meses atrás das grades. O Plano Paulson (e tudo o que fazem os bancos centrais sem teorizar) vai com certeza permitir de evitar uma hecatombe do sector financeiro, mas mais uma vez não nos atacamos ao verdadeiro problema : a crise social e a repartição cada vez mais desigual das riquezas que esta provoca.

6. Quais as consequências sobre a economia?

Em Espanha, o desemprego aumentou de 600 000 pessoas num ano, devido à queda do imobiliário. O desemprego aumentou igualmente em França, e um dos grandes patrões dos construtores anunciava no Le Monde de 10 de Outubro que o sector ia perder 180 000 empregos. Agora tudo vai depender das escolhas políticas. Vamos suprimir 180000 empregos na construção ou libertar orçamentos para que esses 180 000 possam construir habitações sociais e isolar as construções existentes? A crise financeira vai diminuir a nossa ambição em matéria de luta contra o problema climático ou será que vamos perceber de uma vez por todas que responder à crise ecológica é um dos meios para responder à crise social ?

7. Sarkozy quer punir os culpados Quem são eles?

Quero desenvolver o crédito hipotecário em França. Foi o que ajudou o crescimento nos Estados Unidos ”, afirmava Nicolas Sarkozy, há dois anos (Les Echos de 09/11/2006). Há dois anos, Nicolas Sarkozy estava totalmente encantado pelo « milagre americano » e queria importar todas as receitas. Quando afirma hoje que quer punir os culpados é um descaramento, pois ele faz parte dos culpados ! Os verdadeiros culpados, são os seus amigos, as suas referências ideológicas: Ronald Reagan, Margaret Thatcher, George W. Bush...

8. As acções do governo vão nos fazer sair da crise?

Para salvar os bancos e proteger as economias dos cidadãos, o governo faz o que pode. Por outro lado, quase todas as decisões tomadas há dezoito meses estão no mau caminho. A reforma do mercado do trabalho que Nicolas Sarkozy e François Fillon impuseram aos parceiros sociais inspira-se na reforma Hartz 4, desenvolvida na Alemanha há uns anos. Mas esta reforma Hartz 4 provocou a queda de 6 milhões de alemãs até aos limites da pobreza, forçando os assalariados no desemprego a aceitarem pequenos empregos de 400 euros por mês. Temos que ser honestos: estas políticas económicas vão agravar a crise. O que precisamos é que a Europa seja capaz de iniciar um verdadeiro New Deal.

9. A Europa é útil ou nociva?

Necessária, mais do que nunca! Se não tivéssemos uma única moeda, o pânico nos mercados financeiros seria ainda mais grave e as taxas de empréstimo ainda mais elevadas. Devemos portanto estar felizes de termos criado o euro. Por outro lado, o dumping fiscal europeu diminui nitidamente as nossas capacidades de acção. Nos EU, as taxas de impostos sobre os benefícios é de 40 %. É apenas de 25 % na Europa porque, desde a entrada da Irlanda na UE, procedeu-se à diminuição do imposto para atrair empresas. Nunca jamais os benefícios foram tão elevados, mas nunca se diminuiu tanto o imposto sobre os benefícios. É dramático porque isso diminui nitidamente os recursos dos Estados membros. Pois precisamente, face à crise, as necessidades são enormes : para apoiar a actividade, para financiar a investigação, as universidades, a habitação ou a luta contra o problema climático.

10. Onde vamos?

Em 1989, o muro de Berlim caiu. E, alguns disseram-nos que o liberalismo era a única solução. Vinte anos mais tarde, é a impostura neoliberal que por sua vez cai. Ninguém pode acreditar que os mercados livres fazem a felicidade da humanidade. Hoje devemos enfrentar esta crise financeira, mas também as crises energética, climática e alimentar.   Em todas estas áreas, o hiper-capitalismo levou-nos contra a parede. Temos agora a obrigação de imaginar muito rapidamente uma alternativa. Na China ou noutras partes, a situação pode degenerar-se muito depressa. Iniciou-se uma corrida para inventar uma alternativa concreta ao liberalismo antes que todo o sistema económico desabe uma vez por todas. Há ideias novas, mas andam dispersas, cada um trabalha no seu cantinho. É como os elementos de um puzzle: agora é preciso juntar as peças para dar lugar a um novo projecto de sociedade. “O mundo não será destruído por aqueles que fazem o mal, mas por aqueles que os observam sem fazer nada”, dizia Einstein. 

16 Outubro de 2008


(fonte: http://www.lesinrocks.com/index.php?id=125&tx_article[notule]=208307&cHash=cbda3febf5)

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