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ARESTAS

ARESTAS

Lápis de Bordalo e Lápis de Daumier

Eis uma notícia interessante no Público! Uma exposição portuguesa com cerca de 200 desenhos do caricaturista Honoré Daumier vai ser exibida no maior salão de humor de França. A mostra vai integrar o 27.º Salão de Caricatura de St-Just-Le-Martel, numa iniciativa do Museu Nacional de Imprensa. “Honoré Daumier é o melhor caricaturista do mundo”, disse ao PÚBLICO Luís Humberto Marcos, presidente do museu.

...

Uma pena não termos podido promover o património bordaliano das Caldas, aproveitando estas comemorações em torno do Daumier, para exportá-lo também!

 

Aproveito para publicar o texto integral datado de 2005  ( um resumo saiu na Gazeta e aqui) sobre a exposição: Obra Gráfica

O lápis de Bordalo instrumento da confluência entre História e Arte – Bordalo nas Caldas – Obra Gráfica

“Raphaël Augusto Bordallo Prostes Pinheiro (...) desde muito creança principiou revelando-se um temperamento insubmisso e voluntarioso, rebelde a toda a dominação e rotina, como frisantemente o demonstra esta anecdota interessantíssima. Sahido um domingo a passear com o avô, a cuja rispidez ninguém se atrevia a replicar, o pequeno Raphaël, encontrando no caminho outro petiz que lhe não despertou sympathia, entendeu que lhe não devia fallar, motivo pelo qual o severo jurisperito o censurou asperamente, fazendo-lhe ver que um menino bem educado devia cumprimentar todos os conhecidos. Raphaël tomou nota, e no domingo immediato, repetindo-se o passeio, desata a certa altura em grandes barretadas, sem que naquella occasião fosse passando alguém.

            - Quem está o menino a cumprimentar d’esse modo? – perguntou intrigado o avô, franzindo o sobrolho.

            - O avô não me disse outro dia para cumprimentar todos os conhecidos? Inquiriu por sua vez o pirralho.

            - Disse, sim senhor.

            - Pois está alli um meu conhecido... – respondeu Raphaël Bordallo.

 

 

 

E continuando a acenar com o chapéu, apontava um cão vadio que costumava errar por aquellas paragens.”

 

(Manuel de Sousa Pinto, 1915)

 

 

É a este homem, Rafael Bordalo Pinheiro, que sempre preservou a capacidade de surpreender e de ser surpreendido, que o Museu do Hospital e das Caldas dedicou a exposição intitulada Bordalo nas Caldas – Obra Gráfica. Através de reproduções e originais, seleccionados numa pesquisa elaborada pelo Património Histórico - Grupo de estudos e pelo Museu do Hospital, apresenta-se o olhar, moralizador social e político, do artista, sobre as Caldas da Rainha, nas publicações do António Maria, dos Pontos nos ii e da Paródia.

Se para constituir um território são necessários poucos estímulos; se a constituição de um território é quase o nascimento da arte, tal como afirma um grande filósofo francês, um homem de unhas curvas amareladas, de que confessava que as deixava crescer precisamente para poder escondê-las nos bolsos, então o território construído por Rafael Bordalo Pinheiro está abocado com a arte. Por um lado, pelo legado que constitui a sua obra gráfica para a história social e política da época, para a caricatura portuguesa, como para a banda desenhada e, por outro lado, pela actualidade imarcescível do seu traço e do seu olhar. Em todas as artes, a perenidade, não tanto no sentido do registo e do suporte, mas na forma como dialoga e se imiscua nos nossos tempos, na perfeição da composição e na actualidade dos conteúdos, é o que faz de uma obra uma obra de arte. No caso de Rafael Bordalo Pinheiro os estímulos são: o campo, a linha e a luz. O território constituído implica, no domínio dos signos, emitir e reagir aos estímulos. Por um lado, as ideias transmitidas atingem o seu efeito máximo quanto mais breve, mais resumido o traço ou o signo. Por outro lado, o artista desenvolveu uma linguagem gráfica metafórica com grande sabedoria, utilizou signos e símbolos de forma subtil e refinada, criou neologismos e soube empregar de forma sistemática todos os recursos ou efeitos do cómico. “Vamos tentar ter alguma piada” dizia ele. Alguma piada é pouco, para um homem que revela ter um profundo conhecimento da natureza humana e uma sensibilidade exacerbada dos processos de transferência e equivalência. É de uma extrema modéstia, quando sabemos o impacto que tiveram as suas publicações.

“Je vous dois la vérité en peinture, et je vous la dirai” (Cézanne a E. Bernard, 1905) Como se diz a verdade com as ferramentas da representação gráfica? Sabemos que os estudiosos das academias das artes davam importância à cópia dos modelos, à mimese, à cópia da natureza, mas como copiar o seu movimento? Como conceber um desenho como se fosse um instantâneo fotográfico? Desde muito cedo, alguns pintores de renome dedicaram-se à expressão do rosto. Neste contexto, houve estudos preciosos, sobre como sugerir efeitos de luz ou de textura e sobre a mestria das expressões fisionómicas, feitos por alguns pintores. No campo da caricatura, além do traço, todos remetem para a distinção teórica básica entre semelhança e equivalência. Os artistas preocuparam-se em desenvolver a sua memória visual e estudar as expressões do rosto humano. Neste campo as descobertas foram sucedendo-se. Leonardo da Vinci trabalhou os traços fisionómicos do rosto humano. Em 1696, Charles Le Brun dedicou-se ao estudo do desenho das paixões humanas com La Méthode pour apprendre à dessiner les passions. Mais tarde, William Hogarth debruçou-se sobre a memória visual da fisionomia da expressão humana. Alexander Cozens, o pintor das formas nefelibatas, trabalhou sobre o rosto, fazendo variações de proporções, antecipando o estudo sobre a caracterização fisionómica do genovês Rodolphe Töpffer, cujo trabalho influenciou o alemão Wilhelm Bush. Todos estes nomes tiveram uma importância na formação de um Daumier e de um Bordalo. Quanto à memória visual de Rafael Bordalo Pinheiro resta-nos o testemunho de Manuel de Sousa Pinto: “É que, muito antes da invenção dos Kodaks, Raphael Bordallo dispunha de uma retina que, no tocante à fidelidade e rapidez, nada tinha que invejar às mais aperfeiçoadas e instantâneas objectivas photográphicas, como, alliaz, de um modo inaudito e oneroso o reconheceu a Fazenda Pública.” Por outro lado, como é que se pode dizer a verdade em tempos opacos, em anos de distúrbios sociais, de crises políticas ou financeiras ou de repressão, senão pelo traço deformado, aquele que vai produzir equivalências, transferindo uma característica particular, criando uma equivalência com o animal ou o vegetal, realçando uma protuberância quase evidente, como trabalhar o signo para apontar a verdade, dizendo-a, revelando-a? Podemos ver a resposta a algumas destas perguntas nas peças apresentadas na exposição Bordalo nas Caldas – Obra Gráfica. Podemos perceber o grau de inteligência atribuído ao Infante D. Augusto, por meio da simples representação de um corpo enorme e desproporcionado em relação à cabeça (“Príncipe nas Caldas”, António Maria, 3º Ano, 21 de Julho 1881, p.230, 231). Podemos apreciar a louca aliança de imaginação gráfica, servindo o profundo desagrado que causa o administrador do hospital das Caldas o Pim, nome dado ao Conselheiro Pimentel. Como utilizar a metáfora de forma tão clara e evidente que não deixa qualquer dúvida possível para outras interpretações? Assim cada administrador do hospital termal é representado sob a forma de uma sereia. Perto do hospital termal, no meio de um lago, aparece a Sereia Pim (Pimentel), a quem sucedeu a Sereia Mazilapatão (Rodrigo Berquó). Alguns teóricos anotaram que o artista que atinge o auge da sua mestria na arte de representar acaba por ser mais breve, mas resumido e por ter a faculdade de poder, num traço apenas, dizer a verdade, toda a verdade.

Neste contexto, o campo e a linha da caricatura, que devemos aos irmãos Carracci, serviu para formar o olhar crítico dos homens, mas também para ir mais longe na representação comprometida, que outrora chegou a ser submetida às tesouras de Anastásia (a censura), mas de que podemos, hoje em dia, verificar a herança e desfrutar a plenitude. Teríamos de falar de “O Lápis de Bordalo” à semelhança e igualmente ao de Daumier, para referir uma maneira impiedosa e precisa de retratar a sociedade, a vida política e as artes, posto que é com um pincel/lápis na mão que, frequentemente, o artista se representa.

 

 

A exposição, além de mostrar as obras de Rafael Bordalo Pinheiro e de ter um carácter didáctico, posto que relata um período da história das Caldas da Rainha e em particular do hospital termal, revela uma sensibilidade muito especial no percurso expositivo. Começa ao entrar pela direita, exactamente como se lê um livro, depois podemos seguir as pegadas traçadas no chão. Começa e acaba sob a forma de uma dupla homenagem. É uma dupla homenagem, porque representa Rafael Bordalo Pinheiro agradecendo às Caldas depois da sua chegada do Brasil e serve como agradecimento ao artista por ter enaltecido esta cidade de província com a sua obra gráfica e cerâmica. É com esta belíssima peça original que se abre a exposição. Esta primeira peça, datada de 24 de Setembro de 1899, apresenta o próprio artista, dizendo que está “Muito agradecido à gentileza com que foi recebido nas Caldas”, ladeado por dois papagaios, um macaco à sua direita e um gato à sua esquerda. Tanto o macaco como o gato parecem estar na mesma postura que o Rafael, todos com a mesma inclinação, todos demonstrando a sua gratidão às Caldas. Este desenho, como nos é indicado, foi feito depois do regresso de Rafael do Brasil, onde a rifa vencedora da Jarra Beethoven, acabou por lhe ser devolvida e ficar fechada num envelope no seu quarto de hotel. Rafael resolveu oferecer a Jarra e regressar a Portugal, sem ter realizado o ganho a que se propunha para poder pagar os empregados da fábrica de faianças. O percurso termina por uma homenagem de caricaturistas da época ao mestre Bordalo, com desenhosSantos Silva, Monterroso, Jorge Cid, Jorge Colaço, Arnaldo Ressano, Francisco Teixeira. Além das obras expostas constituírem documentos históricos, sendo estes registos reveladores da vida política e social, não podemos deixar de apreciar as características que fazem de Rafael Bordalo Pinheiro, um grande artista, o traço inconfundível, a ironia e o humor que lhe são próprios, as inúmeras correspondências culturais portuguesas, estrangeiras, históricas e mitológicas. Podemos verificar o percurso do artista e a sua ligação à cerâmica, numa reprodução dos Pontos nos ii de 26 de Dezembro de 1889, supl. p.12, intitulada “Bacia e Jarra de faiança branca das Caldas – A forma, o ornato e o exotismo”, retratando peças compradas por um senhor de nome francês: Mr. Coquelin. Foi neste mesmo ano que as obras de Rafael foram expostas na Exposição Universal de Paris. Segundo os relatórios da exposição, parece que o artista caldense conseguiu comprador para quase todas as peças e até obteve algumas encomendas. Diz-se que de regresso às Caldas, a fábrica não pode fazer frente às despesas, nem proceder às encomendas. As restantes reproduções e originais vão principalmente retratar a vida social das Caldas, a visita de personalidades importantes, a arte e tradição cerâmica e a chegada dos caminhos-de-ferro às Caldas. É um acervo artístico e histórico, rigorosamente seleccionado, sobre um período da vida Caldense que requer tempo e dedicação para apreender os riquíssimos conteúdos de cada peça. Para os que se interessam pelo idioma nas artes representativas, a caricatura parece ser um dos caminhos de análise possível. A caricatura fala por si e/ou alia o desenho à palavra. Eis aqui uma das particularidades deste que devemos equiparar ao artista francês, Daumier. São momentos íntimos entre a História das Caldas da Rainha e a Arte ofertados pelo “Lápis de Bordalo”.

 

 Ana da Palma 12/08/2005

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