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ARESTAS

ARESTAS

Entre Muros


 

Desde sempre se construíram muros, primeiro para nos defender das invasões, proteger as nossas vidas, as nossas terras e os nossos bens. Só mais tarde é que outros tipos de muros se construíram. Se depois do muro de Berlim, estes muros impregnados de ideologia política e de opções de políticas internas começaram a proliferar sob o olhar impassível da ONU e das suas recentes e inconsequentes resoluções, estes parecem estar ancorados numa ideia de algo que sempre foi utópico, mas que paradoxalmente se afasta dos nossos textos fundadores e primordiais que apontam para a livre circulação dos seres humanos. Pois, nos mais conhecidos relatos utópicos, o espaço em que tal organização política e social é possível é sempre «entre muros», num espaço fechado.

Hoje em dia, apesar da famigerada ou bendita mundialização, continua-se a criar e construir muros que sob a égide da política constrange, limita, espia e/ou proíbe a livre circulação do ser humano, mas desta vez, estas divisões são feitas de olhos digitais indiscretos, de betão, de arame farpado e até de areia. Basta lembrar: o muro israelita de 730 km, a projectada barreira americana de cerca de 1120 km, a linha verde em Chipre, os «no man’s land » da Coreia, do Nicarágua, o arame farpado em Ceuta e Melila e o muro de areia de cerca de 2000 km no Sara Ocidental[1].  Parece que os governos estão todos muito empenhados em proteger algo pouco claro, mas sempre apresentado como sendo a protecção dos seus cidadãos face a outros cidadãos que por vezes até podem ser cidadãos conterrâneos!

Como perceber a fúria desencadeada, esporádica e especialmente em tempos pré-eleitorais, em torno da Segurança Nacional? Podemos verificar o grande desejo dos nossos governos europeus em controlar, as nossas deslocações, despesas, dívidas, doenças e quiçá cidadania? Por vezes, estas persistência dos media em torno dos assaltos e de outros crimes é duvidosa. Por um lado, ficamos «sem saber» se há sempre crimes - o que seria mais plausível -, ou se de facto os crimes só surgem antes de eleições. Portanto podemos ter dúvidas e perguntar-nos, se toda esta informação é autêntica ou manipulada. Também podemos pensar que por efeito de recuperação ou de aproveitamento, ou ainda de instigação o ruído em torno da segurança parece nada mais que uma manifestação profunda de um estado pseudo-democrático, em que a atitude paternalista exacerbada, decalcada sobre outros modelos longínquos e impostos que aliciaram a nossa fraca capacidade de discernimento europeia, atinge profundamente os nossos pobres neurónios gastos pelo fluxo de perfusões contínuas de electrões, ou das nossas retinas desgastadas pela inundação de LCD. São fluxos contínuos de imagens que infelizmente não chegaram a cumprir totalmente a sua primeira razão de ser, isto é, informar e dar a conhecer.  É estranho, ser neste preciso momento, que se fala das matrículas electrónicas, que se volta a falar do cartão de cidadão único, isto como sendo uma grande inovação da tecnologia de que evidentemente o cidadão deveria beneficiar, ainda que seja a seu custo, ainda que o lado prático não oculte o lado mais profundamente perverso, ou seja, o facto de, pouco a pouco, nos ser retirada a nossa Liberdade. Parece que a nossa suposta segurança vai ter um preço bastante elevado! Depois do medo, há sempre outro medo e um estado que alimenta e fomenta este medo deve saber o preço do risco! Se há segurança possível aos olhos dos cidadãos esta é a tépida crença de que o estado estaria inquieto com a nossa integridade física, posto que saúde insegura? Isso, conhecemos! Segurança social insegura? Sabemos! Trabalho inseguro, isto é, o plano iniciado à velocidade de cruzeiro na Europa inteira? Vamos descobrindo! Mas por que razão o único e grande seleccionado deste Verão é a Segurança? Será que uma chapa de matrícula detentora de uma série de dados íntimos e será que um cartão de cidadão condensando a nossa cidadania vêm ao encontro da nossa segurança e liberdade? Neste contexto de azedume, tudo sabe a amargura. Vamos continuar a acreditar que todos os muros do mundo são a solução?

 Ana da Palma

 Publicado na Informação Alternativa e na Gazeta das Caldas 10/10/08

 


[1] Para mais informações ler os recentes artigos publicados in Le Monde. Dossiers & Documents, nº 378, Septembre 2008.

 

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