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ARESTAS

ARESTAS

Entendimento surdo e mudo num mundo povoado por alguns zarolhos?


 

                  Durante um colóquio sobre ética organizado pelo Partido Socialista, veio-me à memória uma belíssima historieta de Michel Tournier, intitulada “La vie plane”. A minha primeira leitura e interpretação deste texto levou-me para a área das imagens, mais particularmente a fotografia, mas durante o colóquio, de súbito, a mesma história regressou-me com contornos irónicos. Isto é a felicidade da literatura ou a leitura feliz!

                  Quanto à ética, esta não se escreve, mas inscreve-se no presente. Não é Lei e não é Moral. Hoje em dia, pensar e colocar questões em torno da ética é muito pertinente, porque estamos submetidos a uma trasladação social que implica um repensar profundo e contínuo em torno da apreciação daquilo que nos parece ser bem e daquilo que pode ser mal, em tudo o que diz respeito às nossas escolhas, opiniões, aos direitos humanos, às decisões individuais e/ou colectivas e concordo com aquilo que está a configurar a ética do século XXI, num plano mais alargado, tal como João Serra anunciou durante o colóquio, mais ou menos por estas palavras “a ética no contexto da globalização, da questão humanitária e da questão genética” como ponto de partida para outros encontros em que cada uma das três áreas terá necessariamente que ser contemplada de forma específica e pormenorizada.

                  Mas, regressando a questões mais próximas, que dizem respeito aos modelos que temos e àquilo que toca o cidadão português quando a palavra ética é pronunciada, volto ao texto do autor francês. Trata-se de um homem que descobre simultaneamente maravilhado, espantado e assustado, ao ir à consulta de um oftalmologista, que é zarolho, apesar de possuir ambos os olhos! O médico diz-lhe que este fenómeno explica-se porque um dos seus olhos é míope e o outro hipermétrope. O homem louva a inteligência dos seus olhos com um certo orgulho, posto que, como por uma inteligência lógica e económica, alternam as tarefas no esforço de discernir o que se vê. Enquanto um trabalha durante a visão das pequenas distâncias, o outro descansa e assim acontece alternadamente para as grandes distâncias. O oftalmologista explica que apesar da questão prática ser um fenómeno interessante, o paciente só pode ver a vida plana, nunca em três dimensões, nunca com a profundez necessária, nunca com todos os contornos da realidade, provocando alguma preocupação no paciente. Finalmente, o problema resolve-se com uns óculos que, apesar de serem milagrosos e fornecerem a visão da perspectiva ao paciente, este recusa de usar pelo grande medo que a perspectiva lhe ocasiona.

Ai! A beleza e a facilidade de ver a vida tipo “folha de papel”! Papel...? papel...!

                  De súbito a felicidade do zarolho, vista a luz da teoria de Paul Ricoeur em torno da ética, o triângulo constituído pelo EU-TU-ELE, sorriu-me como uma metáfora possível, adequada e até divertida e perguntei-me: Serão alguns dos nossos dirigentes e ex-dirigentes zarolhos?

A ética segundo um dicionário de filosofia datado de 1960 é definida como a ciência que tem por objecto o julgamento da apreciação enquanto aplicado à distinção do bem e do mal. Antigamente, a ética foi aplicada à Moral sob todas as suas formas, ora como ciência, ora como arte de dirigir a conduta. Segundo Diderot a ética política tem dois objectos principais: a cultura da natureza inteligente, a instituição do povo e Ampere aplicou a palavra à moral descritiva (ciência dos costumes) por oposição à moral prescritiva (ciência daquilo que se deve querer), para H. Spencer é um fragmento de um todo incluído no estudo da conduta universal. A definição de Paul Ricoeur, tal como os seguidores de Kant, separa definitivamente ética e moral, propondo uma aproximação da ética em forma de triângulo, com três “pólos”, a liberdade na 1ª pessoa, o “rosto” do Outro – usando as palavras de Levinas – e a 3ª pessoa do singular (prefiro dizer 3ª pessoa, apesar de Ricoeur falar do ELE), como sendo um contexto em que se encontra um passado e o presente.

                   Mas onde encontrar o equilíbrio entre a liberdade e a lei? Alguns dos nossos dirigentes terão mesmo adquirido o sindroma da miopia e da hipermetropia simultânea e colectivamente? Uma parte da ética está aí, nessa dimensão terceira, onde a vida não é plana, mas constituída de relevos e a postura da personagem, a sua escolha em não usar os óculos dá que pensar... a liberdade do eu sobrepõe-se àquela que sabemos existir naquele que para nós é “tu” e que também é um “eu” vivendo ambos num determinado contexto? Será que a ética é algo precioso apenas para alguns?

 

Ana da Palma

 

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